WILLIAM AMORIM

a casca freudiana do poeta

 


William Amorim é apenas um rapaz latino-americano, que nasceu subjetivamente em São Luís do Maranhão, cidade que ama profundamente.  Assim como ama  incondicionalmente Clarice Lispector e tem muita sorte e orgulho de ser amigo íntimo das escritoras Luzilá Gonçalves Ferreira, Arlete Nogueira da Cruz, Roseana Murray e Hilda Hilst. Malgrado tenha muitas amizades no meio literário  e goste e admire  muitíssimo os colegas de ofício, construiu laços profundos e indescritíveis com as escritoras citadas.

Psicanalista, poeta, escritor, palestrante, professor universitário, apresentador de TV, criador e anfitrião do Café Freudiano, William Amorim é um curioso, um inquieto: gosta de se experimentar, de se reinventar, de se lançar no  desfiladeiro do desejo porque viver é correr risco e o que a vida quer da gente é coragem, como bem disse o Rosa.  Exatamente por isso saiu muito cedo do Maranhão para estudar e  se cultivar no Brasil e na Europa.  Autor e coautor de livros de literatura e de psicanálise, profissional bem estabelecido, orgulha-se mesmo é de ter um filho lindo, inteligente, ético, sensível, culto, que toca instrumentos musicais e ama literatura e a carreira que escolheu, a jurídica.  Não vive sem Panaquatira e sua casa dos poemas e amigo é realmente matéria de salvação. William Amorim deu uma entrevista gostosa para o "Revel".


Bioque Mesito O consultório também é um palco? Já te aconteceu de uma escuta clínica te levar, quase sem querer, a um poema? Ou de um poema nascer antes da análise e dizer mais do que qualquer diagnóstico?

William Amorim O consultório do psicanalista é sua escuta e não um espaço físico. Dito isto, ele é sim o palco para o Inconsciente e o advir de um sujeito desejante. A escuta analítica é uma  escuta significante que faz equivocar a linguagem e assim aponta para o Real, para o que ex-siste. Nisso ela se aproxima da poesia porque ela requer que o psicanalista, assim como o poeta, liberte a palavra dos sentidos cristalizados para que  surjam novos sentidos  e o analisante se surpreenda por dizer para além do dito. Assim, a escuta analítica possibilita ao analisante construir seu próprio poema. Os poemas sempre dizem mais e melhor do que qualquer diagnóstico.

 

BM Onde mora o desejo: no divã, na estrofe ou na tela? Tu achas que o erotismo encontra mais abrigo na arte ou na prática clínica? Algum verso teu já foi fruto de uma transgressão bem vivida?

WA O desejo mora na Outra Cena. Talvez por isso ele não se fixe em nenhum lugar. Por ter natureza insatisfeita, ele é metonímico, deslizante, quando você pensa que o capturou, ele ja está alhures.  Eros é pulsão de vida. Mas sua outra face é thanatos,  pulsão de morte. As duas andam juntas na arte e  na clinica. Na vida. Pois esta, como diz Freud, só quer saber de morrer. Todo verso é transgressão. Uma transgressão linguística, do código. Não é mesmo? (risos)

 

BM Psicanálise é silêncio, poesia é palavra. E a tua inquietação mora onde? Quando o mundo silencia, o que te empurra para a criação?

WA A psicanálise opera pela palavra. Mas é claro que, para poder intervir, o psicanalista precisa escutar, precisa silenciar. Ele precisa estar bem resolvido com seu narcisismo para ficar no lugar de objeto causa de desejo para que o analisante possa advir como sujeito. Não é absolutamente uma relação intersubjetiva a relação analista/analisante. É uma relação sujeito/objeto causa de desejo.

Minhas inquietações foram longamente trabalhadas em minhas analises pessoais. Isso possibilita ao psicanalista ter uma escuta desafetada de seu sintoma. Dito de outro modo, espera-se que, ao fim de uma análise, o sujeito possa se apropriar de um savoir-y-faire com suas inquietações, seus impasses  na vida.

Thanatos, a pulsão de morte , é silenciosa. Quando ela me silencia, recorro à invenção/criação  para saber fazer com ela. Sempre advertido de que, em se tratando do humano, todas as soluções são sempre provisórias. Nosso destino é então criar e recriar saídas para nossos impasses, nossas questões. 

 

BM No seu dia a dia entre pacientes e palavras, qual parte tua aparece mais inteira: o poeta que escuta ou o psicanalista que escreve?

WA Os  dois me atravessam da mesma forma. Ambos acreditam na palavra e no Inconsciente. Penso  que serei melhor analista se melhor poeta eu for.

 

BM Ser artista no mundo de hoje é resistência ou adaptação? Tu sentes que a arte ainda pulsa contra o sistema ou virou só um produto bonitinho de consumo cultural?

WA Espero que resistência. Resistência não ao novo, mas à letra morta . Psicanálise e arte não estão a serviço de nenhuma adaptação. São, nesse sentido, indisciplinas. Dizem que quando Freud foi convidado a ministrar várias conferências nos EUA, teria dito: eles não sabem que trago a peste. Voilá!!!

 Arte bonitinha, prêt-à-porter para o consumo não é arte . Seria entretenimento? Você concorda?

 

BM A arte que denuncia também pode ser bonita? Como equilibrar lirismo e crítica sem cair num panfleto? E onde tu vês o perigo de fazer arte despolitizada?

