CÉSAR WILLIAM
uma cartada poética
César William, com uma pena afiada e o coração no compasso da palavra, chega à cena poética como quem lança cartas sobre a mesa, firmes,
líricas, ora reflexivas, ora inquietas. Carta (à) Margem, seu segundo
livro de poemas, é uma travessia de vozes e tempos, um espelho de suas estações
poéticas, reunindo desde O Errante (1988), sua estreia precoce e
impactante, até versos lapidados em diversas fases da sua militância literária.
Desde jovem, foi apontado como promessa, e não decepcionou. Carlos
Cunha viu ali, em seus primeiros versos, uma originalidade rara. Assis Brasil
destacou a liberdade formal e o lirismo afiado. Já Salgado Maranhão, no
prefácio de Carta (à) Margem, confirma o que os leitores atentos já
sabem: César William mantém, em cada poema, a emoção intacta, sem jamais abrir
mão do rigor estético.
Poeta, professor, gestor e agitador cultural, César é dessas
figuras que mantêm a chama acesa da literatura maranhense, seja nos palcos de
festivais (como o Intercolegial de 1984, onde começou sua saga), nas páginas
das antologias contemporâneas, ou nos encontros, reais e virtuais, com seus
pares de escrita.
Nascido em São Luís em 1967, é membro ativo de várias instituições
literárias e um dos pilares da Geração 90 no Maranhão. Entre projetos, livros,
ensaios e cartas-poema, César William segue embaralhando os sentidos e nos
convidando a ler a vida como quem decifra um baralho de imagens, ritmos e
verdades. Essa é, sem dúvida, uma cartada poética de quem conhece o jogo. E
joga bonito.
César William é o nosso entrevistado de hoje da Revel.
Bioque Mesito Tu lembras o momento exato ou uma cena marcante que te empurrou
para a poesia? Foi uma epifania, um desafio ou um suspiro mais fundo que virou
poema?
César William Sim, 16 de novembro
de1984, data em que venci o I Festival Intercolegial de Poesia Falada,
concorrendo enquanto representante de escola pública e disputando com
estudantes de várias escolas também públicas e outras particulares, em uma bela
tarde, no auditório da Biblioteca Pública Benedito Leite em que faziam parte da
comissão julgadora Manoel Lopes e José Chagas.
Esse registro é marcado tanto pela epifania quanto pelo desafio e fundo
suspiro de um jovem desabrochando para a poesia.
BM Lá nos idos de 1984, vencendo o I Festival Intercolegial de Poesia
Falada, já tinhas ideia de que estava começando um longo namoro com a poesia?
CW Não. Foi-me grande surpresa, mas, a partir de então senti um chamado
sobre o qual pensava que era um caminho simples e que sobre este eu tinha
propriedade.
BM Teu primeiro livro, O Errante, foi lançado em 1988 e recebeu
elogios de nomes como Carlos Cunha e Assis Brasil. Como foi ver, ainda tão
jovem, tua poesia reconhecida dessa forma?
CW Outra surpresa. Carlos Cunha, em um primeiro momento, riscou o
livro de ponta a ponta. Disse que eu era poeta, mas que teria que estudar
gramática. Depois de alguns meses, quase um ano, retornei com o mesmo livro,
eis que desta feita, ele fizera o prefácio. Por conta disso, tornei-me rato de
biblioteca e depois, professor autodidata de Língua Portuguesa, ministrando
aula em escolas particulares e em cursinhos pré-vestibulares de São Luís.
Somente em 2009 graduei-me em Letras pela Uema. O professor passou a ser, até
hoje, sustentado pelo poeta, guiado por uma energia que está além de
academicismos. Quanto ao Assis Brasil, ele me inseriu em seu projeto, “A Poesia
Maranhense no Século XX”. Ambos, tanto o Carlos Cunha quanto o Assis Brasil
encheram-me de entusiasmo e me deram uma carga maior de responsabilidade.
Conheci o primeiro por meio da minha madrinha, uma senhora muito culta, Ariceya
Moreira Lima. Quanto ao Assis Brasil, ele esteve no lançamento da antologia que
organizara em 1994 no Sioge. Conversamos um pouco e, após dez anos,
reencontramo-nos no Salão do Livro do Piauí- Salipi. Foi um momento mágico.
