OURO DE TOLO
de Seixas a Cavalcante
Ouro de Tolo, do escritor Jáder Cavalcante,
é uma narrativa que tem como enredo a trajetória da professora Matilda, que sai
de sua terra natal, Floriano-PI, cheia de sonhos, fé e pudores religiosos, para
tentar crescer profissional e financeiramente em Curionópolis, cidade paraense
emergente, onde dinheiro e prostituição corriam soltos, em razão do garimpo de
Serra Pelada. Entretanto, o narrador na primeira linha do primeiro capítulo da
obra já preconiza o destino da personagem: “A mulher certa no lugar errado!”. É
aí que começa a arte do tecelão romanesco, puxando fio por fio da trama para
garantir uma boa história.
No romance, desenrolam-se vinte e três
capítulos. O enredo segue linear. As análises psicológica e física da
protagonista, logo no primeiro capítulo, demonstram a intimidade do autor com o
texto literário, criando uma heroína cujos conflitos internos e externos serão
determinantes para as tomadas de suas decisões, muitas das quais vão se
deformando na interação entre espaço e tempo.
No
decorrer das 287 páginas, uma playlist do gosto musical de Matilda,
apaixonada pela MPB e amante da dança, características que servirão de
trampolim para o deslinde de seu destino. As músicas, como dissera o narrador,
fazem parte da trilha sonora “de sua jornada pela vida”, fato que justifica a
reincidência da aparição da letra de “Ouro de Tolo”, de Raul Seixas, nos
primeiro e último capítulos, e que inspirou o título do livro de Jáder
Cavalcante. De Seixas a Cavalcante, nos dois pontos extremos, os conceitos da
expressão “Ouro de tolo” vão se materializando na letra e na narrativa,
respectivamente.
No capítulo 11, Matilda, metaforicamente,
vai-se despindo de si mesma para dar lugar à Paloma. Inicia-se o processo
daquilo que Raul Seixas chamou de “Metamorfose ambulante”. Fica patenteada,
nessa parte da narrativa, a beleza física de Paloma se sobrepondo à beleza
espiritual de Matilda. E enquanto a Paloma vendia a sua beleza, a Matilda
passava por uma mudança psicológica, transformando o belo em feio, simbolizando
aquilo que o filósofo alemão Friedrick Nietzsche, numa visão antropomórfica,
considerou o belo, dentro do contexto da eticidade, algo agradável ou que dá
prazer; e o feio, algo degenerativo. Sob a luz do pensamento nietzscheneano,
Matilda e Paloma vão cruzar o mesmo destino, na degradação de seus valores.
Na obra, também, a visão rousseauneana de
que o homem nasce bom; a sociedade o corrompe. Trata-se do espaço físico da
narrativa embrenhado no espaço social que impõe as desigualdades, que causam
danos à própria espécie, como dissera o dramaturgo romano Platus: “Homo hominis
lupus”, frase ressignificada por Hobbes em Leviatã, e que encontra eco nos
Versos Íntimos de Augusto dos Anjos: “o homem que, nesta terra miserável mora
entre feras, sente inevitável, necessidade de também ser fera”. Assim, a obra
“Ouro de tolo” vai sendo tecida sob a luz da concepção filosófica de que “o
homem é produto do meio”.
Igualmente, o tilintar de duas mímesis: a que
Platão denominou de imitação da realidade, acreditando que as artes tinham o
poder de imitar o mundo das ideias; e a de Aristóteles que, em sua Poética,
defende a imitação verossímil, na qual “a arte imita a vida”, dentro de uma
proposta de recriação, interpretação e ressignificação das existências humanas.
Percebe-se, pois, quão universal é a Matilda nas mãos dos garimpeiros, em Serra
Pelada, onde de pedra preciosa transformou-se em ouro tolo.
O narrador, na sua onisciência, por vezes,
incorpora o autor, ao tomar deste as lições do professor de língua portuguesa e
revisor de textos, corrigindo os deslizes gramaticais da professorinha em sua
linguagem coloquial: “- Não pode fazer isso, você quer ser posto para fora
pelos seguranças? Se cuida, hein! - ela, antes tão preocupada com a linguagem
escorreita, nem percebeu a próclise errada nem o solecismo que cometera”. (p.
125).
A obra de Jáder Cavalcante, por si só, conduz o leitor aos seus clímax e desfecho extasiantes. Enquanto o texto flui pela magia da criatividade do autor, o leitor frui dos melhores momentos da leitura. Ao final, o que predomina é a vontade de começar de novo: autor e leitor, ambos prontos para o fluxo editorial de uma nova safra romanesca.
Wanda Cunha é poeta e presidente
da Academia Maranhense de Trovas

Querida Wanda, sua análise da obra mais parece um ensaio, daqueles feitos pelos craques da crítica literária. Obrigado por sua generosa avaliação e por divulgar a obra entre a comunidade bibliófila. Grande abraço!
ResponderExcluirWanda, ler teus textos, é se deliciar da primeira a ultima linha, sem vontade de parar, levada pela leveza sofisticada de tua forma de expressar os sentimentos e pensamentos. Parabens pelo dom.
ResponderExcluirFilosofia e literatura se misturam nas percucientes e sóbrias análises de Wanda Cunha, sempre atenta às nuanças existenciais presentes nas obras daqueles que têm o privilégio de ter seus livros lidos e avaliados pela maior escritora maranhense viva. Viva, Wanda!
ResponderExcluirLiteratura é com Wanda Cunha. Desta vez, ela foi mais longe e analisou o romance pela via filosófica. Gosto de tudo que ela faz e não sou suspeita. Sou verdadeira. Wanessa Cunha
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