Textual
O LIVRO DE UMA EXISTÊNCIA
HÁ ARTIMANHAS NESTE MUNDO. Umas que fazem sacos de plásticos voarem ao vento sob o foco de uma câmera fotográfica, ou mesmo palavras para designarem o sentimento de um pôr do sol numa cidade insular. Há artimanhas, e com elas convivemos, pagamos nossas contas e amamos desde as amantes mais doces a mulheres incompreensíveis. O certo, a verdade, o equilíbrio, é apenas mais um desdobrar disso tudo.
Neste
colóquio entre palavra e homem, muito se escreveu, e há muito para se pontuar. Os
poetas nesta estrada sem ponte anunciam sua cambaleante e inesperada missão:
servir aos olhos cheios de beleza e que compreendem esta arte analógica que
dialoga com o mais íntimo dos prazeres humanos.
Aí,
quando penso que tudo está dentro de uma ordem razoável, abro Cerzir
(livro de uma existência), e logo me reconheço nele. Por acreditar na poesia,
digo isso. Não pela simples e ideológica rotina de ser poeta e próximo a
Antonio Aílton, o qual é, sem dúvida, um poeta daqueles em cujo livro a gente
sente vontade de caminhar dentro.
Este
poeta vem, há muito, decifrando o que mais próximo da poesia se possa chegar. E
não se contentando com este fecho, alarga e imprime personalidade ao verso
contemporâneo/denso/barroco/existencial de sua metáfora, dentro deste gênero
tão achincalhado pelos que dizem ser fácil escrever no gênero poesia.
Ora,
quando se abre e se contempla as páginas de Cerzir (Livro dos 50) – Editora
Penalux-SP, 2019 –, percebe-se que neste livro há um poeta que tem todas as
engrenagens minuciosas do conhecimento e também as que se distanciam para sua
produção poética. Observa-se que Antonio Aílton dialoga com a palavra e cria
saídas de leve e sutil enredamento, fenômeno que não é tão simples assim, pois a
vida que se contempla, que se almeja, que se pragmatiza seja no texto ou não, nem
sempre sai como se quer; além de que a poesia não se faz apenas de forma
artística, mas de vida.
O que aprendi da pedra aprendi do pântano
[...] Aprendo dos elementos porque aprendo da
viagem
que esteve sempre ao meio do caminho
[...] um dia basta para o ritmo, números e números
não
(Lição)
Antonio
Aílton vem demarcando sua trilha com respeito e com qualidade textual, desde
sua estreia com As habitações do Minotauro (2000), perpassando pelo excelente
texto de Os dias perambulados e outros tortos girassóis (2008), e com o
seu último intento poético Compulsão agridoce (2015), não é
gratuita a trajetória desse homem-poeta-espaço de meio século de existência.
Este poeta é a imagem real de quem vem lutando para se firmar entre as vozes
singulares desta emblemática Geração 90/Transição da poesia
brasileira.
Reinventar a vida é redimi-la de toda a sua crueza (Fumês ao Crepúsculo); meu pai me ensinou a arte de escapar do
anzol / mas a humanidade é mais forte que os peixes / a humanidade é mais forte
que os ursos / a humanidade é mais forte que as moscas / em toda parte, há
sempre um homem para te ferrar (Peixe Seco); Ao amanhecer por entre as ruas, o sol tropeçou em dois cadáveres /
Sobras da noite inoxidável, a catadora de latinhas / tem mais coisas a fazer
(Idade
dos Metais).
O
livro todo deste poeta é, muitas vezes, distanciamento do que se entende como
caminhar pela conservadora e comportada linha da poesia moderna. Aílton investe
em um discurso se não é novo, é exatamente um pulsar de suas leituras que se
condensam em um produto de engenharia poética contemporânea; um projeto de
sutilezas, de belezas e de pauta com o que ainda é desconhecido e não muito
comentado pela crítica: este texto maturado, seco e cheio de realizações, que
fala do barro, do homem comum, suas amarguras, seus processos mais íntimos,
suas guerras em vencer as intempéries da vida.
Por
fim, não vou dar uma cartilha pronta de poemas que podem ser melhores ou
piores, mas um livro, se vale por um poema, este é Imagine se Ponge vem beber na
Praia Grande, poema que encerra este livro, ou melhor, que sinaliza a
obra grandiosa deste poeta.
Como
não se encantar, pensar, e ler, e reler Cerzir?
Bioque Mesito escreve às sextas-feiras para o Textual.


Aílton é um poeta muito bom, moderno e vai no âmago do ser. Bioque não sabia desse seu talento para o ensaio. Sou fã da poesia de vocês dois.
ResponderExcluirDuas grandes figuras. Ailton e Bioque.
ResponderExcluir