Textual

EFÊMEROS, RIDÍCULOS, MAS REAIS (INFELIZMENTE)

 


Uma das coisas boas do envelhecimento é poder acumular histórias para contar aos mais jovens. Uma das coisas ruins disso é que esses jovens nem sempre querem ouvir o que os mais velhos anseiam por contar.

Como nesse mundo virtual tem gente para tudo, inclusive para ler textos de um cidadão que passou a vida inteira em sala de aula e já ouviu muitas histórias verdadeiras e falsas, arrisco-me a deixar aqui algumas linhas de entretenimento e reflexão.

Então trago hoje para vocês três pequenas histórias que me foram contadas por pessoas idôneas, logo devo crer que sejam verdadeiras. Coube a mim apenas colocá-las em um formato mais sintético e que não assuste tanto os poucos leitores que tenho.

Vamos a elas.

 

1 - No Facebook

 

14:05 – Postagem: O escritor e professor ****** está em nossa cidade e fará uma palestra gratuita sobre a vida e a obra de Carlos Drummond de Andrade. O professor ***** é reconhecido nacionalmente como um dos maiores conhecedores da obra do autor mineiro e se prontificou a ministrar a palestra gratuitamente. Vejam local e data no cartaz acima.

15:08 – Comentário: Meu Deusssss do céééééuuuuu!!!!! Era meu sonho conhecer esse professor. Pena que não vou poder ir, estou muito gripada e não posso arriscar minha vida pegando sereno para ir até o centro ver a palestra. Fica para a próxima. (carinha de tristeza).

15:19 – O Boi de Orquestra de **********, o mais famoso de nossa ilha irá fazer uma apresentação no Arraial do *******, a partir das 23:00 horas de hoje. Não percam. Diversão garantida. (Foto dos brincantes com as indumentárias juninas e alguns em trajes sumários).

15:20 – Essa eu não perco de jeito nenhum. Posso até morrer de gripe, mas não vou deixar de brincar nesse boi. Não vou perder. (Seis carinhas de pura felicidade)

MORAL DA HISTÓRIA: Nossas prioridades não conhecem obstáculos.

 

2 – Eu faço Letras

 

A Praça Deodoro, cheia de estudantes do Ensino Médio, era o local ideal para ******** jogar seu charme e garantir uma companhia para a noite.

Jovem, bonito, dono de ótima conversa e profundo conhecedor das técnicas de abordagem, ele ficava à espreita até que aparecesse a presa ideal. Aproximava-se e começava a jogar seu charme. Nove entre dez garotas não resistiam e se entregavam de corpo e alma ao garanhão que, dias depois arrumava um jeito de dispensar a garota sem magoá-la. O contato ficava na agenda. Quem sabe se em uma noite solitária?...

Fim do turno vespertino e quase começo das aulas do noturno. Momento ideal para o ataque. Escolheu a vítima e partiu para a abordagem. Morena, olhos claros, cabelos pretos batendo na cintura, corpo de academia, 17 para 18 anos, aproximadamente, calça super justa e recheada pelas abundantes formas, blusa da escola com um nó que deixava antever a perfeição de uma barriguinha esguia. Ria alto e chamava a atenção de todos.

Era o exemplo perfeito da beleza e da vulgaridade em uma mesma pessoa.

******** aproximou-se. Não foi difícil fazer com que ela dispensasse as colegas de escola para que ambos tivessem mais privacidade nas palavras, nas carícias e nos olhares.

Ela foi logo dizendo que ia fazer 19 anos, não tinha namorado e era livre para chegar em casa na hora que quisesse. Acrescentou, para espanto de ********, que estava no primeiro ano do ensino médio e que detestava estudar.

Entre uns amassos e outros, em uma das transversais da Rua Grande, quando se dirigiam ao carro dele, ela perguntou o que ele fazia.

Respondeu que trabalha no escritório do pai e que fazia Letras na Universidade Federal do Maranhão. Com um brilho no olhar, a garota foi logo dizendo:

– Que legal, você faz Letras, então vai me ajudar.

Ele, meio aborrecido, fez sinal positivo com a cabeça e esperou que ela colocasse sua dúvida sobre Gramática, Redação ou Literatura.

Ela, sorridente e toda serelepe, disse logo:

– Tava procurando mesmo alguém que fizesse Letras. Você pode fazer uma capa de um trabalho de Química para mim? Nunca aprendi a desenhar aquelas letras grandes e bonitas.

Fez uma bela capa. Mas decidiu não pedir o número dela.

 

3- Surpresa!!!!

 

O professor decidiu dar uma aula diferente. Passou nas Lojas ********, comprou um best-seller da moda. Entrou em uma papelaria, pediu um papel de presente, enrolou cuidadosamente o livro e foi para a escola onde ministrava aula.

Era um ótimo profissional. Sempre fazia tudo para estimular os alunos a lerem e aprenderem mais e mais. Nem sempre lograva um bom resultado. Mas não desistia.

Ao entrar na sala de aula, deixou todo o cansaço do lado de fora e foi logo avisando: “Quem participar mais e responder todas as questões ganhará um presente no final da aula”.

O difícil foi controlar a euforia dos alunos. No final, um garoto da terceira fila foi o grande vencedor. Qual seria o presente-surpresa?

Feliz com sua dinâmica, o professor abriu sua mochila e de lá sacou o pacote com o livro. Tentou não dar atenção à cara de decepção do aluno, que recebeu o livro, arrumou suas coisas e saiu acompanhado dos colegas de turma.

Depois, o professor, triste, após apagar o quadro, saiu e ainda deu tempo de ouvir o resmungo do aluno no corredor: “Besteira... que que eu vou querer com uma merda de livro. Se pelo menos fosse um ingresso para um show de forró ou um CD de funk...”

Sem olhar para trás, perguntou em voz alta: “Alguém aí quer essa porcaria?”

Jogou o livro no chão e todos saíram chutando o inútil objeto. Perderam o controle e o livro ficou para trás. Todos foram embora rindo alto.

As lágrimas rolaram dos olhos do professor. Porém, antes que tivesse tempo de recolher o livro, um rapazinho que saía de outra sala, deu uma breve corridinha, pegou o livro, andou alguns passos e jogou aquele estranho objeto em uma das lixeiras que ficavam no pátio da escola.

 

José Neres escreve às segundas-feiras para o Textual.

Comentários

  1. Ótimos minicontos. Bem atuais. (Tirando o do paquerador rsrs) A gente se reconhece em alguns deles...

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