Textual
MORTE
E VIDA NA QUARENTENA
MORTE E VIDA, COMO POUCA GENTE SABE, são irmãs gêmeas, parecidíssimas e muito unidas. Sem uma a outra não vive. Sem uma a outra não morre. Andam sempre juntas, embora nem sempre sejam vistas de par. Por vezes acontece de uma delas aparecer de súbito, em plena atuação da outra, mas a verdade é que elas nunca se separam em definitivo.
O que acontece é que combinaram - assim que o mundo surgiu, e por dever de ofício - que uma (Morte) seria mais discreta e reservada, enquanto outra seria mais expansiva e abrangente. Isso cria certa confusão/ilusão nos humanos que acabam gostando mais de uma (Vida) que da outra, recusando-se a admitirem o óbvio: Morte é que, ao fim, será mais abrangente e definitiva.
Morte a partir de então passou a ser a sombra da irmã, fazendo o papel da introvertida e inesperada, com a intenção preestabelecida de fazer de conta que não existe, em paralelo com Vida, no organismo de todo ser vivo neste mundo. A intenção, generosa de ambas as partes, é a de evitar que os homens se desesperem ao saber que seus dias estão contados, biologicamente, desde o dia em que nascem.
A esse sacrifício da irmã, Vida retribui com todo carinho que lhe é
possível. Na intimidade entre as duas, reconhece o quanto Morte tem de generosa, ao
podar os excessos de Vida que levam os
homens a se viciarem e acreditarem que podem tudo e são capazes de tudo por serem
vivos, degenerando nessa forma de arrogância conhecida de crueldade e
indiferença de uns com os outros.
Há uns 6 meses Morte achou
Vida inquieta e apreensiva. Preocupada com sua irmã, Morte indagou:
- Que se passa, irmã?
- Ando entristecida com a
relação dos humanos contigo. Eles se esquecem
completamente que existes, como eu, em cada um deles, e de que precisam pensar mais
em ti, pois sou breve. Sempre exigem de mim coisas que eu não posso oferecer
como, por exemplo, tornar a vida de cada
um mais importante que a do próximo. Ora, eu não posso dar conta de tanta vida como
exigem. Isso me sobrecarrega. Tudo eu, tudo eu ! Vida pra cá, vida pra lá!
- Calma Vida, pense que nós
decidimos assim, é até natural que ajam dessa maneira.
- Sei e te agradeço irmã,
mas isso me sobrecarrega. A verdade é que eu tenho de ser sempre um manancial inesgotável
de vida. Como se tivesse que estar sempre transbordando para satisfazê-los.
- Achas então que devo surgir
com mais frequência?
- Não é bem o que quis dizer
irmã querida, mas acaba sendo. Eu pediria...
- Entendi. Queres que eu dê
um jeito de fazer com que eles se lembrem de mim que, afinal de contas, serei seu
destino definitivo. Que interrompam, por
algum tempo, tanta arrogância, cobiça, egoísmo e desamor: lixos de seus
excessos que lhes conduzem à cegueira.
- Sim. Para que reflitam e,
ao menos, me permitam tomar fôlego.
- Como queira, irmã querida, Aprendi a ler teus pensamentos e já me veio
uma ideia na cabeça para que te deixem em paz por alguns meses.
- Huuumm – Falou Vida que
também aprendera a ler os pensamentos da irmã gêmea– Será isso o que estou
pensando?
- Justamente. Escolherei Dezembro
para começar.
Esse diálogo aconteceu em Novembro
de 2019. Logo depois o primeiro vírus Covid- 19 começou a se propagar no
Planeta Terra.
José Ewerton Neto escreve às quintas-feiras para o Textual.

Bonita alegoria, Ewerton.Estou escrevendo também sobre a morte no tempo da COVID., sob outro prisma.
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