BM César, participaste ou participas de grupos importantes como a
AMEI, a ALPL, AILCA, Os Integrantes da Noite, Curare… Como esses espaços
coletivos alimentaram (ou ainda alimentam) tua escrita e tua visão de
literatura?
CW Foram e são muito importantes para mim. Embora eu não me julgue
disciplinado o suficiente para fazer ou ter feito parte deles. Neles sinto ou
senti abrigo consubstanciado pelo mesmo ideal: a valorização da literatura,
mesmo eu discordando de alguns olhares estrábicos (por alguns que fazem parte
desses grupos) em torno da poesia, sobretudo da poesia. Os grupos Curare e Carranca foram-me grandes
despertadores e o Poeme-se, do qual não fiz parte, mas assisti a muitas das
suas reuniões deu-me norte. Quando fui cursar letras, boa parte do que foi
trabalhado no curso eu já havia degustado nas audições do Poeme-se, há 40
anos.
BM Em Carta (à) Margem, há poemas de diferentes fases da tua vida
poética. Como é reler um poema antigo: dá vontade de reescrever, de abraçar, ou
de deixar como está, como um retrato do que tu foste?
CW Sempre penso que poderia ter ficado melhor. “O Errante”, por
exemplo, é um poema que poderia ter ficado bem melhor, se na época eu tivesse
mais leituras. Porém, há algo que está além da nossa análise. Há textos que
imploram para surgirem, enquanto outros, mais trabalhados, nunca deixam de ser
um projeto, sopros, sussurros. Quando li “Um pouco acima do Chão”, do Gullar,
senti-me mal, muito mal, por saber que o autor o relegou e que comparado com o
que escrevi na minha estreia, vi-me muito abaixo, muito abaixo do chão. Mas, já
era tarde, o eco já havia pulado da túnica. Ainda assim, sustentei-o e o reeditei
na minha nova “Carta”. Em “O Errante”, às vezes alguns leitores confundem o eu
lírico com o próprio autor. Nisso não se mexe.
BM Qual foi o fato mais inusitado ou pitoresco que já aconteceu
contigo no mundo da poesia?
CW Inusitado mesmo foi o fruto de uma pendenga nos anos 2000. Um
escritor local resolveu escrever algumas críticas negativas em torno do 13º
Festival de poesia Falada promovido pelo DAC/UFMA, do qual figurei como um dos
membros da comissão julgadora, da qual você também, poeta Bioque, fazia parte.
Após umas três réplicas e tréplicas, minhas e dele, fui ao Imparcial. Ao falar
com o diretor de Redação, Raimundo Borges, aleguei que iria processar tanto o
escritor quanto o jornal, dado ao tom irresponsável e difamatório sobre o
aludido festival e especificamente sobre mim. Disse ao Borges, em seu gabinete:
“inclusive, há muitos erros gramaticais no texto que o escritor em voga vem
publicando, vocês não têm revisor”? O jornalista suspirou, tirou os óculos,
encarou-me e dissera-me: “estamos precisando, conheces alguém”? Respondi que
sim e que ele estava diante de um. Pronto! Ganhei um emprego no jornal O
Imparcial, por conta de uma pendenga. Lá conheci grandes profissionais e
aprendi bastante. Saí para atuar em um cursinho pré-vestibular que se
ramificava em vários municípios do Maranhão.
BM Salgado Maranhão, Carlos Cunha, Assis Brasil… Como é para ti ter
estes nomes dialogando com a tua obra? Que outros poetas te atravessaram e
continuam ecoando nos teus versos?
CW É-me honroso e aumenta cada vez mais minha responsabilidade. Tive
o privilégio de ter conhecido o entusiasta, elétrico, irrequieto escritor
Carlos Cunha, já acostumado a apresentar nomes no cenário cultural maranhense.
