10 poemas de Antonio Aílton

PEDESTRE

 

[aux Chansons bas]

 

 1.                O sapateiro

 

Grande Mallarmé, Galáxia

de infinito livro. Ali

num arremesso via-láctea

encriptaste a Flor-de-lis

 

e o leve pouso do Cisne

 

Não te admiro, pesar disso

nem pela calma inércia

continente em teus cílios

 

mas por essa ideia insone

que ainda não era a estrela

colhida naquela tarde

antes de voltar pra casa

 

que nasceu quando a palavra

simples explodiu: “sapato”

 

 

 2. O artesão

 

Não me peçam que defenda

os maneirismos da técnica

 

mesmo que o inventivo artista

seja esse artesão epóxi

pleno de sua cartilha

 

A cada novo contrato

o artesão volta a sorrir

crente no que há de vir

 

O prepúcio do recluso

há de coçar, diz Adélia

até que ele desça às ruas

para tomar um café

 

e o sol de Ungaretti, súbito

ilumine-o d’imenso

 

 

 3. O ex-cantoneiro

 

Já não cabem as mesmas pedras

nesses encaixes de siso

como um trovador, meu cérebro

organiza espaço ambíguo

 

 

 4. O mercador de alho e cebola

 

Os tédios internos causam

um odor quase inaudível

desse cortejo aí em frente

à loja das elegias

 

 

 5. A mulher do operário

 

A mulher, a criança, a sopa

a caminho da estiva

traz às mãos de Mallarmé

quente poesia viva

 

 

 6. O vidraceiro

 

No dorso do vidraceiro

vai um dia de cada vez

pois o sol que lhe atravessa

vale mais que o universo

 

 

 7. O jornaleiro trágico

 

“Extra!” “Extra!” soa o grito

árduo de Cassandra, a cuja

profecia ninguém mais ouve

– Ouvirão o meu lirismo?

 

 

 8. A sacoleira

 

Esta alfândega em sua fronteira

me convida a ser humilde

as roupas da poesia

teço

entre Cloto e Clotilde

 

 

 DIÁSPORA

 

Sentada à porta da loteria

em terra estranha

vejo a Diáspora

 

ou sua casca

 

ela também me enxerga

áspero

em meio às vistas da multidão

 

Quem cinge seus mortos

carrega em si

os tentáculos

da melancolia

 

insone

a cisão nasce

da palavra tarjada

 ou do gesto sem retorno

 

Nada deveria ser demarcado neste planeta

senão a co-narrativa atávica

do sangue espalhado

nos pergaminhos do pertencimento

 

íntimo

 

Diáspora é já não pertencer

senão aos lugares onde não se pode urinar

 

Esta moeda em minha mão

neste ávido jogo de boletos

não deveria ser medida de nada

porque nada mede: é horror

e miséria

 

Quando a casa se divide em duas

não há partilha, há

partida

Há muito mais que qualquer bem

entre o que apenas deixo

ou levo

 

ao a-pagamento arrematável

ou ao matadouro

e este Outro sorrateiro, armas na mão

 ao largo de inexoráveis territórios

 


VERSÃO PARA OS DIAS FORTUITOS

 

 

d’après Dominique Sampiero

 

 

a terra aterra, contudo amo o infantil fervilhar da manhã em      

sua fina malha

de incendiar.

dir-se-ia  que o paisano ainda crê no bem no belo   

 na

verdade do trabalho, ainda não  

                                  grisou. estou aterradoramente

em paz. hoje é hoje, meus cabelos me conferem plausibilidade

no universo. sem cólera,

sem poder.

renuncio a tudo, menos à presença do crisol: voilà, não se

brinque, diríamos

que em dias dourados, de luz forte, há um dedo de Heráclito

sobre as vasilhas. mas isso não é inteiramente triste. os homens, cuja testa tocam a fronte grisalha do céu, também estão

destinados ao bombril   

e à poeira    

 intimamente, o céu se

parece com o paisano. a pequena luz da manhã prepara-se para sequestrar o coração dos rostos.  o pequeno jardim

começa a crestar suas cores e folhas, e bruscamente se

contorce por um silvo que, no resguardo do silêncio

que ainda estava ali,

atravessa-o como um desconhecido, não, talvez não,

talvez como a silhueta de um fantasma que já lhe é familiar, um

irmão,

um parente distante, um envelope, um nome

 

