Perdido. Sem saber quem é, nem de onde veio, nem para onde vai. E
cercado de perdas por todos os lados.
É esse o homem?
Sob um ângulo científico, sim. Caso não se socorra de sua fé
religiosa para responder à primeira parte das questões fundamentais de sua
existência, para as quais a Ciência jamais encontrou resposta.
Mas o pior é que, queira ou não queira, também é um perdedor nato e
é disso que se ocupa Kathrin Shuls em artigo intitulado Permanência publicado
na revista Época, tempos atrás. E, embora as Perdas sejam fatos corriqueiros em
nossas vidas, fingimos não nos dar conta disso.
Estatisticamente dados de uma pesquisa mostram que um cidadão comum
perde cerca de nove objetos por dia, o que significa que quando completarmos 60
anos teremos perdidos cerca de 2 mil coisas. Durante toda sua vida você passa
cerca de seis meses procurando por objetos perdidos. Somente em celulares
perdidos nos USA uma década atrás foram gastos 30 bilhões de dólares, imagine
hoje!
À primeira vista isso parece simples como constituinte do fatídico
humano, mas essas pequenas perdas não passam de presságios de perdas ainda
maiores - da autonomia, da capacidade intelectual e, finalmente, da própria
vida. Por isso quando perdemos coisas, mesmo triviais, ficamos tão chateados.
Independentemente do que desaparece a perda nos coloca em nosso lugar, nos faz
confrontar a desordem, a perda de controle e a natureza efêmera da existência,
diz a autora.
Até chegarmos a maior das perdas, a dos entes queridos. Tantas
vezes, inconscientemente, saímos à procura daqueles que perdemos e que jamais
encontraremos, porque, diferentemente de outras perdas, a morte é a perda sem
possibilidade de encontro.
Nossa sina prosseguirá, irreversível, até que em determinado dia
deixaremos, afinal, de sermos perdedores. É quando passaremos de perdedores a
perdas para os que continuam vivos, a quem só restará para reflexão a frase
latina Consummatum Est (Está consumado!) pronunciada por Jesus
Cristo quando estava na cruz e sabia que a sua missão redentora havia sido
cumprida - referindo-nos não mais ao que se foi mas ao que restar de nossa
própria existência.
José
Ewerton Neto é poeta, escritor, membro
da Academia Maranhense de Letras

O texto de Ewerton articula com sensibilidade e profundidade a condição humana diante das perdas, combinando dados concretos e reflexões existenciais. A escrita provoca o leitor a encarar sua fragilidade sem apelar para o sentimentalismo. Com linguagem clara e toques de ironia sutil, conduz à aceitação do inevitável de forma lúcida e impactante.
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