UM PARADOXO ENTRE O AMOR E A
RENÚNCIA
Talvez você nunca tenha assistido ao filme Casablanca, ou talvez seja como eu: já assistiu dezenas de vezes. Ou ainda achou ruim o título, ou não gosta de assistir a filmes em preto e branco. De qualquer forma, um dia você precisa assistir a este filme. Casablanca é uma experiência estética e emocional que atravessa o
tempo como uma carta nunca entregue, mas sempre lida. Assistir a esse clássico
não é apenas uma atividade cinematográfica; é um mergulho num universo onde o
amor não vence, mas permanece. Talvez por isso ele nunca morra. A força do que
não se realiza é o que alimenta a eternidade de certos sentimentos. E ali,
naquela despedida sussurrada, vive o drama humano de toda escolha impossível.
O filme se desenrola em meio à Segunda Guerra Mundial, mas o verdadeiro campo de
batalha é o interior dos personagens. Rick Blaine não luta contra exércitos;
ele enfrenta memórias. E não há granada que doa mais do que um “adeus” que
ainda ama. A guerra externa apenas reflete a interna. O bar em Casablanca
torna-se metáfora de um mundo suspenso, onde cada copo de uísque esconde uma
lágrima não derramada, e cada nota ao piano é uma tentativa de manter viva uma
lembrança.
Ingrid Bergman e Humphrey Bogart não apenas atuam; eles encarnam.
Quando Ilsa diz "Toque, Sam", não é somente uma frase. É um chamado
aos deuses do passado, é um ritual de reencantamento da dor. A sutileza da
interpretação é tão avassaladora que transforma o silêncio entre falas em uma
sinfonia de angústia. O corpo não resiste: arrepia, treme, arde. E não é vulgaridade,
é lirismo em carne viva. É o humano transbordando.
A escolha de Ilsa é o ápice da contradição amorosa. Ela ama, mas
vai embora. E Rick, que poderia ser só mais um homem duro, se revela humano no
momento da renúncia. Casablanca nos oferece a mais paradoxal das lições: às
vezes, amar é deixar partir. Em tempos de narrativas que insistem na posse e no
final feliz, essa entrega é revolucionária. Filosoficamente, amar aqui é ato de
liberdade, e não de aprisionamento.
Curtiz conduz o filme como um maestro que conhece o silêncio entre
as notas. Nada é exagerado, tudo pulsa no tempo certo. O roteiro não apela ao
melodrama, apenas o sugere com elegância. As frases icônicas não são bordões,
mas aforismos de um tempo partido. "Sempre teremos Paris" é menos uma
lembrança e mais uma sentença existencial: a felicidade pode ser real, mesmo
que passageira. E talvez por isso nos marque tanto.
A trilha sonora é outro personagem do filme. Max Steiner orquestra
emoções sem precisar gritar. “As Time Goes By” não é só uma música-tema, é uma
elegia do tempo. Escutá-la é como folhear um álbum de memórias que nunca foi
fotografado. Cada nota é um suspiro por algo que nunca mais voltará, mas que
persiste. É tempo, é saudade, é arte pura. A canção atravessa décadas porque
fala com o que é imortal dentro de nós.
Casablanca também é sobre moralidade. Não há heróis puros ou vilões
caricatos. Há decisões complexas em tempos absurdos. O Capitão Renault, por
exemplo, é um sujeito dúbio que, no final, se redime. A amizade que nasce entre
ele e Rick é inesperada, e por isso mesmo autêntica. Aliás, talvez o maior
charme do filme seja esse: ninguém é totalmente bom ou mau, mas todos tentam
encontrar alguma dignidade em meio ao caos.
Esse caos não é apenas histórico, mas existencial. Estamos todos em
Casablanca, tentando fugir de algo, esperando um visto que nos salve de nós
mesmos. Por isso o filme permanece tão atual. Não importa o ano, sempre haverá
um Rick, uma Ilsa e uma escolha impossível. A Segunda Guerra, aqui, é pano de
fundo para o que nos assola desde sempre: amar, perder, lembrar. E continuar
vivendo apesar de tudo.
A personagem de Yvonne, mesmo apagada, representa esse esquecimento
que ronda os coadjuvantes da vida. Nem todos são protagonistas, mas todos
sofrem. E Casablanca reconhece isso. O espectador é envolvido num tecido de
relações que se entrelaçam, sugerindo que cada pequena história é um universo
de dor e esperança. A câmera não nos obriga a olhar, mas nos convida a
perceber. E isso é raro.
A estética noir contribui para essa atmosfera de penumbra
interior. A fotografia em preto e branco é menos uma limitação técnica e mais
uma escolha artística. O claro e o escuro não disputam a cena: convivem. Como
os sentimentos dos personagens. A imagem não precisa de cores, pois o roteiro
já colore tudo com intensidade emocional. O contraste é o que move o filme, na
imagem e na alma.
Não há exagero em afirmar que Casablanca é uma filosofia disfarçada
de cinema. O filme nos ensina sobre o tempo, a memória, o amor e a renúncia.
Nos mostra que há beleza na tristeza e força na fragilidade. Não à toa, ele é
citado, referenciado, homenageado. O mito de Casablanca vive porque toca uma
verdade universal. A de que amar é também perder. E que perder, às vezes, é a
mais bela forma de amar.
O final do filme não é o fim do sentimento. Ao contrário, é o
início da eternidade dele. Rick e Ilsa se separam fisicamente, mas unem-se num
lugar onde só os grandes amores habitam: na lembrança. A despedida no aeroporto
é menos um adeus do que um batismo. O amor deles sai dali maior, embora
inacabado. Porque o que é completo morre. E o incompleto permanece.
Casablanca é um espelho do humano. Do nosso desejo de controle e da
nossa inevitável impotência diante da vida. É arte que não fecha sentido, mas
que amplia a experiência. Quem o assiste, não apenas vê um filme, mas participa
de uma comunhão. E essa comunhão é feita de música, de olhares, de frases
sussurradas ao vento. Como se a própria existência nos dissesse: você também já
amou e perdeu. Bem-vindo a Casablanca.
Bioque Mesito é poeta, autor de cinco
livros de poemas publicados

Já assisti seguramente mais de 50 vezes. Casablanca é um desses filmes que são, como os grandes poemas, uma brisa na alma, um sopro de luz no coração. Há nesse filme uma magia, um encanto, um alumbramento que transcende a história contada, o desencontro cruel do amor em um mundo voltado para a guerra, habitado por gente que só quer domínios, possessões, escravidades. "Sempre teremos Paris", "Play It again, Sam", a épica cena do cabaré inteiro a cantar Lá Marselhese contra a opressão e os opressores, são antológicas, inolvidáveis, indeléveis. É uma experiência quase que transcendental assistir Casablanca.
ResponderExcluirDepois de ler este texto, mesmo quem nunca assistiu Casablanca, se sentirá obrigado a vê-lo, com tanta riqueza de detalhes, sentimentos, emoções que só os bons filmes têm, e nos fazem viajar na sua história. Muito bom texto.
ResponderExcluirParabéns pelo texto, querido poeta. Para um excelente filme, sempre existirá uma excelente crônica!
ResponderExcluir