                                é a manhã o vento?     

talvez

de nada sirva dar-lhe um nome, agora 

    que as louças do café flamejam por todas

as casas iluminadas e boas

em certos lugares cintilam  contornos de coisas que nascem

pela primeira vez no canto dos olhos [sempre nascem mais  

coisas pela primeira vez, o encanto dos olhos]

para queimarem em seguida na intensidade resguardada de

seus instintos solares. alhures, lascas de flores e flamboyants.

o paisano toma o metrô, o ônibus, é um gesto conhecido,

vai, talvez para o trabalho.  não minimizemos: dos momentos

desimportantes também nascem souvenires e antigas estações

em breve, em algum ponto, o planeta completará 360º, e os

lugares

também pensarão que estão retornando a si mesmos. nos

livros, os galos tecem manhãs e os homens se iluminam de

multiplicidade. não é tarde, moinhos de vento e água e

pão ainda misturam as gotículas de ouro que vertem pela vida

ao agridoce de minha boca, mas

      espero já não estar muito além de qualquer distância, nem ferindo a tênue beleza dos lugares frios, dos quais nada conheço

 

 

 FLUIDEZ

 

 

Das bordas escassas

do ser e do tempo

lá onde estás

 

puxas o meu

repositório

de tropos e imagens

 

De onde já-não-morro

porque já-vives

fluímos ao Encontro

 

E como se tudo

tivesse ainda

aquele mistério

 

molhas o pó

iluminando

o meu aqui

 

 

 

FUMÊS AO CREPÚSCULO

 

 

Reinventar a vida é redimi-la de toda a sua crueza

não de suas mediações

É preciso desculpá-la em seu teatro cósmico

e reconhecer que nós continuamos

a ser tão ranzinzas, tão mesquinhos

 

William Carlos Williams deveria estar vivo

para ver este crepúsculo

 

Diante do mar

nós tiraríamos calmamente os nossos óculos

 

 

 

ESPECTRO DE PÉTALAS

 

 

 

passo em frente à velha grade que murmura no muro

de minha casa

chamo por meus filhos lá dentro

da penumbra: “Clarinha!” “Benjamim!”

“Alegria!”

eles não respondem o portão range no vazio

estão dormindo, estão de cama, não ouviram

ainda não nasceram, são precoces

partiram

há muito tempo

 

então me cubro com as folhas das árvores crescidas que plantei

e fico

esgalhado

     debaixo do espectro de pétalas

 

esperando-os chegar para enchermos de pleno o presente

que ficou amarrado em cima da mesa

ouço o vento de uma voz em volutas

em sua existência repetível, ou em sua crença do círculo

quando os que amamos parecem sempre tão mais plenos

do momento

 

e a razão definitiva de amá-los

é o risco de perdê-los

sob as folhas

 

de uma vez por todas

todas as vezes

 

 

 

CARTA À FILHA

 

 

 

O mundo é sujo, filha, estende o teu vestido

e então por dois dias espera teu marido

se ele não vier, vive tua lenda

respeita a ti mesmo e costura tua renda

        

Que dos maridos o inferno está cheio

o inferno, o Outro da ordem caseira

De muitas mulheres eu mesmo fui vampiro

eu mesmo fui o estrago, o pinto o trouxa o pato

 

Toda palavra pode ser mais doce

e algumas são tão doces quanto a passa

da madura fruta e refletida

 

Explode as palavras, e o silêncio

insiste em que trabalhe a teu favor

para ouvires o que nasce e pulsa em ti

 

 

 

TOTEM E TABU

 

 

Um a um meus irmãos ganharam

uma surra e uma valise ao partirem

Menos a irmã morta levada pelo ascaris

que deixou nossos balanços pendurados no ar

 

Alguns de nós anoiteceram e não

            amanheceram

escorraçados por um carrancismo cru

Feito a mão larga, talhadeira e ferro

 

Silenciosa como um pacará

ou como o cheiro no fogão de lenha

minha mãe confundia-se com a casa e seus vãos

com os plantios de milho, a cura dos pintinhos

 

Minhas irmãs foram talvez as primeiras

a conhecerem a cidade, do batente pra fora

Menos as que tiveram um marido de verdade

 

Dali daquele morto saem todas as ordens

para matá-lo de novo, mas ninguém acata

O morto está morto, isto é amor

 

MEMÓRIA MÍNIMA

 

O diálogo com os mortos não deve ser interrompido até que eles entreguem o quanto de futuro foi enterrado com eles.

