IN EXTREMIS
Descobri que na minha poesia não há pássaros
Passaram todos
Não há peixes
Todos naufragaram
Não há marés
Todas vazaram
O luto virou uma luta
Pela presença dos que partiram
A luta virou um luto
pela ausência dos que ficaram
Uma calcificação aqui
A lembrança de um carcinoma ali.
Mamas que desmamaram a esperança
Uma luz escura no fim do túnel
Olhos cheios de ressaca de um porre de ser... E veja!..
Parece até que eu ainda não morri.
MUDANDO
O MUNDANO
O
mundo muda suas penas
de
pernas para o ar.
Não há abrigo; há perigo, talvez,
pois
a vez é tal tecnológica
que
a lógica busca logística
na
orgia de absurdos.
E os surdos não veem
o
que os cegos ouviam do Ipiranga,
depois
de posto e deposto
o
Rei morto com rosto de cruz.
Na calma da alma,
a
palma da mão se une a outra;
a
cal do semblante gera a cera
sem
antes saber que era a era
de
caber no caixão pra cair no chão
depois
de implantes infrutíferos
ante
o desplante de vidas e idas dos mortais.
Ungiam-se cirurgias. Urgia a dor.
Na roda-viva de quem vive aqui, tudo acaba.
A Ciência, entretanto, calça as sandálias para entrar
no
templo de um tempo temerário,
Na busca da eternidade, idade eterna de deuses.
O fato é que o feto tetraneto sobreviverá
a
todas as doenças, porque a nova crença é que a morte morrerá.
DECISÃO
Minha alma não precisa de tua alma
Nem de teu corpo.
Minha alma precisa da minha calma
Pra caminhar com meu corpo
Em busca de outros abrigos,
Onde não caibam brigas nem martírios,
porque a vida é curta
E urge que eu seja feliz até na tristeza.
MELATONINA
Livrem-se de mim as insônias!...
Sou péssima companhia para o silêncio da
noite,
porque ainda há alvorecer nos meus olhos de
orvalho
e porque valho a sobra de sorriso que
almocei no jantar.
ENIGMÁTICO
Preciso entender de que substância sou
feita.
De mim, dos meus ancestrais, dos meus
descendentes,
Dos meus mitos ou de ninguém?
O tempo parece longo, mas é efêmero na
transitoriedade da vida
Eis a minha substância!...
O enigma do ser indecifrável do Senhor
Humano.
EPITÁFIO
Meu epitáfio será o vento,
o silêncio, a maré vazante.
A morte vai ficar chateada,
Porque não haverá carpideiras
nem lágrimas no meu velório.
Ninguém precisará ficar triste,
Porque eu serei como o vento,
o silêncio e a maré vazante.
Quanto eu morrer, quero música.
HORA DA TEMPESTADE
Talvez eu precise deixar meu coração à
vontade
Pra chorar, orar, arar
A rara alma na calma
Dos conflitos aflitos
Dentro mim...
Recolho-me, encolho-me
Acolho-me, colho-me
Como rosa que perdeu
Seu tempo de pétalas
Para voltar à terra na hora da
tempestade.
Talvez eu precise deixar meu coração à
vontade pra chorar, orar...
Arar... Rara é a rosa
Que não murcha em breve tempo, leve
tempo,
Tempo de neve.
MIMETISMO
Na cama, leão!....
Camaleão cujas cores mancham meu lençol
e me devoram enquanto me pintam de mato seco.
Ele mete-se em mim sob o seu mimetismo.
Sinto o gosto do verde de sua pele
que sofre mudanças em minha alma incolor.
Insípido é o seu olhar que me beija a testa.
Sua língua corre solta sobre meu corpo
E ele, então, abocanha as nuvens
para onde eu me transporto.
PESCA(DOR)
A alma do mar é amarga do sal
do sol.
E bate no cais como quem cai
em lágrimas
Abarca o barco com um abraço
de louco
E balbucia o beijo da brisa
quando se recolhe.
A alma do mar é marcada pela
calma dos anjos
Quando o vento vadio é
quebrado pela vela
Mar misterioso no mistério de
mim
A permitir a pororoca dos
apuros perdidos.
Um rio e um mar, um riso
amargo
Misturando ondas e
correntezas
Certezas de idas e vindas em
busco do porto
Nada de Porto. Nada a alma.
Naufrágio.
Porta aberta para a morte
Se a sorte não se manifesta.
Festa de peixes, cardume,
queixumes,
Tudo na mesma rede.
PAÍS DA COPA OU DA
CAPA?
No Brasil a bola belisca a bala
Entre a fama e a fome
Existe a copa e a capa
Quem joga a dor não é o jogador
É o mesmo que governa a dor que o torcedor sente.
Lá no presídio tem presidente
Na linha de fundo, de escanteio, está o povo.
Ele também é a bola, ele que só leva bolo.
Vamos bolar o novo. Vamos jogar o bolo pra cima
E acima de tudo, vamos assustar a dor
Pois é assustador lavar as mãos limpas,
Enquanto muitas permanecem sujas.
Não se quer taça; precisa-se de raça, para não virar caça
Nada de tiros, nada de tiras, nada de mentiras.
A gente só quer um país melhor.
Wanda Cunha é poeta, prosadora, trovadora, jornalista, professora, membro da Academia de Letras de Paço do Lumiar e Presidente da Academia de Trovas do Maranhão
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