10 poemas de Dyl Pires
As flores se enforcam no coração dos coveiros
Na pista de dança o Dj toca as mais-mais
De todas as tribos indígenas dizimadas
Me perguntava sempre sobre os objetos
Que todos os meus mortos cultivaram
Os carinhos mais ocultos
Os abismos de ternura neles depositados
O silêncio da casa falava como um móvel que
se arrasta
Enquanto um avião sobrevoava a avenida numa
noite chuvosa
E o arrulhar dos pombos aprofundava a
paisagem molhada do escuro
Os mortos estão pulando a janela da noite
E abrindo caminho sob o sol
Para não perderem de vista a totalidade do
que foram
Flores flores flores
Tempestade amarela habitando o susto
O escuro canto do pássaro pernudo
Enrolado no pescoço da neblina
Ninguém quer o futuro!
...............................
em meio à festa da vida
em que partilhamos nossos
tempos distintos
procuro nas ideias esquecidas
da natureza alta
do esqueleto cósmico
naquilo que ainda nos sobra
da natureza rasteira
que calça os pés dos sentidos
no vão entre uma e outra desfraldado no
peito
o quão ficou sem rosto a humanidade que me
encerra
em meio à festa da vida
em que partilhamos nossos
tempos distintos
o silêncio do palhaço
vaga pela cidade
no último número
adivinhamos a vertigem na primeira espiral do
redemoinho
rimos de nossas esperanças
e pela primeira vez nos vimos
como grandes florestas em chamas
.............................
um homem louco
guiado por títeres da escuridão
suas palavras mastigam
a Roda de Samsara
como um brinquedo velho
que uma criança leva à boca
é um homem louco
de um lugar que ainda não
pôs o pensamento de pé
mas construiu no cadafalso da euforia a
história da esperança que não cansa
de esperar a si mesma
é um homem louco
debaixo do sol
a mostrar os dentes
com a família num domingo
tendo ao redor outros homens loucos de
estimação
à noite uma bala perpassa
toda a origem sigilosa da ruína
até o amanhecer do pó
nesse domingo de abril
os cachorros latem na avenida paulista como
se estivessem
no km 8 da estrada de ribamar em contenda com
os mortos daquele lugar construído sobre um antigo cemitério
ainda pouco vi uma tomada aérea da
cidade
que em muito lembrava
um imenso cemitério branco vertical.
...........................
a cidade se recusa
colocar a máscara
porque não quer correr
o velho risco
do espírito da máscara
se impor sobre o dela
e assim varrer legitimamente para os
subterrâneos
das florestas enterradas
a perspectiva lógico-racional que a
petrificou
mas nas janelas já vejo
o pequeno fogo mítico
e a sombra da dança
das salamandras
na parede
..............................
um corpo aceso
como o largo sorriso da lua na parede
um corpo aceso
como o rio que ninguém ouve o sibilar das
águas
um corpo aceso
como o último lugar da floresta nua entre os
dedos
um corpo aceso como o silêncio acrobata no
peito
um corpo aceso
como aquilo que não impede a vertigem
luminosa do sentido
um corpo aceso
como o potente mistério que nele habita
esmagando entre os ossos
o sentido de urgência
de uma vida toda
.........................
para orides fontela
como se faltasse
altura
para a larga subjetividade de uma época
(e falta!)
como se não
soubéssemos
mais o quê falar do vazio de si
(e não sabemos!)
como se das alturas nos acusassem uma
necessidade brutal de redesenharmos o sensível
(e nos acusam!)
como se a terra sempre te puxasse para baixo
(e puxa!)
..............................
no ano da peste
completará meio século
a imagem do pai corpo atarracado amálgama de
paraibano com japonês
tremulava pelas
encostas da lonjura
a pesada cruz do tempo
se convertia em ausência
mesmo no espelho dos sonhos
borges nos diz das flores "como o que
melhor pode acompanhar os mortos sem ofendê-los com soberba
de vida sem ser
mais vida que eles"
estranha época onde até
o vazio nosso empobreceu
estranha época
de mortes caudalosas
e lives que crescem
como mato alto
sobre túmulos.
..............................
Poema sobre a poesia contemporânea
Na poesia contemporânea só existe a forma do
poema. A forma do poema se tornou uma presença globalizante, engolidora de
tudo. Nela cabe, o romance, o conto, as crônicas, a novela, o ensaio, a própria
poesia, o desabafo, a ironia, a metáfora arcaica, a política, a crítica, o
diário e as cartas. Hamlet quando forjou loucura falava em versos. A tese é que
de alguma forma isso abriu caminho para coisa. A poesia contemporânea é tão
somente a forma do poema.
............................
algo como vozes
que se atravessa o ano inteiro para poder ouvir
vozes que já não mais ouviremos
vozes que ficaram como pedaços
incompreensíveis
e que em dias cinzas criam certos ventos
sobre o peito
retomam algum momento lá atrás
quando juntos disseram:
o tempo apalpa a própria validade
vencida
Dyl Pires, maranhense, poeta, ator. Vive em São Paulo. Integrou os elencos dos espetáculos: Viva el rei D. Sebastião, Roberto Zucco, Édipo na praça, Satiricon, E se fez a humanidade ciborgue em 7 dias, entre outros. Escreveu os livros de poemas: Queria falar do deserto dos dias apressados (Chiado books, 2019); Éguas (Pitomba, 2017); O torcedor (Pitomba, 2014); O perdedor de tempo (Pitomba, 2012); O círculo das pálpebras (Func, 1999).
Um poeta que vem construindo aos poucos uma obra de qualidade.
ResponderExcluir