10 poemas de Dyl Pires

As flores se enforcam no coração dos coveiros

Na pista de dança o Dj toca as mais-mais

De todas as tribos indígenas dizimadas

Me perguntava sempre sobre os objetos

Que todos os meus mortos cultivaram

Os carinhos mais ocultos

Os abismos de ternura neles depositados

O silêncio da casa falava como um móvel que se arrasta

Enquanto um avião sobrevoava a avenida numa noite chuvosa

E o arrulhar dos pombos aprofundava a paisagem molhada do escuro

Os mortos estão pulando a janela da noite

E abrindo caminho sob o sol

Para não perderem de vista a totalidade do que foram

Flores flores flores

Tempestade amarela habitando o susto

O escuro canto do pássaro pernudo

Enrolado no pescoço da neblina

Ninguém quer o futuro!

 

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em meio à festa da vida

em que partilhamos nossos 

tempos distintos

procuro nas ideias esquecidas 

da natureza alta 

do esqueleto cósmico

naquilo que ainda nos sobra 

da natureza rasteira 

que calça os pés dos sentidos

no vão entre uma e outra desfraldado no peito 

o quão ficou sem rosto a humanidade que me encerra

em meio à festa da vida

em que partilhamos nossos 

tempos distintos

o silêncio do palhaço 

vaga pela cidade

no último número 

adivinhamos a vertigem na primeira espiral do redemoinho

rimos de nossas esperanças

e pela primeira vez nos vimos 

como grandes florestas em chamas 

 

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um homem louco

guiado por títeres da escuridão

suas palavras mastigam 

a Roda de Samsara 

como um brinquedo velho 

que uma criança leva à boca

é um homem louco 

de um lugar que ainda não 

pôs o pensamento de pé 

mas construiu no cadafalso da euforia a história da esperança que não cansa 

de esperar a si mesma

é um homem louco 

debaixo do sol

a mostrar os dentes 

com a família num domingo 

tendo ao redor outros homens loucos de estimação 

à noite uma bala perpassa 

toda a origem sigilosa da ruína 

até o amanhecer do pó

 

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nesse domingo de abril 

os cachorros latem na avenida paulista como se estivessem 

no km 8 da estrada de ribamar em contenda com os mortos daquele lugar construído sobre um antigo cemitério 

ainda pouco vi uma tomada aérea da cidade 

que em muito lembrava 

um imenso cemitério branco vertical.

 

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a cidade se recusa 

colocar a máscara 

porque não quer correr 

o velho risco 

do espírito da máscara 

se impor sobre o dela 

e assim varrer legitimamente para os subterrâneos 

das florestas enterradas 

a perspectiva lógico-racional que a petrificou 

mas nas janelas já vejo

o pequeno fogo mítico 

e a sombra da dança 

das salamandras

na parede

 

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um corpo aceso 

como o largo sorriso da lua na parede 

um corpo aceso 

como o rio que ninguém ouve o sibilar das águas 

um corpo aceso 

como o último lugar da floresta nua entre os dedos 

um corpo aceso como o silêncio acrobata no peito 

um corpo aceso 

como aquilo que não impede a vertigem luminosa do sentido

um corpo aceso 

como o potente mistério que nele habita 

esmagando entre os ossos 

o sentido de urgência 

de uma vida toda

 

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para orides fontela  

  

como se faltasse 

altura 

para a larga subjetividade de uma época  

(e falta!)

como se não 

soubéssemos 

mais o quê falar do vazio de si 

(e não sabemos!)

 

como se das alturas nos acusassem uma necessidade brutal de redesenharmos o sensível 

(e nos acusam!)

 

como se a terra sempre te puxasse para baixo

(e puxa!)

 

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no ano da peste 

completará meio século 

a imagem do pai corpo atarracado amálgama de paraibano com japonês 

tremulava pelas 

encostas da lonjura 

a pesada cruz do tempo

se convertia em ausência 

mesmo no espelho dos sonhos

borges nos diz das flores "como o que melhor pode acompanhar os mortos sem ofendê-los com soberba 

de vida sem ser 

mais vida que eles"

estranha época onde até 

o vazio nosso empobreceu

estranha época 

de mortes caudalosas 

e lives que crescem 

como mato alto 

sobre túmulos.

 

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Poema sobre a poesia contemporânea 

 

Na poesia contemporânea só existe a forma do poema. A forma do poema se tornou uma presença globalizante, engolidora de tudo. Nela cabe, o romance, o conto, as crônicas, a novela, o ensaio, a própria poesia, o desabafo, a ironia, a metáfora arcaica, a política, a crítica, o diário e as cartas. Hamlet quando forjou loucura falava em versos. A tese é que de alguma forma isso abriu caminho para coisa. A poesia contemporânea é tão somente a forma do poema. 

 

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algo como vozes 

que se atravessa o ano inteiro para poder ouvir

vozes que já não mais ouviremos

vozes que ficaram como pedaços incompreensíveis 

e que em dias cinzas criam certos ventos sobre o peito

retomam algum momento lá atrás 

quando juntos disseram: 

o tempo apalpa a própria validade vencida 



Dyl Pires, maranhense, poeta, ator. Vive em São Paulo. Integrou os elencos dos espetáculos: Viva el rei D. Sebastião, Roberto Zucco, Édipo na praça, Satiricon, E se fez a humanidade ciborgue em 7 dias, entre outros. Escreveu os livros de poemas: Queria falar do deserto dos dias apressados (Chiado books, 2019); Éguas (Pitomba, 2017); O torcedor (Pitomba, 2014); O perdedor de tempo (Pitomba, 2012); O círculo das pálpebras (Func, 1999).


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