GRUPO POEME-SE
40 anos de existência
Parece que foi
ontem, mas já lá se vão 40 anos desde que, no dia 2 de agosto de 1985, um grupo
de jovens resolveu se reunir e lançar, em São Luís do Maranhão, um Cartaz de
Poesia chamado Poeme-se Nº 1. Lembrando a seminal poeta norte-americana Emily
Dickinson, “viver é algo tão espantoso que sobra pouco tempo para qualquer outra
coisa”. Creio que vivemos, de quatro décadas até hoje, muito mais coisas do que
podemos ainda nos lembrar, e muitas dessas coisas foram espantosas. Uma delas
foi propor a ampliação de uma agitação poética que já estava em curso e que
começaria a fazer história ali naquele antigo Beco do Teatro, Centro Histórico
da capital maranhense.
Existe uma precedência
de toda essa narrativa. De fato, eu conheci o arte-educador Antônio João Leitão
Nunes (mais conhecido como Nunes) no início de 1981. Iniciava na Universidade
Federal do Maranhão - UFMA, o Curso de Desenho Industrial, e ele, o de Educação
Artística. Como os dois primeiros anos dos referidos cursos tinham as mesmas
disciplinas, frequentávamos as mesmas aulas, e foi aí que descobri que Nunes também
gostava de poesia e ainda escrevia. Fizemos amizade e começamos a nos
movimentar em torno da Literatura, participando de festivais, curtindo uma
louca boemia. Um dos bares que frequentávamos era o Brazeiro Baby’s (do velho
amigo Bastico), um muquifo que ficava na rua lateral da agência do Banco do
Brasil da praça Deodoro. Ali, entre uma libação e outra, e ainda com a presença
do poeta Ruy Lima (precocemente falecido em afogamento no rio Trombetas), que
conheci através de Nunes, surgiu a ideia de se divulgar poesia de forma
alternativa.
A proposta foi de
se publicar poesia num cartaz, no tamanho A 4, mimeografado, por intercessão de
Ruy Lima, que conseguiu o recurso. Além dele, também participamos, eu e Nunes,
com poemas nesse cartaz, documento que se perdeu. Após impresso, o cartaz foi
colado em paradas de ônibus por toda a cidade, com a ideia de se socializar a
poesia junto às pessoas. Dessa semente surgiu uma articulação entre alguns
poetas que já se conheciam, e daí a proposta amadureceu, o cartaz foi mais
elaborado e, adotando o nome Poeme-se, sugerido pelo poeta Ribamar Filho,
surgiu o Poema-Cartaz Poeme-se Nº 1, lançado no dia 2 de agosto de 1985, no bar
do grande músico e compositor Cláudio Pinheiro (que nos deixou em 2024),
situado no Beco do Teatro. No primeiro Poema-Cartaz participaram, além de mim,
os poetas Ribamar Filho, Wagner Alhadef e Rezende. Nunes não teve poema
publicados nesse primeiro Cartaz, por se encontrar fora de São Luís, na época.
Coincidência ou
não, o dia escolhido para o lançamento do cartaz foi o dia de nascimento do
grande poeta Nauro Machado, que mais tarde seria várias vezes homenageado pelo
Grupo Poeme-se. Também por coincidência, aconteceu naquela noite um show
musical no Teatro Arthur Azevedo, do já então célebre cantor e compositor
Belchior. De tal maneira que, após a saída do show, o público se dirigiu ao bar
de Cláudio Pinheiro, local cedido por ele a nós para promover a agitação
literária, e conseguimos vender vários cartazes.
Conheci o poeta
Ribamar Filho em dezembro de 1984, no Sapek’as Bar, um boteco localizado na rua
das Flores, nos fundos da igreja de São João, cujo proprietário era conhecido
como Sebá, no dia do lançamento da primeira revista literária (Uns &
Outros) do grupo da Akademia dos Párias, galera que movimentou a cena literária
ludovicense nos anos 1980. Fui apresentado a ele pelo Nunes, que já o conhecia.
De imediato fizemos amizade, que se solidificou ao longo de farras em bares,
encontros nos quais falávamos de poesia. Foi um momento em que a Literatura
fazia parte do cardápio de toda uma geração, o que alimentou o contato entre
vários poetas e permitiu a realização de alguns projetos, dentre os quais o
lançamento do Poema-Cartaz Poeme-se Nº 1.
A partir dessa
primeira investida, surgiu a prática de se imprimir poemas em camisetas, veio o
Poeme-se Nº 2, e foi criado o Sebo
do Poeme-se, na rua do Sol, numa sala cedida na então sede do PT em São Luís,
sala Zé Hemetério (mais tarde, após a revitalização da Praia Grande, o Sebo
mudou de endereço, indo se instalar na rua João Gualberto, no coração do Centro
Histórico). Nesse local, começamos a realizar Leituras de Poesia. Eu escrevia
um texto sobre determinado poeta, e publicava o mesmo, geralmente às
quintas-feiras, no Jornal O Estado do Maranhão, conclamando as pessoas a
participarem do evento, que era semanal.
Com o passar do
tempo, vários novos poetas foram surgindo e fortalecendo o já consolidado Grupo
Poeme-se: Cláudio Terças, Eduardo Júlio, Wilson Martins, Luís Henrique Resende,
Ricardo Leão, Jurandir Mamede, Paulo Oliveira, Elício Pacífico, dentre outros,
e alguns artistas do teatro, como Rosa Ewerton, Célia Seguins, Ellen Esse.
Dessas leituras poéticas surgiram os recitais e, por extensão, as performances
poéticas, dentre as quais se destacaram “Erótyka” e “O Inferno de Wall Street”,
baseado no Décimo Canto do Livro “O Guesa”, de Sousândrade (apresentação
realizada no Teatro do Centro de Criatividade Odylo Costa, Filho). Essa foi a
última ação performática do Grupo Poeme-se, que foi desfeito em 1994. Foram
ainda realizados Festivais de Poesia do Poeme-se (o primeiro deles vencido pelo
poeta Eduardo Júlio no início de 1993), de forma espaçada, mas o que resistiu
ao tempo foi o Sebo do Poeme-se, ainda em funcionamento e sob o comando do
poeta Ribamar Filho.
Paulo Melo Sousa é poeta,
jornalista, professor
e membro da Academia Ludovicense de Letras
O texto é um emocionante resgate histórico do movimento Poeme-se, que marcou a cena literária de São Luís nos anos 1980. Revela como a paixão pela poesia uniu jovens artistas em torno de uma proposta ousada e alternativa. A narrativa é rica em memórias afetivas e encontros marcantes, celebrando a força da arte coletiva. Mesmo com o fim do grupo, o legado permanece vivo através do Sebo do Poeme-se.
ResponderExcluirParabéns Paulo, extensivo a todos os protagonistas dessa história!👏👏👏👏 Abraços, Dilercy Adler
ResponderExcluirPaulo, sem dúvida nenhuma, o texto é uma descosida saudade que se levanta como algo presente e vivo. E isto não se enterra.
ResponderExcluirParabéns, poeta Paulo Melo Sousa por nos relembrar e mostrar a importância do Poeme-se para a recente história da litratura no Maranhão. A poesia contemporânea, a nossa literatura e leitura é indiscutivelmente tributária desse grupo.
ResponderExcluirExcelente texto, dei uma viajada no tempo.
ResponderExcluirO Poeme-se foi uma escola de Literatura que formou muitos poetas. Eu tive a oportunidade de fazer uma oficina com Paulo Melo Sousa e levo comigo a vida inteira seus ensinamentos.
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