 

Heiner Müller

 

 

Toda pessoa deveria então falar de suas estradas,

de suas encruzilhadas, de seus bancos.

Toda pessoa deveria fazer o cadastro de seus campos perdidos.

 

Gaston Bachelard

 

 

Volto a Comala

Um mulo pasta

nos pavilhões do silêncio

 

Trago a criança

que não está ali

entre as salamandras

 

Um saco nas costas

Derramo os brinquedos

entre as libélulas

 

“Mãe, olha o

Lava-cu!” aponta o bêbado

minha irmãzinha

 

Meu pai deve ser

o breve vaga-lume

que guardei na caixinha

 

Mamãe está morta

Da missa de 7 dias

só sobram os sinais wireless

 

Recordação

trazendo a fuligem

vila dos confins

 

Puxada a embira

da memória mínima

solta os fiapos

 no entardecer

 

*

 

Salpicando as portas

com sua luz

as casinhas onze-horas

pontilhadas de sol

 

um dia hei de começar

a limpeza dos túmulos

 

As onze-horas

abrem-se

como se voltassem

hoje de novo

ao meu clarão

 

uma foto em monóculo

nos deixa esquecidos

somos lá dentro

 

florzinhas tênues

de carmim

de amarelo

de

manchas brancas

 

Mamãe ultrapassa

velha fotografia

dorme quase em mim

no terreno baldio

 

“Não podemos partir

de olhos fechados”

 

*

 

Quando vínhamos da casa de nossa bisavó, noite adentro, o vento vibrava forte, as lamparinas se apagaram e os vagalumes caíram nos baixios encharcados. Viramos lagartas-de-fogo no breu infinito

Cipós-de-boi e embiras esfarrapadas

ficamos pendurados balançando no ermo

Vínhamos de algum festejo ou de algum enterro?

Nosso primo Lelê tinha dado derrame

 

As lagartas-de-fogo, nos beirais das casas, embrenhadas na erva molhada na beira dos caminhos, costumam pontilhar de altares barrocos e  anjinhos descaídos a escuridão da noite

 

As lagartas-de-fogo assemelham-se aos vagalumes, mas são espinhentas e não voam perfazem a terra enevoada, no charco fervilhante dos tempos chuvosos e antigos, mas só aparecem quando o aguaceiro dá trégua aos bons dias, e o céu limpo pode dar as caras com suas faíscas olhudas e fantasmagóricas. Lagartas-de-fogo são coriscos cintilantes resguardados como espectros para o extremo da solidão ................................................................................................................................................

Ao deitarmos, aguardávamos a queda

Os cães vendo as trevas cortadas por chicotes luminosos

nos terríveis temporais

embiocavam-se nos cantos resguardados da quase inexistência

 

Não tossir de respingo

 

*

 

Mamãe deixou para soluçar depois, mas estava feliz, porque o mundo ainda nos queria mais uma vez.

 

*

 

Jumento arcaico na velha estrada atravessando menino no meio dos jacás

Barreiras altas de toás e pedras choram raízes despencando arbustos ramas de batata-de-purga maracujá brabo melões de

São Caetano

 

“Não volta de noite por essa estrada velha”

 

*

 

Mamãe se bandeava arrastando a gente pelo braço

Mamãe mamãe levanta

já não sei partir

 

de olhos fechados

 

*

 

As mulheres amanheceram

que já é domingo

pelos varais

 

Tem uma picape

zinha de madeira

sobre o formigueiro

 

escorando o lapso

tombado

nos artefatos

 

lembrar é do passado

o presente carrega

armas alertas

 

Ao tempo pertence

todas as cangalhas

quebradas de Comala

 

Ouço a voz do mundo

 

dos morros de Comala

enfrento

as carcaças

 

 

 

IMAGINE SE PONGE VEM BEBER NA PRAIA GRANDE

 

 

Nunca andamos de camelo, e certamente também você não conhece os desertos de Nabak ou Chatira. Mas quem já galgou o áspero animal, arremedo de jangada e escada de Jacó ao mesmo tempo, não estranharia a mesma sensação no subir e no descer do pescoço destas ruas.

