Textual

AS INFINITUDES DO OLHAR EM AIRTON SOUZA      


 


TENHO COMO HÁBITO ANTIGO, ao receber um livro de presente, lê-lo o mais rápido possível e, caso tenha sido ofertado pelo próprio autor, encontrar algum modo de agradecer-lhe pela gentileza e também comentar algo sobre minha leitura. Claro que as inúmeras tarefas do dia a dia nem sempre me deixam seguir essa sistemática, mas pelo menos tento.

Quase no final do mês de março, quando a Pandemia começava a fazer parte da realidade e dos pesadelos das pessoas em todo o mundo, o escritor Airton Souza, em um gesto de grande sentimento de humanidade, divulgou em sua conta no Facebook, que estava disponibilizando alguns de seus livros em PDF, para que as pessoas tivessem um pouco mais de distração durante o período de um isolamento que já se anunciava nas entrelinhas das notícias e dos pronunciamentos oficiais e oficiosos.

Sou partidário da tese de que livro não se recusa. Como o escritor dizia que bastava deixar um endereço de e-mail que ele se encarregaria de enviar o material, fiz o que foi recomendado. Horas depois, na checagem cotidiana que faço de minhas mensagens, deparei-me com uma amável mensagem e três livros anexados.

Não conheço Airton Souza pessoalmente, apenas das infinitas trilhas das redes sociais que frequentamos. Mas quem disse que precisamos de um aperto de mão físico para admirar alguém ou para sentir-se amigo de uma pessoa que resolveu doar parte de sua arte e de seu esforço para fazer o bem para pessoas que talvez nunca estarão diante de seu olhar?

Airton Souza

Era um final de tarde. Baixei os arquivos e comecei a ler os poemas desse jovem e talentoso escritor. Já conhecia alguns textos pela internet, mas ler o livro na íntegra sempre tem um sabor especial. Não foi difícil perceber as razões pelas quais Airton Souza é um dos mais premiados escritores da contemporaneidade. Seus versos trazem a força típica de quem associa um talento natural com muitas leituras e incessante trabalho de buscar a melhor solução possível para as ideias que precisam transformar-se em palavras escritas.

Li o “Pragmatismo das Flores” e “O Tumulto das Flores” com toda a atenção, assinalando alguns pontos que achei muito bem construídos e dignos de uma releitura mais atenta. Finalmente cliquei no outro arquivo. E ali se abriu diante de meus olhos uma das mais espetaculares obras voltadas para o público infanto-juvenil que li nos últimos anos – “O Infinito Inteiro Dentro de seus Olhos” – com textos de Airton Souza emoldurados por traços, cores e sensibilidade artística de Flor di Maria Fontelles.

O livro é recente – foi publicado em 2919 –, conta com menos de duas dezenas de páginas, mas o suficiente para poder ser visto como um grande livro que pode atravessar as barreiras impostas pelas datações temporais.

A suavidade e a leveza com que a história é narrada fazem com que aquela formiguinha, que traz em sua trajetória uma interessante metaforização da família, dos obstáculos cotidianos e da própria condição de ser humano, ganhe a dimensão dos dramas universais que atravessa o ser humano desde tempos imemoriais. A presença/ausência da mãe serve como motor para a sequência da história e para despertar sentimentos que podem até estar adormecidos em algumas pessoas, mas que se levantam com uma força avassaladora assim que se começa a mergulhar nas páginas do livro.

De repente, após uma decisão que pode não ser a mais acertada, toda uma paisagem que estava nítida dentro dos olhos pode ser embaçada ou até mesmo apagada para sempre. Trata-se de um livro para crianças de todas as idades, pois o texto pode ser lido em palimpsesto, com cada camada servindo para alertar uma determinada faixa etária de seres que têm que conviver com suas escolhas.

Nas páginas desse livro, a vida e a morte caminham lado a lado rumo a um desconhecido que pode ter as dimensões de uma gota de chuva, mas que, dependendo a escala adotada, pode ser ínfimo para uns e continental para outros. De qualquer modo, os desafios que rondam nossa vida sempre podem contar alguma oportunidade de aprendizagem, de esperança ou mesmo de um fim.

Utilizando parte de sua sensibilidade poética, Airton Souza seguiu a lição do poeta Manoel de Barros, que dizia sentir prazer em fazer o desprezível ser prezado, deixa em suas páginas lições de vida e de saudades.

Uma singela história de uma formiguinha que espera sua mãe, em meio à turbulência da busca de novas experiências pode ensinar a mostrar caminhos para quem pensa que nossa jornada tem início e meio, mas nunca terá fim.

“O Infinito Inteiro Dentro de seus Olhos” é um livro carregado de lições. E mereceu todos os prêmios e horarias que lhe foram concedidos. Vale a pena ler essas páginas e ser carregado nessa enxurrada de emoções.

 

José Neres escreve às segundas-feiras para o Textual. 

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