MISOFONIA

 

Contando o imposto e a previdência estou parte dos dez por cento mais ricos do meu país ao menos nesse dia & era do ano da graça de dois mil e vinte um mesmo ano de um expressivo aumento no consumo de salsicha macarrão instantâneo ossos

ainda que obstinado a viver meu privilégio além de um caráter que considero razoável seco de choros me embalo em um pai-nosso oco que não sei se por distância recusa ou necessitar de milhões

As linhas acima não servem de epitáfio ao menos não o meu acredito que meu plano funerário não o cobre mas não se pode alegar inteireza ou ilibação dos que não alcançam além dos jornais dos memes das urnas acabo oferecendo surras e rendas arabescadas com o mesmo peso prosaico dos bons-dias

Ainda faço parte dos que não tomam ansiolíticos dos que insistem em desistir mas seguem por dúvida ou dívida dos que guardam demolições dos amantes que ainda não se mataram por não terem sido convidados me peço progresso arrastando esqueletos nas mãos olhos lépidos de criança que pede nos ônibus aos sábados que carregam mais dados poéticos que todo esse esgoelar-se na ilha Bouvet

Ainda faço parte da espera já que rodízios de carne e cervejas importadas me encolheram em se tratando da luta ainda faço parte da mentira repetida envolto em cosmogonias íntimas

às vezes me excedo me permito acender alimentado descansado vestido e banhado quase estouro a cabeça enamorado por prestígio influência uma canção ou um beijo mas o que se extrai dessa postagem que sirva à aldeia? Dou a volta e (de)componho provo a própria carne desenvolvo planejo formato mas me calo – para sorte do mundo pervinca é a cor da estação em breve saberemos qual será o hit do verão todos levam a sério aforismos em reality shows

  


MASTIGAR

 Para Rosemary Rêgo, in memoriam

 

Excedo-me todo dia:

olhos recém-abertos

caem nas mãos

réplicas ao silêncio

 

deles

a memória

floresce

sufocada em perfume

 

deles

o que espero

espera e me arrasta

 

escapes restam

velhos passos redivivos

não como sonhos nos dedos

mas sendo-me toda coisa

inventada em impulsos

que acendem o espaço

 

pelo correr há

histórias pelos satélites

recordam formas sons

acidentes

e o calor que cria o insano

 

certo e direto sobre o desejo

excedo-me de qualquer forma:

todo dia é todos os anos

impostos através das córneas

 

 

 PASSADO 

 

Anos e dias do lado de fora

este portão à frente é um escudo

 

deste lugar excluso

sapateio nas memórias

 

paixões não sendo fatos

pessoas, significados

marcho pela rua de meus causos

 

receios pelas frestas

ralha a loucura por um diáfano

 

um dia na madrugada

vontade de cantar

nunca alcanço aquela nota

 

outro dia embalado

no luto que não espero ter

 

de todos os passos

em dia além capitulo

a uma espécie de abraço

aforismos em sachês de açúcar



AMARGO

 

Sob a noite o lençol dela

e espero boas novas

 

só desejo tua face sem lábios

quando acordar

 

saltito pronto em tua mesa

servido ainda que não queiras

 

em meus pés o gelo

que desprende de tua nuca

 

porque o sempre é um lugar verídico

onde se pode vender qualquer coisa



SOLO 5

 

Esmiúço um chuvisco de domingo disposto a esclare-

cer parcialmente que seja a razão em minha sombra

aí também ponha as perguntas que esmorecem após a

expressão do por que e um contentamento que versa

com o conformismo embora espere nunca tomar cer-

tas pílulas para sorrir

 

Impenetráveis ao método científico meus olhos que

tanto dizem dizer parecem traços encerrados num gra-

fite O mundo me estimula a guardá-los longe do fogo

que preciso e da luz que sonho definhando

 

Dito da forma menos regular possível é provável que

seja isso mesmo o caminho que cavo e indico é ina-

cessível tudo em mim que não é proteína mora em

neblina me encontro incomunicado

 

Entre discretos desesperos me ofereço a toda voz

toque e movimento o que quer que me force fora do

exílio que perdi no dia do parto desde então convivo

aprendendo a não apostar mas conceder regar médias

expectativas microagressões nanopartículas de plástico

e fuligem que lograrei a alguma erva comum e pisada.

 

 

ISCA

 

Entrego-me ao anzol

até nada parece muito

 

do necessário, fujo

até o sufoco é válido

 

Te singro alucinado

ardo, quando te resfrio

 

A fome de brilho tanta

no escuro tudo formiga

 

Turvas nossas buscas

no silêncio, esperamos

 

Tateamos nos sonos

universos em comum

 

Em quem se escondia

o golpe de misericórdia

 

Em nós, quem lançava

quem degustava a isca.



YOSUKE YAMASHITA

 

Se estou

                  o músico insistente
                  na última nota pétrea
                  perfurante

                  /

                 sou o piano aberto
                 flamejante
                 querendo voar

 

 


 

Sebastião Ribeiro (1988) é autor de vários livros de poesia, 

dentre eles Ménage – Antologia Trilíngue de Poesia – com Antonio Ailton 

(Helvetia Éditions, 2020)  e Outro (Penalux, 2022). Seu 5º livro, Solo (Litteralux, 2024)

 foi premiado com o 2º lugar do Prêmio  Claudio Willer de Poesia 2023, 

realizado pela União Brasileira de Escritores (UBE-SP).

Comentários

  1. Que prazer ler textos tão contundentes, tão avassaladores. Sebastião, não sei se me encontrei ou me embaracei na tua poesia.

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    Respostas
    1. Feliz em ler isso, ainda mais de uma parceira tão sensível e competente de poesia! Obrigado!

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