ENTRE A TROVA E O CARTUM

                                     

Acabo de receber o maravilhoso trabalho da escritora gaúcha Vânia Figueiredo, seu quarto livro “Das trovas, Coração!”, no qual a autora reúne as suas duas artes: cartum e trova. De imediato, achei o trabalho deveras criativo e de grande valor pedagógico. Já no início, a personagem do livro “Maria, Maria” traz as principais características da trova: “versinho fácil”, “sem título”, “rima certa”, “sete sílabas sonoras”, “só quatro linhas”, “sentido completo”. Com uma pitada de humor, a personagem Maria diz: “Putz, difícil!”, como a dizer que a trova é de uma simplicidade, mas “tão difícil de fazer”, como já dissera Adelmar Tavares, Rei da Trova Brasileira.

No diálogo entre o cartum e a trova, Vânia Figueiredo vai deixando sua marca registrada de criatividade e beleza, como a trova carregada de lirismo que abre o mencionado livro: “Anel de prata, lembrança/de alguém de longe que amei./No mapa, a desesperança/de vê-lo outra vez, bem sei!”.

Também não faltam os ensinamentos filosóficos na hora dos apuros da “Maria, Maria”: “Um forte vento empurrou/do varal, lençóis ao chão,/mesma força que ensinou/à vela, a navegação!”. Com muita engenhosidade, Vânia Figueiredo usa uma pitada das três principais modalidades de trova (a lírica, a filosófica e a humorística) para traduzir o doce da Maria: “Caramelo foi gerado/de um desastre no fogão,/pois fez do açúcar queimado/gostosa superação”.

A personagem Maria viaja no seu passado sob os auspícios dos quatro versos heptassílabos, memorando seus momentos bons: “Velhos tempos de seresta,/lua cheia, violões.../lembranças da vida em festa,/cantando amor e ilusão”. Ou em: “Ah, meus dias de barzinho.../o outono me lembra agora:/amigos, cerveja, vinho,/jogando conversa fora!”.

Nos desenhos,  a personagem do livro enumera os temas arrolados no encontro com a amiga no shopping: “moda... receita... fuxico... figurinhas...” Tudo isso vai gerar essa preciosidade de peça literária minimalista: “Amiga, que coisa boa/a alegria que me dás./quando contigo o  hoje voa,/deixando o ontem para trás!”

A medida certa do humor da Vânia Figueiredo nasce do casamento perfeito de seus desenhos geniais e suas encantadas trovas. Imaginem, no cartum, um homem nu no chuveiro e a Maria fazendo pra ele uma ligação de vídeo do celular. Vejam a trova que Vânia Figueiredo criou: “De vídeo, fazer chamada/sem avisar a pessoa,/pode ser uma “roubada”,/talvez não seja uma boa.”

O trabalho de Vania Figueredo é tão interessante que o trovador - igual a mim - que tem a oportunidade de folhear seu livro, sente aquela vontade de também ser cartunista pra fazer um trabalho parecido; ou suscita no cartunista a sublime vontade de também ser trovador. Mas como juntar duas grandes artes em um só ser humano é algo divino, deixamos aqui os nossos parabéns à poeta Vânia Figueiredo que recebeu de Deus a incumbência de fazer o leitor feliz com os dois dons maravilhosos para a construção de um belo trabalho artístico.

E para não passar em branco esse mês festivo em que se comemora o Dia das Mães, mais esta trova de Vânia Figueredo, na qual ela reúne todas as mães possíveis para mostrar sua formação de afeto: Sendo mãe, me graduei./Quando avó, foi meu mestrado,/mas laureada me tornei:/bisavó, meu doutorado.”

Com 90 anos de idade, Vânia Figueiredo admite ser a cartunista mais antiga do Brasil. Escritora (poeta e cronista), professora de línguas, não nega sua paixão pela trova. Há 30 anos é membro da União Brasileira de Trovadores.

                                

Wanda Cunha é poeta e presidente

da Academia Maranhense de Trovas

Comentários

  1. Muito massa! Ainda vou me arriscar na trova!!! Parabéns, Wanda!!! Seus textos são sempre convidativos.

    ResponderExcluir
  2. Muito bom conhecer essa escritora pelas palavras de Wanda Cunha que sabe muito bem o que diz.

    ResponderExcluir
  3. Wanda Cunha é a maior representatividade da trova no Maranhão; e pelo visto, com respaldo nacional. Wanessa Cristina

    ResponderExcluir
  4. Que inspiração em vários sentidos: 90 anos de vida, lindas trovas e cartuns! ❤️

    Viva Vânia Figueiredo!
    E a Wanda Cunha também!
    A trova com seu segredo,
    enleva o amor e o bem!

    Meus aplausos! Dilercy Adler

    ResponderExcluir
  5. Obrigada, Dilercy. Mas agradecimento é pouco. Que Deus abençoe eternamente nossa amizade. Wanda Cunha

    ResponderExcluir
  6. Que trovas maravilhosas! Parabéns!

    ResponderExcluir
  7. É impressionante a forma como Wanda Cunha tece as palavras, é simplesmente mágica. Perrsonagens tão reais e histórias super envolventes. Parabéns,Wanda Cunha por mais uma obra-prima.

    ResponderExcluir
  8. Texto leve de uma boa trovadora para outra! Se não fosse a facilidade natural de se expressar, Wanda o faria facilmente por estar falando de sua mais nova paixão, a trova!. Obrigado por mais esse texto e pelo convite para ler Vânia Figueredo.
    Nicolau Fahd

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog