DE ARARAS E OUTROS BICHOS

ou reminiscências da minha casa na praia

            

             Todos os dias, às seis da manhã, por volta do meio-dia e à tardinha, podemos esperar: lá vêm elas. Em bando, lindas, coloridas, fazendo grande algazarra, atacam as juçareiras, comendo suas minguadas frutinhas –, que assim nunca vão para adiante; deliciam-se com aa pitangas recém-amadurecidas e bicam as mangas que ficam no alto da mangueira. São as famintas ararinhas desta banda do Olho d’Água. A mangueira, que floria em novembro para dar manga em dezembro, agora, só em fevereiro atinge o auge de sua produção. Entenda-se. Acrescento que se trata de uma mangueira frondosa, bonita, de mangas comuns, de fiapo, a princípio meio salobras – que mangueira perto do mar dá nisso – e agora, doces e deliciosas. Que o digam as ararinhas.

       No princípio, as ararinhas eram apenas duas, depois quatro e, logo, graças à comida farta, aumentaram em progressão geométrica, acho que já são mais de doze. Não consigo contá-las direito, são muito rápidas, trocam incessantemente de lugar e me confundem. Segundo Malthus, logo serão 24, 56, 112, 224 ... 1340!  Meu Deus! Outro dia, sonhei que, esgotadas todas as frutas, elas invadiam a casa em busca de comida e acabavam nos atacando, como no filme “Os Pássaros”. Continuo admirando-as, chamo meus netos para curtir suas cores e a frenética coreografia. Só que...

         O terreno de minha casa não é tão grande, mas, mercê de meu companheiro, que não pode ver um centímetro quadrado livre sem plantar algo nele, abriga uma variedade interessante de espécimes da vida animal. Temos os tranquilos lagartões, que passeiam impassíveis nos muros ao sol, sobem em árvores e devoram a folhagem tenra de determinadas plantas. Não de todas, eles têm predileções. São tão entrosados na família que possuem até nome próprio. Lorenzo é o mais simpático. É curiosa a sobrevivência desses seres pré-históricos, enquanto seus parentes dinossauros repousam sob a forma de fósseis.

         Darwin – agora no pique da moda pelos 150 anos da publicação da Origem das espécies –, como sabem, é negado pelos criacionistas, contrários à teoria da evolução. Para os partidários do criacionismo o mundo é novinho, novinho – tem só um pouco mais de 6000 anos. E aí? Como explicar a extinção dos dinos há milhões de anos atrás? Não dando o braço a torcer, eles colocaram a responsabilidade em Noé, o do Dilúvio. De acordo com as medidas restritas da Arca (300 côvados de comprido, 50 de largo e 30 de alto) definidas pelo próprio Deus – sabendo-se que um côvado mede 50 cm –, Noé teria optado por não acolher nenhum casal das muitas espécies dos sáurios gigantes. Assim eles morreram todos no Dilúvio, atolados na lama, que virou pedra e de onde dão, hoje, um trabalho danado para serem desenterrados. Sobre esse item, não disfarço meu alívio. Já pensaram nesses bichinhos vagando por aí?

       Pra não insinuar que Noé seria antiecológico, arrisco até um palpite sobre o assunto: prefiro pensar que ele encolheu todos os bicharocos para poder abrigá-los na Arca. E, assim, eles estão entre nós: jacarés, iguanas, lagartixas, osgas, camaleões, dragões de komodo, tatus, e mais um centilhão de répteis que enchem o mundo.

        Dando sequência à arca familiar, temos também sapos: do cururu, o folgadão que come a ração do cachorro e ainda se abanca na sua vasilha, às rãs que se postam nas rodas de conversa, como se visitas fossem, e têm que ser enxotadas com a vassoura de piaçaba. Só assim retornam ao cano de escoamento da água de chuva, onde moram. Aliás, há uma grande falta de respeito com a comida dos mastins, todos tiram sua provadinha, sapos, bem-te-vis, ratos e doninhas. Esses dois últimos, se forem pegos, pagam a refeição com a morte. Há uma família de gatos vira-latas debochados que mora do lado de fora do muro numa toca de plantas espinhosas. Esses não são da casa nem foram convidados. Adoram provocar os cachorros: ficam andando em cima do muro conscientes de sua agilidade de acrobatas. Semana passada, um se excedeu na confiança, escorregou e... foi-se.

      Pensando bem, a característica da bicharada frequentadora da casa é a falta de temor ante os moradores. Passarinhos passam por sobre nossas cabeças enquanto almoçamos – gostamos de comer na varanda em uma enorme mesa de azulejos que abriga a família toda –, e comem os farelos que caem no chão. Há até um beija-flor burrinho que confunde telha de vidro com espaço aberto e fica engatado, toda vez, entre o caibro e a telha. Nosso caseiro põe em ação a operação resgate e, pacientemente, desengata o ceguinho. Que volta a ficar preso e...  Tenho a impressão que, com tanta mataria ao redor, eles devem achar que somos as visitas e eles os proprietários. Não deixam de ter razão.

     Confesso que sinto falta dos pardais, que vinham, chilreando, às centenas no fim da tarde, dormir nos bambus. Isso foi antes de eu dar o ultimato ao meu cônjuge: ou eu ou os bambus. Em tempo, ele tirou os bambus. Mas essa é outra história.

 



Ceres Costa Fernandes é escritora,

cronista e membro da AML e ALL

Comentários

  1. Excelente texto cronista. Mas a minha observação e dedução é que os humanos tomaram o lugar dos bichos. Então, passaram a ser nossos hospédes.

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