ESCRITOR MARANHENSE INOVADOR DO SÉCULO XIX GANHA FORÇA 
ENTRE AMANTES DA LITERATURA FANTÁSTICA

O mistério, o pacto de amor e os fantasmas de João Clímaco Lobato voltam

com tudo para espantar o tédio e tirar o insólito mofo de novos e velhos leitores

Ele deixou para trás autores como José de Alencar no concurso nacional o “Plebiscito Literário” promovido pelo jornal A Semana, na segunda metade do século XIX, mas sua obra acabou sumindo das bibliotecas e livrarias brasileiras no século XX. Tal qual seus personagens, o escritor são-bentuense João Clímaco Lobato (1829-1897), autor do primeiro romance gótico no Brasil, ressurge com força, sobretudo entre amantes da literatura do consagrado realismo mágico.

Um século antes de Gabriel García Márquez criar seu Macondo, “A Virgem da Tapera”, publicada em 1862, já ousava romper com as marcas tropicais e indigenista do Romantismo, criando um universo gótico e de mistérios, cenários de ruínas e personagens fantasmagóricos naquilo que ficaria conhecido como Literatura do Insólito ou Realismo Fantástico.

Infelizmente, ao contrário da obra do célebre “Cem Anos de Solidão” publicado em 1967, A Virgem da Tapera passou décadas literalmente desaparecido. Até que a obstinada professora da Universidade de Coimbra, Maria Aparecida Ribeiro, após uma incansável jornada de mais de 20 anos por entre livrarias e bibliotecas mundo afora, localizou os textos perdidos em uma biblioteca inglesa.

O valioso achado resultou na primeira edição publicada em livro, no ano de 2023, simbolicamente na capital maranhense (Editora UEMA) com a coordenação do professor e historiador Henrique Borralho. Vale lembrar que a primeira versão havia sido publicada em capítulos de jornal.

Menos sorte, pelo menos por enquanto, tivemos com o conto “Vela de Cera”, publicado no Jornal “O Constitucional” entre as edições 92 de 15 de março de 1856 e 94 de 2 de abril do mesmo ano, cujo final nunca chegou até nós. Na obra que ganhou edição digital, graças ao valioso do trabalho do Grupo de Estudos Literários do Maranhão (GELMA), onde as escolhas do autor foram respeitadas, podemos testemunhar a entrada definitiva do autor no gótico romântico.

Desta forma, até que misteriosamente apareça a última parte do conto, se é que foi escrita ou publicada, não saberemos se o pacto de amor e morte entre Guilhermina e Augusto será cumprido.

Estudos recentes apontam para a possibilidade de Lobato ser autor do primeiro romance maranhense (pelo menos nos moldes que conhecemos hoje) com a obra “O Diabo”, também publicada em formato de folhetim no periódico maranhense “O Constitucional”.

Cercado de nuvens e sombras, a obra do polivalente e genial do são-bentuense, filho do desembargador Raimundo Filipe Lobato que se tornou advogado, professor, romancista, contista, teatrólogo, jornalista e juiz municipal, ressurge graças ao entusiasmo de dedicados pesquisadores da literatura maranhense.

Mas é na escolha de cada leitor, que se enxerga, se identifica, se descobre ou até se reinventa na leitura da Cigana Brasileira (Romance, 1853); Vela de Cera (Conto, 1856); Mistérios da Vila de São Bento (Romance, 1862); O Diabo (Romance, 1856); A Virgem da Tapera (Romance, 1862); O Rancho do Pai Tomás; nos periódicos de Recife O Belo Sexo (1850) ou em cada espectador do seu amplo teatro (A Doida; A Mãe D’água; A Neta do Pescador; As Duas Fadas; Maria (1851); O Diabinho em Meu Quarto; O Diabo; O Ouro e Paranguira) que o autor revive em pleno século XXI, mais atual e original que nunca. 


Marcus Saldanha é historiador, jornalista e escritor.

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