RODOVIÁRIA E AEROPORTO

 

- Bom dia, dona Rodoviária.

- Boa noite, Aeroporto. Boa noite!... Aqui, na Avenida dos Franceses, sempre é noite. E olha que para a noite ser boa é preciso que o número de desabrigados seja inferior ao número de bancos de que disponho. Os sonhos dos que não conseguiram dinheiro para viajar ficam expostos sobre os meus assentos à noite toda.

- Você já está com suas lamentações?!....

- Tu não precisas de lamentos, porque vives ladeado de artistas de televisão, de gente grã-fina. Só gente boa, de grana, que voa e sonha alto. Que come o que há de melhor nos aviões. Os ricos só sobem, por isso que criaram o avião e te criaram, Aeroporto. Os ricos sobem aos céus e jogam seus detritos para os bestas cá da terra. Aqui, meu, é o contrário: os urubus vêm do céu comer os restos de lixo que os passageiros boias-frias deixam por aqui.

- Deixe de lamúria. Você é uma mulher bem conceituada, visitada por muita gente.

- Queres zombar de mim?... Queres me dizer que o papa veio de Roma no ônibus do Tivira e ainda fez xixi neste meu banheiro imundo? Queres me dizer que Roberto Carlos, quando faz show por estas bandas, vem num leito de ar condicionado e senta-se naquele meu boteco que fede a mocotó de quinta categoria?... Dá um tempo!... Tá vendo aquele barzinho ali, onde as moscas fazem pilotagem e os cachorros são fregueses? Aquele bar fede tanto a mijo que parece um urinol. Sabes o que é urinol?

- Não exagere!... Hoje você tá que tá.

- Tô que tô suja, tô que tô abandonada, tô que tô esquecida. Não sei aonde andam os fiscais da saúde e os agentes de limpeza. Aqui, mala de passageiro é cofo de galinha. Tu vives em ar condicionado. Aqui, ar condicionado é ventosidade emitida pelo ânus. Tuas portas abrem sozinhas. Lá na Avenida Santos Dumont, WC é toalete, onde as patricinhas retocam a maquilagem e colocam perfume. Aqui, em vez de WC, as portas do banheiro deveriam ter bem grandes as letras K e H. KH é mais frequente do que WC.

- Não se lamente, Rodoviária! Você é de utilidade pública. Um dos primeiros pontos em que o turista aporta.

- Aqui, turista não aporta, aqui turista aborta. Tu, sim, és o cara. As pessoas mais ilustres descem tua rampa. Até Marechal Cunha Machado, esse cara que eu nem sei quem é, mas que certamente é ilustre, fica o tempo todo de frente pra ti. Faça chuva ou faça sol, faça noite ou faça dia, ele fica aí à tua frente, te velando, te admirando e não arreda o pé nem para ir ao banheiro. Já cá, meu amigo, o negócio tá tão feio que não se vê um só francês nesta Avenida dos Franceses.

- Quer saber de uma coisa: “Vida boa é a do vizinho”. E só eu sei o que passo pra sobreviver. Mas nunca perco meu bom humor. E hoje você está muito amarga. Não quero me contaminar. Tchau!....

- Vai, seu Mauricinho de meia tigela, seu metido, seu burguês, seu... Droga!... Um dia aquele político que prometeu uma rodoviária bonita ao povo maranhense cumpre a promessa, e eu viro uma dama de verdade. Vou esperar pra ver. Quem espera sempre alcança, mas vou me sentar, porque quem espera sentado não se cansa.


 

Wanda Cunha é poeta e presidente

da Academia Maranhense de Trovas

Comentários

  1. Wanda Cunha, com seu olhar crítico, desvela mais uma mazela de nossa cidade: a envergonhante rodoviária ludovicense. Com prosopopeia magistral, personifica os dois principais entrepostos de saída-chegada de São Luís, tal qual primo rico-primo pobre. Parabéns, Wanda, mais uma no alvo!!!! Lembrei até o caso do viajante que parou na rodoviária de uma cidadezinha pobre do interior do Maranhão (desculpe o pleonasmo!) e, na lanchonete do majestoso empreendimento, olhou o expositor de salgados e pediu um quibe. O atendente disse que não vendiam quibe. Quando o viajante apontou o suposto quibe pelo vidro, o atendente disse que aquilo era ovo cozido, então abriu a portinhola e, sacodindo a flanela, gritou: "Xô, mosca!!!"

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    1. Kkkk. Muito boa tua história, Jáder! E obrigada pelo comentário. Abraço. Wanda Cunha.

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  2. Triste realidade a nossa. Rodoviária, sem comentários, e uma tristeza mesmo. E o aeroporto em eterna reforma, melhorou um pouco. Parabéns, Wanda, pelo bom humor ao tratar de nossas mazelas, esse sim, é indispensável.

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  3. Mais uma vertente de Wanda que se afigura: o humor. Mas um humor que denuncia as diferenças socioeconômicas entre uma população e outra, traduzidas nos locais de embarque e desembarque de pessoas. Não pude de deixar de lembrar de nossas viagens juntos para Bacabal-MA, onde, não raras vezes, o ônibus parava no meio do caminho, e aí era um deus-nos-acuda.
    Parabéns, Wanda!
    Nicolau Fahd

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  4. Gostei muito. Você é uma pessoa muito criativa e escreve muito bem. Sophia Vitória

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