O TEMPO DO AFETO

 

Em uma sociedade marcada por estruturas opressoras e conservadoras, o tempo torna-se um elemento político. O filme Meu Bolo Favorito (2024), ambientado no Irã, levanta uma questão fundamental. Se o amor verdadeiro só chegar aos 70 anos, ele ainda vale a pena. Essa pergunta ecoa a provocação existencial, ao questionar se, mesmo conhecendo o destino, ainda escolheríamos vivê-lo. No entanto, em Meu Bolo Favorito, a interrogação é mais pungente, pois envolve a espera silenciosa e a negação do afeto em nome de regras sociais que aprisionam principalmente as mulheres.

Mahin, protagonista do filme, representa a mulher invisível em um regime onde o amor e o prazer feminino são constantemente vigiados. Aos 70 anos, ela decide dar um passo além das convenções e se permite viver o que nunca viveu. Um encontro afetivo, talvez o primeiro verdadeiro de sua vida. Essa escolha, tardia e potente, confronta os limites de uma existência marcada pela espera e pela renúncia. O filme, assim, se ergue como uma crítica delicada, mas incisiva, à repressão dos sentimentos femininos, sobretudo na velhice.

A narrativa é construída com um minimalismo estético que amplifica o peso dos detalhes. A casa de Mahin, cenário principal da trama, torna-se uma metáfora da clausura, mas também do espaço íntimo onde ainda se pode sonhar. Ali, o amor acontece, mesmo que por breves momentos. A câmera acompanha com sobriedade cada gesto, cada olhar, revelando a intensidade das emoções contidas. A opção por cenas estáticas e diálogos curtos sublinha a burocratização da vida afetiva em um contexto autoritário.

A solidão na terceira idade é outro tema central. Mahin, como tantas outras mulheres esquecidas, carrega o peso de uma vida em que o afeto foi adiado indefinidamente. Ao encontrar seu par romântico, não se trata apenas de uma história de amor tardio, mas da possibilidade de reinventar o tempo. Aquele momento breve pode valer por uma vida inteira. O bolo, nesse sentido, é símbolo da liberdade. Doce, raro e clandestino. Comer o bolo é um ato de resistência.

A cena da dança, talvez a mais emblemática, mescla poesia e política com delicadeza. Ao dançarem na sala, os dois corpos envelhecidos resgatam memórias de juventude e resistência. A trilha sonora, os movimentos lentos e os sorrisos contidos formam um quadro que denuncia, sem palavras, as perdas impostas por um regime que não admite espontaneidade. Nesse instante, o filme se torna uma ode à liberdade emocional e ao direito de amar em qualquer idade.

Contudo, o desfecho trágico do filme impõe ao espectador um retorno abrupto à realidade. A beleza do encontro é violentada pela crueldade do destino, como se o sistema viesse cobrar por aquele instante de transgressão. Essa escolha narrativa tem dividido opiniões. Seria necessário punir Mahin por seu gesto de liberdade. Ou o trágico apenas reforça a força da história que foi vivida, mesmo que brevemente.

A resposta, talvez, esteja na própria provocação nietzschiana retomada no filme. Se você soubesse tudo o que aconteceria, ainda assim viveria. Mahin escolhe viver, mesmo que a dor venha depois. O eterno retorno se atualiza não como condenação, mas como escolha consciente de repetir um instante pleno, ainda que envolto em tragédia. O filme nos convida a pensar no valor dos momentos e na coragem de vivê-los, apesar do contexto opressor.

A construção narrativa prepara cuidadosamente o espectador para o impacto final. Cada detalhe, uma xícara servida, um olhar hesitante, uma lembrança evocada, contribui para dar espessura à relação entre os personagens. O roteiro aposta na sutileza e evita o melodrama, tornando a emoção mais poderosa justamente por sua contenção. Quando, ao fim, ouvimos “você quer ajuda”, a frase carrega todo o peso simbólico de uma vida de silêncios.

Mesmo achando que o fim do filme poderia ter um outro desfecho, Meu Bolo Favorito permanece como uma película potente, que se atreve a falar de amor em tempos áridos. O amor aqui não é juvenil nem idealizado. É maduro, silencioso e profundamente humano. E talvez por isso seja tão tocante. O filme nos mostra que a idade não extingue o desejo, nem a repressão apaga a possibilidade do afeto.

Ao lançar luz sobre a solidão feminina na velhice, o filme denuncia também a violência simbólica de uma cultura que marginaliza as mulheres após certa idade. Mahin resiste não apenas ao regime, mas à invisibilidade. Sua decisão de amar é política e radical. É uma forma de dizer. “Ainda estou aqui, ainda posso sentir, ainda posso escolher.”

Meu Bolo Favorito, sugere uma simplicidade que contrasta com a densidade do que é mostrado. O bolo é partilhado não apenas como alimento, mas como celebração de algo raro. É um gesto que traduz ternura, desejo e liberdade. É a metáfora perfeita para um filme que aposta no pequeno para dizer o essencial.

Em tempos em que tudo parece passageiro e descartável, Meu Bolo Favorito nos lembra que há histórias que merecem ser vividas. Ainda que cheguem tarde, ainda que durem pouco. O filme nos devolve a beleza dos gestos simples e a potência do amor que insiste em florescer, mesmo em meio ao concreto da repressão. E, por isso, vale cada cena.

 


Bioque Mesito é poeta, autor de cinco

livros de poemas publicados 

Comentários

  1. Vou assistir ao filme. Teu texto mexeu com minha cinefilia. Já fui atrás da sinopse. A trama se passa no Irã. WANDA CUNHA

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Belíssimo texto cronista sobre esta história bastante real na vida de muitas mulheres que vivem ainda na solidão, que tiveram a sua vida na mocidade dedicada a um esposo, ou namorado e não tiveram afetos e a concretamente do verdadeiro amor. Mas nunca será tarde para amar alguém que seja ideal para se formar um par que se compreenda e viva o amor dr harmonia e intensos dr afetividade

      Excluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog