Textual
NOVAKOSKI
- Esse teu nome é
estranho.
- Foi minha mãe que
inventou. Ela viu uma vez numa revista
sobre umas modelos russas que estavam na moda. Tinha uma que se chamava Areta
Novakuski. Ela só mudou a vogal, pra dar mais som, me disse.
- Porra, tua mãe inventou
um sobrenome?! Coisa maluca...
- Não, besta. Meu
sobrenome é Silva de Andrade. Jilcileia
Novakoski Silva de Andrade.
Ele soube do nome dela
porque, um dia antes, ela tinha deixado cair, na roleta, a carteira da
universidade e ele achou. Ficou tentando encontrar, entre aquelas nucas, a nuca
dona daquela carteira. Ficou assim uns minutos, com a carteira na mão e o olho
fixo nos pescoços, nucas e cabeleiras. Só percebeu quem era quando ela se
levantou, lá na frente, e puxou a cordinha
da campainha, já na parada. Ele tentou chamar, mas ela desceu rápido.
Guardou a carteira e no
dia seguinte refez o trajeto. Lá estava ela, cabelo levemente ruivo, bolsa a
tiracolo, desta vez em pé, bem na frente. Desceu junto com ela e, uns dez
passos à frente, chamou pelo nome esquisito. Ela se virou rápido, achando
estranho aquela figura chamar o nome dela. Mas aí ele já estava com a carteira
dela na mão e um sorriso enorme nos lábios. Não foi um encontro amistoso, a
cidade andava perigosa, a mãe dela sempre dizia pra ter cuidado, ao celular.
“Tem muito malandro aí, minha filha”. Mas foi um encontro educado.
Ele se chamava Otávio.
Trabalhava numa loja de material de construção e fazia um curso técnico à
noite. 22 anos, natural de uma cidade muito, muito pequena. “O cu do mundo”,
como ele gostava de dizer aos amigos. Otávio era bonito, inteligente e se
apaixonou por Novakoski na hora em que suas mãos tocaram, juntas, a carteira de
estudante dela. Ela, não. “Tem muito malandro aí, minha filha”, ela lembrava
sempre dos conselhos da mãe, no celular.
Durou três meses a
artilharia de Otávio contra o coração de Novakoski. Ele a caçou pelo Facebook,
tomou uns esporros do chefe por ter chegado umas tardes atrasado – ele ficava
esperando ela passar no ônibus. Foi na faculdade dela com o pretexto de ver um
evento qualquer. Novakoski desconfiava daquela coincidência toda. Desconfiava e
gostava. O conselho de sua mãe, no celular, “Tem muito malandro aí, minha
filha”, parece que já não surtia efeito no caso de Otávio.
Foi no bar, naquele evento
da faculdade, que ela ouviu Otávio dizer, pela primeira vez, que seu nome era
estranho. “Estranho, mas bonito”. Foi naquele evento também que eles se
beijaram pela primeira vez. Que ele disse a ela que estava apaixonado, que não
parava de pensar nela, que queria que ela lhe desse uma chance. Novakoski não
disse nada. Apenas o puxou para mais perto de si, abraçou bem forte aquele
rapaz bonito e lembrou do conselho da mãe, “Tem muito malandro aí, minha
filha”.
“Foda-se”, ela pensou,
enquanto o convidava, ao ouvido, para irem pra casa.
Marcos
Fábio Belo Matos escreve às terças-feiras para o Textual.

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