DO OUTRO LADO DO MUNDO
Remédio bom
para presunção é levar, de vez em quando, um soco nos cornos. Este conselho,
nada sutil, mas verdadeiro, é receita de um amigo diplomata. Entenda-se aí que
a linguagem é figurada. Foi esse o impacto que tive quando tentei usar a
Internet, o telefone público ou simplesmente me situar nas ruas de cidades
russas. Imaginem uma pessoa leitora desde a mais tenra infância, familiarizada,
antes mesmo de dominar as palavras, com as letras que se exibem nos muros, nas
fachadas de lojas, em manchetes de jornais, nas embalagens de alimentos,
deparar com tudo isso escrito no alfabeto cirílico, sem a tradução
correspondente em qualquer língua ocidental. Agora entendo o que diziam os
jesuítas a respeito do alfabeto japonês: que o mesmo teria sido criado pelo diabo
para impedir a catequização dos nipônicos. Desculpa inadequada para o meu caso,
considerando que não estou sendo catequizada e que a criação do alfabeto russo
é atribuída a um santo, São Cirilo.
Os leitores
podem perguntar: mas como? Então, não se preparou, estudando um pouquinho de
russo, qualquer coisa aí, só para o trivial? Até que tentei, não com muito
empenho, confesso, tenho um livrinho com as palavras e expressões mais
corriqueiras adquirido na véspera da viagem, mas o cérebro gasto e
desinteressado absorveu umas poucas palavras para falar, e duas para ler:
entrada e saída – que tenho muito medo de incêndio. De resto, perdi a vergonha
e andava que nem aqueles meninos de escola levados a passeio pela professora,
agarradinhos um na roupa do outro em fila indiana. Quando embarcados no
navio-gaiola do nosso cruzeiro fluvial, era diferente, o grupo brasileiro
falava espanhol, inglês, francês, ou tudo misturado, e ainda arriscávamos umas
palavrinhas de russo e a tripulação entendia tudo. Ou não.
Nos museus,
nos palácios, nas obras de arte faziam a concessão de colocar umas letrinhas em
inglês debaixo do texto em russo. E que obras de arte! Só para conhecer a
famosíssima coleção dos gênios da pintura mundial, pertencente ao museu
Hermitage, conjunto suntuoso de prédios, aí incluído o palácio de inverno de
Pedro, o Grande, conjugação harmoniosa de arquitetura com riqueza e bom gosto –
que nem sempre andam juntos –, valeria ter feito a viagem.
De São Paulo a
Madrid, voo no container da TAM; de Madrid a Moscou, voo charter no avião que
pertencera ao Real Madrid, descartado certamente por não ser mais seguro
(cruzes!), espaçosos bancos de couro, ornados com o brasão do time, um luxo só,
enfim, desfrutamos um pouco do conforto do grande time de futebol. Em Moscou, o
esperado: Praça Vermelha, Kremlin, Catedral de São Basílio, mil igrejas em
estilo bizantino, um deslumbre, principalmente à noite. O outro lado da moeda
se mostrou na estrada contorno da grande cidade a caminho ao porto fluvial,
apareciam moradias coletivas – assemelhadas a presídios - em decadência,
pinturas descascadas, janelas com papelões fazendo às vezes de vidros, umas
poucas favelas de containers e espanto para nós: fumacentas termoelétricas,
próximas a residências, à beira da própria capital. Alguns companheiros
descobriram até palafitas, confesso que não cheguei a vê-las. Perguntas sobre o
regime de ontem e de hoje. Curiosidades e observações obrigatórias de turistas
que devem encher a paciência dos locais. Turista é tudo igual. Até então, o
previsível.
Mas, aí,
aconteceu o Rio Volga. O nome desse rio faz parte do imaginário da minha
infância: lembro meu pai cantarolando alguma ária de “Os barqueiros do Volga”,
totalmente inadequada para o timbre de voz e a precária afinação dele. Mercê da
estropiada canção, o Volga crescia no meu encantamento, representando algo
envolto em brumas, longínquo e inacessível. Eis que navego em suas águas, lisas
de tão mansas, de Moscou a São Petersburgo. Se não há mais barqueiros, há
imensos lagos e eclusas cheias de gaivotas. Nas margens, as elegantes dachas e
as modestas casinhas das aldeias salpicam de cores o verde escuro dos pinheiros
nativos e o claro das plantações de eucaliptos. E, de repente, cidades
milenares carregadas de história, com suas igrejas bizantinas pintadas de
vermelho e seus domos dourados em forma de suspiros, recortados contra o céu,
passam por nós, iluminadas e imponentes como transatlânticos. O imaginário não
sofreu danos.
E há as
“noites brancas”. Fenômeno ocorrente de maio a julho, quando as cores do ocaso
permanecem misturadas a nuvens brancas, dando às noites um lusco-fusco
brilhante, se isso é possível. No Volga o efeito é redobrado, o céu se derrama
e se espalha na superfície lisa do rio. Dormir torna-se opcional tal o fascínio
da noite. Ruim é a ressaca no dia seguinte, principalmente quando o barco
atraca em uma aldeia onde o meio de transporte são as próprias pernas, e se
tivermos sorte, um riquixá, puxado a bicicleta.
Fiquei a
matutar como cidades edificadas em lonjuras geladas, média de -40° no inverno,
quase sem meios de comunicação, no mínimo três meses por ano – o Rio Volga e os
lagos ficam congelados de dezembro a março –, puderam florescer.
Dias depois,
exauridos por tanta beleza, chegamos a São Petersburgo. Mas isso já é outra
história, que talvez eu conte. Por hoje fica o impacto do soco, ainda zunindo
nas ouças. Uma lição de humildade aprendida? Espero. E, sem dúvida, a
compreensão da dor de andar por entre as gentes sem a capacidade de ler.
Ceres Costa Fernandes é
escritora,
cronista e membro da AML e ALL

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