A ÁGUA QUE CERCA AS TERRAS
Vivia assombrado com
o fim do mundo. Não aquele do Apocalipse de São João ou o previsto por
Nostradamus, de previsões (ou as interpretações delas) constantemente sendo
desmoralizadas desde o ano 1000, depois 2000 mil, descontados todos os
adiamentos feitos para justificar o fato de o mundo continuar amanhecendo e
anoitecendo apesar delas. E agora, os Maias também acharam de aporrinhar e
estão com o Juízo Final com ano, mês e dia marcados. Nem Nostradamus se atreveu
a tanto. Não, morrer de pacote com todo o mundo de uma vez, sem sobrar unzinho
para contar história, decididamente não o assombrava. Seria uma coisa divina
sem nenhuma interferência nem responsabilidade de sua parte, então: nada a
fazer.
O que o pegava de jeito era o fim de seu
mundinho particular que tanto demorara a construir e realizar a duras penas
desde jovem, abstendo-se de muitos prazeres e lazeres. Morava bem, em frente ao
mar, edifício antigo, mas de luxo, custara os olhos da cara e outras coisas
mais. A assombração do seu apocalipse particular era o clima, o derretimento
das geleiras e a subida das marés. Vivia cotejando as várias correntes de
ecologistas: a turma dos catastrofistas afirmava que até 2060 o mundo aqueceria
em 4 º C e, por conta disso, em 2100, o nível do mar subiria no mínimo a seis
metros.
Receio óbvio de quem
mora à beira d´água, mas havia uma origem insuspeita da hidrofobia – família e amigos não sabiam. Uma cigana, ao
ler sua mão, perguntada se ele viveria longamente respondeu enigmaticamente, à
moda das pitonisas: “Cuidado com a água que cerca as terras”, e mais não disse.
Desde então, aboliu banhos de mar, as viagens por cima d’água, mesmo as de
avião as que cruzavam o oceano deixaram de fazer parte dos seus roteiros, com
grande indignação da mulher que considerava ir à Europa parte indispensável do
status social. Até nos churrascos com amigos, pelo sim, pelo não, passava ao
largo de piscinas. Agora, com a decisão de mudar-se para o Tirirical – mais
longe da água impossível – completaria o seu ciclo de cuidados em relação à
nefasta previsão.
Na hipótese dos seis
metros, nossa Litorânea e adjacências – Ponta d’Areia, então! – submergiriam
tal uma nova Atlântida. Como, diabos, fora sucumbir aos argumentos aliciantes
daquele corretor de imóveis? Se bem que, à época da compra, ninguém levava a
sério ecologia e quejandos.
Logo ele que cumpria
com unção a sua parte na defesa do meio ambiente. Carro a álcool, desodorante
sem spray e supermercado com sacolas reaproveitáveis. Papel, só reciclado e
móveis, na sua casa, tinham certificado de madeira de reflorestamento, etc.,
etc. Em defesa dos animais, não comia frango criado com hormônio e confinado,
nem boi idem. Recusava peixe na piracema, ocasião que se dedicava
exclusivamente aos vegetais (sem agrotóxicos, é claro). Lia tudo sobre a camada
de ozônio, a emissão de gazes CO2, aquecimento global, poluição dos mares e
rios, derretimento das geleiras, uso abusivo do plástico. Estava quase um
doutor.
O diabo eram as
opiniões contraditórias. Havia a turma
dos céticos, a afirmar que a subida seria de apenas meio metro, na pior das
hipóteses, um metro, até o final do século. E, como dizia aquela cientista da
UFSC, signatária de uma carta aberta a presidente Dilma sobre o aquecimento
terrestre: “o comportamento do homem afeta o clima em escala local, mas não tem
capacidade de alterar os fluxos da matéria e energia em escala planetária”.
Enfim, Seguro morreu de velho: decidiu
que venderia o apartamento da pontinha da Ponta (já estava apegado a ele) e
procuraria um imóvel num lugar a salvo de inundações. Primeiro pensou em
comprar uma daquelas casas antigas, que você nunca para de reformar, ali perto
da Igreja de São Pantaleão, que sempre soube ser o lugar mais alto da cidade.
Consultou um geógrafo e ele o informou do seu engano: o ponto mais alto da
cidade é o aeroporto do Tirirical.
O azar é que, ali,
zona de indústrias, só comprando o terreno. Decidiu, nem que fosse no ponto das
vans e táxis para o interior. Ali estaria a salvo. Mulher e filhos se
revoltaram. Como?! Sair da Península da Ponta, para aqueles cafundós? É para o
bem de vocês, em 2100, estarei morto, mas prestem atenção: a vingar a teoria
dos seis metros, seria quase um metro por década, e lá pra 2030, a pontinha já
era. E quando a população se desse conta
dos riscos de morar à beira-mar? Os
terrenos perto do aeroporto subiriam muito.
Nessa angústia de
resolver tudo com antecedência, tentou vender o imóvel querido, dos primeiros
instalados na “península”. Qual não foi o seu espanto ao saber que a dívida de
aforamento, do seu “terreno de marinha”, um daqueles terrenos de bitributação dos
quais a água se acerca, que ele considerava isento com a nova lei, acumulava
débitos e já estava inscrito na dívida ativa da União. Contas feitas, juros
sobre juros, a soma era tão alta que ele teria de vender o imóvel, seu único
bem para pagá-la. Adeus, planos de construção da casa no Tirirical. A revolta, a impossibilidade de fugir à
catástrofe, os anos de sacrifício lançados fora culminaram em emoção violenta
demais. Sofreu um AVC, o popular derrame.
A viúva vendeu o
apartamento, pagou as dívidas, comprou um menor, não tão bem localizado, mas
também próximo ao mar – ela é adepta do meio metro –, e não esquece de pagar o
SPU em dia.
Ceres
Costa Fernandes é escritora,
cronista e membro da AML e da ALL

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