SINAIS SÃO SERES VIVOS

 

Calma, gente. Os sinais a que estou me referindo são os de pontuação. Continua intrigado, caro leitor?

Explico: tomei a liberdade de assumir isso porque um belo dia Vítor Hugo, o grande escritor francês, escreveu algo com que concordei: “As palavras, como se sabe, são seres vivos.”

Ora, se, com muita razão, as palavras são seres vivos, os sinais de pontuação também são. Como veremos a seguir:

Os ENTRE PARÊNTESES

São aquelas pessoas que entram em uma conversa desnecessariamente, sempre intervindo para fornecer informações adicionais ninguém pediu para o que já está dito e resolvido. Geralmente são professorais, prolixos e, até mesmo, messiânicos.

Um exemplo fácil de suas presenças se encontra nas palestras motivacionais das empresas e instituições. Como são palestras com pouco a oferecer, além do ramerrão facilmente encontrável nos livros de autoajuda, o Entre Parênteses palestrante desfila com desenvoltura tanto mais irritante quanto maiores forem os bocejos e a sonolência da plateia

Os PONTOS DE INTERROGAÇÃO

Com muita razão constituem o tipo mais frequente entre os seres humanos essa espécie que após milhões de anos não sabe o que é, nem de onde veio, nem para onde vai. O ser humano é o único animal que pergunta.

Pulando fora, porém, das questões existenciais, o Ponto de Interrogação típico é aquele sujeito que em qualquer cenário introduz na conversa uma interrogação em torno de um assunto que se tornou interessante justamente porque não tem solução prática. Suas expressões usuais são: “Você podia explicar melhor? Sinto falta de alguma coisa.”

Exemplo: todo, brasileiro diante de qualquer Lei brasileira.

PONTO FINAL

É aquele personagem pra lá de chato: nascido, concebido ou forjado para interromper ou concluir seja lá o que for, ou como for. Sem prorrogação, sem adiamento, sem continuidade, sem apelação. O exemplo mais comum no Brasil é o seu chefe, o mais dramático as balas perdidas; o mais popular juízes de futebol.

Os ENTRE ASPAS

É aquele personagem que faz tudo para aparecer: que antes das redes sociais era tido como maníaco e que, depois delas, virou engajado, perseverante e influenciador. Fez com que o exibicionismo saísse das redes sociais para se tornar a tônica fundamental da vida comum: o objetivo principal da existência humana. De influenciadores a curtidores, de jogadores de futebol a padres, de soldados a políticos todos, se fossem palavras, gostariam de ter aspas para colocarem em suas cabeças.

Como isso é impossível, em vez de aspas usam Botox.

Os RETICÊNCIAS

São aqueles que nunca definem o foco de suas falas, de seus discursos ou de seus pensamentos, até que, finalmente, os deixam à solta, evasivos e dispersos para o amanhã, para o resto da vida, para o nunca mais, para a puta que o...

(Olha a reticência aí...)

Os VÍRGULAS

Parece-se com o drama daqueles que dão suspiros de angústia diante de um interlocutor que fala sem parar, querendo suplicar-lhe para que faça uma pausa pelo amor de Deus. Cuja maior vontade seria poder dizer-lhe Basta!, mas que se satisfaria com pelo menos uma pausa. Alguém que tenta contemporizar a imagem ruim, a fala prolixa, o discurso cansativo.

Exemplo: em termos de descanso de imagem uma ex-primeira dama bonita como Michelle Bolsonaro não deixa de ser uma vírgula para as aparições vampirescas e cansativas do marido (um descanso de tela, como queiram).


 

José Ewerton Neto é poeta, escritor, membro

da Academia Maranhense de Letras 

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