         O deslocamento ondulado para cima e para baixo instaura, ao olhar, um ponto de fuga: invoca sugestões da memória, entranhadas desde antanho entre a penugem aérea do mar e o couro enrugado de suas águas. No intermezzo entre o (digamos) observador e a modorra plúmbea alastrada na distante cinza do oceano, escamam-se placas côncavo-retangulares cobrindo o dorso de um bicho antigo, cujos nódulos se revelam a uma visão mais próxima como solares modorrentos e rústicos sobradões. Cambiam-se neles o eterno movimento de Auroborus, nas auroras que lhes são enrodilhadas desde o sol, e que aí fingem finar-se dia após dia, toda vez que exsudam em sua plástica uma espécie de ouro velho, sangrando, tarde a tarde – para recomeçarem no dia seguinte, assustados que lhe tenham crescido musgos de 400 anos!

 

***

 

         Vamos que você venha de muitas sedes e, qual seu indócil ruminante, fareje de longe um salitre humoso, cambiando a qualquer coisa de lavagens e estuários primordiais. Descendo direto das corcovas e becos para beber nas toscas fontes de salmoura, nos urinóis corroídos, nas bodegas e bares pés-sujos à sua frente, saiba isto: que essa descensão, melhor dizendo, essa corrupção da "Scala Dei", corresponde, simbólica e proporcionalmente, à mesma distância do dorso às narinas fumegantes de um dinossauro-dragão. A descida é íngreme, o território é sagrado, fique esperto. Baratas e rola-bostas hão de compartilhar aí, com você, o existir fóssil dos escombros: você na Praia Grande.

 

***

 

         Sob o silêncio furta-cor, que, sabe-se, foi entregue desde sempre ao emplastro dos cocôs de milhares de pombos e andorinhas, esconde-se todo o frêmito larval de uma fauna bizarra – a qual se torna tanto mais perceptível quanto mais se adentra, nódulo a nódulo, o vento surpreendente e estonteante. Ó mundo de fatuidades, atinges aí tua perfeição!  Para ali afluem e ali se encontram as mais variadas espécies e formúnculas: de bichos de crista a bichos de estopa; de áscaro-lumbricóides a pavôneo-ciliares. Podemos dividi-los a bel-prazer, como se faz com a horda estouvada de um hospício gigante ou com um ajuntamento de babuínos. Abaixo, uma possível formulação desta fauna.

        

         1. Por grau de importância e por sua cada vez mais escassez: quase às cinco, as careadas e velhas opulências a que chamam "moradas" cospem de suas entranhas taciturnas ou frívolas, mas sempre desgastadas senhoras que, de tão afeitas a antigos móveis, tetos, baús, frejós, jacarandás e decadentes escadarias, lembram o branco da pele e o macilento cheiro de cupim. Até então, elas estavam ocupadíssimas com seus armários, botijas, consoles, cristaleiras, bisautés e biscuits que preenchem diariamente sua infindável tarefa de Arquivo e Memória. Seguindo um ritual já fossilizado em sua caduquice, fazem certa higiene com água morna e talco tabu, lustram seus cabelos com resinas vegetais e óleo de amêndoa, expurgam sua osteoporose com óleo de baleia e, então, nessa umidade fabricada, vão espanar nas varandas o fogo-fátuo dos maridos que não voltam mais.

         (Abra-se um parêntese para contemplar as que nem mais se aventuram a descer, e que apenas fazem arrastar seu corpo-naftalina para as sacadas e janelas. No alto, são escoradas por vigas e travessas para não desboroarem de vez da natureza e da atmosfera saudosa de seu tempo. Exaustas, logo se decepcionam e cedem ao apelo de suas escolioses e de seus rins: lá vem a dor – seria o sono?)

 

         2. O cerrar das pálpebras (ou quase) dessas dignas senhoras dá lugar à epifania de suas rivais de outrora – faustinas e cortesãs provincianas –, hoje já não tão, digamos, abundantes nem fornidas, mas partícipes das mesmas condições pouco meritórias daquelas ilustres supra. Até por isso, o mesmo universo que as condena também redime e irmana. O tempo lhes foi inclemente. Contudo, sentadas às portas de suas luzernas, de paredes rebocadas com seu carmim vulgar, e tão reluzentes de obesidade quais ogivas, elas expõem orgulhosas ao burburinho do primeiro anoitecer sua extensa fatura de serviços prestados.

 

         3. Você poderia dizer que aqui as coisas referentes ao tempo se distendem, caem num espetáculo de redundância das quatro para as cinco horas, e acumulam-se na luz dos beirais, por não quererem avançar. Não é mera impressão. Mas é também este o momento em que, outrossim, e levando-se em conta as referidas notações de relógios hesitantes, uma concentração infindável de funcionários públicos – assessores, auxiliares, arraia-miúda, adidos, anexados, agregados, adjuntos, perfilhados, subalternos, apadrinhados e prosélitos – começam a autoliberarem-se e esquivarem-se de suas funções ou de seus chefes imediatos, os quais, para evitarem retrancas e complôs, vão fazendo vista grossa e aderindo pouco a pouco aos vícios da massa. É assim que, como uma lúbrica turba, descem para a cachacinha nas lourdes e nas tulhas. Ali, eles põem e depõem governos, gabam-se de sua influência e de seu irrisório poder, inflam-se, pavoneiam, chispam, aliciam, cospem, proseiam, passam a mão nos fundilhos uns dos outros. E quando não se adjutoram nessa empresa azeitada e corrupta, depravada desde sempre, somem no ar, desaparecem: ausentam-se para terceiras e quartas dimensões, ficando este mundo entregue ao bel-prazer de seus irmãos menores, os ratos e as baratas, que sobem para um inferno de papéis e fichas empilhados no arquivo-morto do último entardecer.

 

         4. Ao rumor de badaladas em alguma velha igreja, lâminas do dia finalmente deixam-se amortecer sob uma prostração baça e mortiça, a gravidade dos sobradões e dos edifícios. Isso passa a sensação das coisas que os homens não sabem perder, a tradição e a eternidade. As lâminas-bisturis tomam forma de cutelos vítreos anil-alaranjados, estendidos de par em par, cada um deles azulejando uma lembrança. No mais tardar, chegou a noite.

 

         Essa passagem, entretanto, não haveria de dar-se de maneira tão abrupta. Postes de lampiões a gás que sobreviveram em forma de verniz e simulacro acendem, como que por uma ordem, sua fantasmagoria de lâmpadas pálidas e introspectivas. É como se, iluminando, morressem, forçando, contudo, em agonia, o vago lume de seu permanecer. Num quadro ou noutro, esbatem na superfície dos paralelepípedos sua condição de decaídos.   

         Mas não se engane. Se em algum momento esse espaço se manteve como um inconsciente austero, sagrado, ideal à metafísica e à ponte entre o minério e os homens, também esta sensação logo se perturbará imperceptivelmente. Beba de um gole seu crepúsculo, encha o pote. Num abrir e fechar de olhos, acorrerá para essas parcas ruas uma precipitação massiva e recrudescente dos mais diversos e imprevistos seres, movidos pelo sentimento lúbrico da contemplação e do extravasamento. São corpos! Olhados de longe, essa leva de passantes, sócios boas-praças, cadeiras-cativas, sabichões, intelectuais, pés-no-saco, doidivanas, malucos, pés-inchados, porras-loucas, cínicos, turistas, prostitutinhas, frangotas, boçais, neo-hippies, narigudos, farsantes, apastelados e mambembes mais parecem uma trempe de caricaturas, humanoides e estrovengas tirados da insanidade bélica de George Lucas. Sabe-se porém que, no fundo, obedecem a impulso – como o seu – muito anterior à sua própria corporificação afetada e excedente: atiçados pelo instinto e pelo vigor, pelas instâncias da fecundidade, do gozo e da fatalidade erótica, eles querem dar continuidade a esta pulsão febril e grandiosa chamada Vida.

         Não se espante de que toda esta celeuma se constitua em terreno propício para as fabulosas garras do capital.