WA A arte é sempre uma denúncia da insuficiência da vida, da incompletude humana. Não há criação sem o  vazio. Assim como não há arte sem política. Ela é um ato político. Somos essencialmente seres políticos. Freud nos ensinou  bem  que somos uma dobra do outro, nos constituímos no outro, que toda psicologia individual é social. Lacan , por sua vez, nos ensinou que o Inconsciente não é individual e nem coletivo, mas social. Militância é uma coisa. Arte é outra. Bem outra. Felizmente !

 

BM Algum poeta ou compositor já te atravessou como um bisturi? Que versos ou sicas te viraram do avesso a ponto de mudar tua forma de ver a psique?

WA Amo absurdamente Rilke, Gullar e Roseana Murray. Mas meus poetas viscerais mesmo são Drummond e Manoel de Barros.  Compositor, o Chico Buarque. Ele sempre e tanto e sempre me atravessa avassaladoramente. Me viram do avesso versos e músicas que me tirem da zona de conforto, que me sejam unheimlich ,  inquietantes, ao mesmo tempo estranhos e familiares.

 

BM Tem cena artística que mais parece surto coletivo. Já viveste situações bizarras em eventos culturais que só sendo psicanalista (e artista) para entender?

WA Ah, sim. Muitas vezes (risos). Já vi coisas do Zé Celso e do Gerald Thomas, no teatro, que me pareciam da ordem do delírio. Mas talvez não sejam delírios, mas eu que não consegui encontrar as chaves para adentrar a obra.

 

BM O sexo na arte é alívio ou bisturi? Tu acreditas que o sexo pode ser uma forma de enfrentar a dor ou apenas um mecanismo de fuga disfarçado?

WA O sexo é alivio e bisturi (risos). Para a psicanálise a sexualidade é um complexo abrangente de toda a vida psíquica. A sexualização é uma forma de elaboração, um modo do ser de fala se apropriar do objeto, de tomar/assimilar o mundo como coisa sexual. Não é a cópula.  O sexo, em uma dimensão adicta, pode sim ser um modo de se anestesiar dos afetos. Não são só os ansiolíticos e os antidepressivos que podem anestesiar nossos afetos.

 

BM Ser artista é ser invisível com holofote? Já te sentiste apagado mesmo no centro da atenção? A sociedade escuta mais o artista ou apenas tolera sua presença?

WA A sociedade é bastante ambivalente com o artista. Ele pode causar fascínio e horror ao mesmo tempo porque  a arte toca no Real, no sem sentido. Sinto-me apagado sempre que não sou escutado.

 

BM E quando a arte vira fardo? Teve algum momento em que tu pensaste em desistir, deixar tudo e se esconder em um consultório onde não entrasse nenhum poema?

WA Não imagino a arte como fardo porque ela não é da ordem da burocracia. A arte é um modo de não morrer, ela vem de uma necessidade absoluta de expressão . Se vira fardo, não era um ofício, mas uma profissão. Pensar em desistir, somente quando me deparo com um poema, um conto ou romance completamente arrebatadores (risos). São tão incríveis que me dão vontade de não escrever mais nada porque não conseguiria dizer melhor. Mas ai, o desejo de dizer é maior que a vontade de escrever melhor do que já foi escrito por outrem. Posso dizer diferente do já dito, do meu jeito. Jeito que ainda não foi dito porque me espera dizer.

 

BM Quando tua arte e tua prática clínica se encontram, elas se escutam como em uma sessão de análise profunda ou se interrompem como pensamentos intrusivos numa mente ansiosa?

WA O psicanalista e o escritor que me habitam andam de mãos dadas. Um não larga a mão do outro (risos). Eles se complementam, são  o tempero do analista e do escritor que sou, tenho sido. 

 

Comentários

  1. Que entrevista incrível !!!!

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    1. Obrigado ! Feliz que tenha gostado . Bioque estaca inspirado nas perguntas .

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  2. Conhecendo um pouco mais do psicanalista no poeta e vice-versa.

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  3. Em um tempo em que a pressa esvazia as palavras e a imagem vale mais que o sentido, William Amorim emerge como figura rara (um analista da alma e um poeta da escuta). William transita entre a clínica e a poesia com a mesma delicadeza com que se caminha entre silêncios e abismos. É desses seres inquietos que reinventam a si mesmos sem abandonar o fio da ternura. Seus laços afetivos com nomes como Arlete Nogueira da Cruz, Roseana Murray, Luzilá Gonçalves Ferreira e Hilda Hilst (no espaço da eternidade), não apenas honram sua trajetória, mas revelam o quanto ele próprio é digno de admiração, por conjugar a profundidade do pensamento com a leveza do afeto. Como anfitrião do Café Freudiano, tradutor do inconsciente em gesto e verbo, ele transforma cada conversa num ato de resistência poética.
    William Amorim nos atravessa com seus versos, que são transgressões linguísticas. Vive entre o bisturi de Freud e a ternura de Manoel de Barros, entre o lirismo de Chico Buarque e a dureza necessária da escuta clínica. Sua arte, longe de ser produto de vitrine, é um modo de não morrer, como ele mesmo diz, e sua clínica, um palco onde o desejo dança sem máscara. Com a coragem dos que ousam se reinventar, William é presença pulsante, que desacomoda e encanta, um artista que não se contenta em existir: ele precisa dizer. E diz como poucos, com lucidez, com beleza, com verdade. Muito boa essa entrevista reveladora de um humanista puro em sua essência!

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    1. O que dizer? Quando a emoção é grande , a gente silencia . Gratidão!

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  4. Excelente! 👏🏻

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