         Aí, ele estende seus tentáculos para cima e para baixo, bifurca-se, aproveita-se tanto da sensibilidade quanto da desgraça, e é isso que dá a certeza de que tudo que lhe pareceu "alheio" é igual em qualquer parte do mundo: agências de turismo, butiques, lojinhas de artesanato, souvenires e burundangas que se multiplicam como praga, e cujos objetos lá estão mais como Conceito, afastando-se por pausteurização, dia após dia, da própria realidade que é preciso cada vez mais macaquear, e que é preciso fazer existir ao menos como Venda. E há, então, o fosso, a mais profunda revelação dessa tira em preto e branco, os pedintes, dezenas deles, pequenos, médios, grandes: centenas, dezenas de milhares! Chegam de supetão: seriam anjos? Demoninhos? Mortos-vivos esmolambados? Escravos do passado reencarnados na pele de vendedores de ovos de codorna, amendoim e lambugens? São perebas.

         E lá vêm mais hippies... Você não havia ainda se dado conta de quanto são numerosos! Aparentados remotos das matas ciliares e dos musgos, fazem parte de um enraizamento que vai tomando conta das calçadas, provocando rachaduras, invadindo intimidades. Ali crescem e dali se alimentam acarinos e anopluros, fungos, lagartixas, sapos e aranhas, centopeias, chatos, lacraus, carunchos e todos os pequenos bichinhos, ainda, que vivem de sujeira e resto. Não se pode condená-los: são telúricos! E aos cabelos, cachos, línguas, saias, narinas, umbigos, dobras e genitálias desses homens e mulheres de boa vontade vão se agregando, de onde passam, mapas, trecos, conchinhas, fósseis, couro de cobra, dentes de tubarões e jacarés, cordões, resinas, penduricalhos e mulungus, fora uma infinidade de sementinhas diversas e variadas – daí nasceram seus artesãos, do que fazer e de como embrulhar com essa infinidade de nadas e carrapichos que se lhes agarram na tosca penugem. Tragédia žebracza! Na desculpa de viverem do sol, da chuva e da erva, à revelia do sistema e do capital, são, na verdade, herdeiros da mais antiga arte da ciganagem e da insaciabilidade. É preciso entender o paradoxo do que nos cerca. Esse mundo vegetativo que se manifesta como "hippie" é ao mesmo tempo o legado e a nota promissória daquilo que entendem por liberdade. À "paz" e ao "amor" também é preciso pagar. Contudo, aqui, mais que em qualquer outro lugar, vigora a inquestionável verdade de que o todo é sempre mais que a soma das partes. Esta é a metafísica do abraço, e se alguém busca uma fonte para beber e inebriar-se, deixar-se contaminar de tão grande irmandade nos parece inevitável.

 

***

 

         Devem ser 20h, pois é justamente nesse instante que certo senhor, com um zelo de guardião de masmorra, fecha as últimas grades que dão acesso à composição labiríntica, estomacal, chamada Casa das Tulhas. Daí em diante, o portão oriental da Casa terá a força de um esfíncter: ninguém mais entra. E lá estará o mesmo senhor, controlando, no escorrer das tripas, a saída dos gases de jabiraca e cerveja azeda, dos vendedores de farinha d'água e camarão seco, dos açougueiros, feirantes e fregueses diversos, e um sem-fim de cachaceiros, ambulantes, alcoólatras de carteirinha, mocinhas, descoladas, caça-níqueis, bagaceiras, pequenos produtores, politiquinhos, compositores alternativos e poetas viciados.Tal processo de defecção do gigante leva, nos bons dias, cerca de duas horas, quando, então, toda a configuração externa já teve também sua oportunidade de MUDAR.

         Há, agora, um sistema estruturado de línguas preparado especialmente para convencer, um esforço de significação para coisas tais como "chique", "alternativo", "típico", "regional". É certo que há também já um sutil entusiasmo no ar, um mundo mais solto e maduro, uma necessidade de liberdade e de se acreditar piamente nisso, nessa vontade de blues, "metals" e marleys, e de se esconder entre uma picuinha e outra, na mais recôndita província da alma, qualquer esforço de manifestação da palavra "chinfrim". Aqui também, de bar em bar, de pop em pop, de mesa em mesa, é preciso aprender a diferença entre termos como "numerário" e "mixaria". Em meio, pois, a toda essa garçoneria de taças, pedidos e linguagens, perdem-se todos falando e rindo, rindo e falando, falando e rindo para não morrer.

 

***

 

         Que alquimista começou a encerrar a geometria das pedras e dos símbolos matemáticos, círculos, triângulos, quadrados e lemniscatas o hermetismo da escuridão edo assombro, mesmo da morte e da existência eterna? Cada projeção aberta, debruçada como um olho octagenário a partir do vão frontal dos mirantes que você percebe – ou, antes, que do alto o veem – guardam espectros recalcitrantes,os quais, impossibilitados de partirem desta para melhor, comunicam-se apenas como vagos, desenhos, escombros, escuridão e suspeita. Há muitos: um, dois, uma família inteira que, sem ter volume, se fazem abertura, e de lá observam o festim. Sopesam, dividem os viventes por sorteio e adoção. Riem: "Quantos anos ainda terá aquele beberrão? E aquele gringo? Vou esperá-lo..." É um jogo em que irão medir forças de agora em diante. Pouco a pouco, você vai se dando conta do tempo. Propagam-se mais e mais os surtos do passado. Aqui passavam bondes no século XIX, ali... em qual vértice, em qual rua? O que sabem e o que viram essas escadarias que não são suas? Você sente saudades, você mata uma barata oval a seus pés. Ao derredor, retângulos dormem.

 

***

 

         Esse universo adquiriu, com os anos, as estratégias da burla. Mumifica-se, mas deixa acesas as suas tochas. Ao sopé das paredes, os guardiões, soldados-trastes que amanhã (hoje?) estarão a postos para o cambalear de um novo dia. Você se encontra num largo cemitério, não um qualquer, mas um daqueles medievais, repletos de heras, de gárgulas e de górgonas. Você também já empedrou. Tal pensamento seria fascinante, não fora, por acaso, esbarrar em dois ou três jovens que, sentados à sua frente, comem dois ou três cachorros-quentes noite adentro. Logo mais, uma avenida sem rumor de ônibus. Um taxista esperto aguarda os remanescentes. Você já perdeu, há muito, a ideia do camelo, e vem apenas arrastando a imaginação pelo cabresto. Além do deserto, o mar é telos.



Antonio Aílton (Bacabal - MA, 1968), é poeta, professor, pesquisador da poesia contemporânea. Tem participado nos últimos 30 anos do cenário cultural e literário da cidade de São Luís do Maranhão. Doutor em Teoria da Literatura pela UFPE, fez Letras Português/Francês e Mestrado em Educação (Cultura e Imaginário), pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Tem especialização em Crítica Literária pela Universidade Estadual do Maranhão (UEMA). Contemplado com prêmios em poesia e ensaio, tais como o Prêmio Literário e Cultural Cidade de São Luís, e o Prêmio Cidade do Recife. Além de participação em diversas antologias, é autor dos livros Cerzirlivro dos 50 (Poesia, Penalux, 2019), Martelo & flor: horizontes da forma e da experiência na poesia brasileira contemporânea (Tese-ensaio, EDUFMA, 2018), Os dias perambulados e outros tOrtos girassóis (Poesia, Fundação de Cultura do Recife, 2008), Compulsão Agridoce (Poesia, Paco Editorial, 2015), Humanologia do Eterno Empenho (Ensaio sobre a poesia de Nauro Machado, FUNC, 2003), As Habitações do Minotauro (Poesia, FUNC-MA, 2001). Membro da Academia Ludovicense de Letras, cadeira de Maranhão Sobrinho.

Site: www.antonioailton.wordpress.com 


Comentários

  1. Este é um monstro! Um dos melhores poetas contemporâneos brasileiros que conheço, e olha que conheço muitos.

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  2. Ótimo poeta e excelente ser humano

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  3. Cada poema melhor que o outro. Não sei se prefiro a tua prosa poética ou o teu poema ritimado. Só sei que a essência de ambos é tão poesia que dói.

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  4. Não sou UNKNOWN , sou CERES, poxa! De novo! o comentário acima é meu.

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