Quanto ao Assis Brasil, ele reforçou o depoimento do autor de “Moinhos da
Memória” na antologia que reúne 66 poetas do Século XX, iniciando com os mais
velhos e chegando aos mais novos. Li e reli a obra e fui pesquisando e lendo
todos que fazem parte dela. O primeiro nome que estampa no livro é do monstro
Sousândrade que apesar de não pertencer ao século XX é marco para todo o tempo
e precisa ser lido com voracidade. Já o
Salgado, primeiro adquiri uma obra sua, “Mural de Ventos”, comprei no Salão do
Livro do Piauí – um santuário dos livros, da literatura em que habitei de 2005
a 2011, onde o conheci. Li a obra, vencedora do prêmio Jabuti, de um só fôlego,
depois reli e reli inúmeras vezes. Minha graduação em Letras foi sobre essa
obra. Depois contemplei “Sol Sanguíneo” e tudo o que esse poeta arretado
produziu. Iniciei um ensaio sobre sua poética e nunca consigo concluir. Nossa
amizade surgiu da poesia. Em 2019 tive a oportunidade de lhe entregar os
originais de a Carta (à) Margem, ele fizera o prefácio, mas a obra só pôde ser
editada em 2024 pela Editora Viseu e o livro impresso foi lançado no último dia
13 de junho deste no 23º Salão do Livro do Piauí, em bate-papo literário
intermediado pelo professor e escritor Luiz Romero, com participação especial
do próprio poeta Salgado Maranhão, com
presença da professora doutora e
escritora, Silvana Pantoja, minha orientadora no TCC em torno da obra
salgadiana e de outros poetas, escritores de Teresina, da região e de outros
estados.
BM Teu poema “Flor Seleta” diz que “o melhor poema ninguém o escreve”.
Tu ainda acreditas nisso? Ou já escreveste um que, no silêncio da madrugada, te
pareceu o melhor?
CW Flor Seleta dediquei ao poeta e amigo, Salgado Maranhão. Continuo
com a mesma concepção. Esses poemas que surgem no silêncio da madrugada
geralmente não ficam presos em lauda, quando os abordamos, eles fogem por
completo ou ficam insossos, pela metade. Parece que o chamado não quer a
completude do exercício, exatamente para o poeta ficar sempre se dedicando,
buscando, burilando, burilando e às vezes com muito sofrimento por sentir que
não realizou o que queria de fato.
BM És professor de língua portuguesa. Como esta vivência na sala de
aula influencia o poeta? Já nasceu poema no meio de uma correção de redação ou
explicando um sujeito oculto?
CW Não é uma tarefa fácil. Associar o poeta ao professor em sala de
aula. Muitos pensam que é mais fácil, entretanto, embora seja prazeroso é
também doloroso. Em sala de aula tentamos abrir os olhos dos alunos sobre o
fazer poético, mas nos deparamos geralmente com uma chusma sonolenta, tragada
pelos modismos da mídia. Muitos julgam a poesia pela estética, sob os mesmos
prismas ou então sob o aspecto emocional. Roupagem de linguagem, estética, recursos
estilísticos não podem preceder a sensibilidade e isso tem que ser analisado e
observado seja em um poema concretista ou em poema de carga existencialista. A
maior dificuldade é educar os estudantes a terem uma concepção de poesia em sua
essência, daí, partir a explicar-lhes o que pertence ou não aos cânones e até
onde podemos adotá-los, até onde é possível se ter uma possível poesia. Com
prosa, sinto mais facilidade, tanto que em 2016 preparei alunos da rede pública
de ensino de Paço do Lumiar e fomos semifinalistas na Olimpíada de Língua
Portuguesa, representando o município em Porto Alegre-RS com o gênero crônica.
A aluna que fora contemplada tinha inspiração e recebeu orientações
gramaticais, dicas sobre o gênero e muita leitura de textos meus, de outros
autores maranhenses e nacionais. Ao todo, lemos umas 100 crônicas e fizemos
oficinas. Houve muitos textos bons das turmas do 9º ano, mas o da aluna
Mickaelly Freitas foi sublimar.
BM Hoje, num mundo tão visual e acelerado, escrever poesia ainda é um
gesto de resistência? Como enxergas o lugar do poeta nos tempos em que o “like”
vale mais que o lirismo?
CW É ainda mais um gesto de resistência Aí me vem à mente Celso
Borges: “a posição do poeta é oposição”.
Nesse ponto vou também com Heidegger, que defende o poeta como alguém
capaz de revelar a essência do ser e da verdade, através da linguagem e da
poesia, tornando-se um guardião do mistério do ser.
BM O que é escrever poesia no Maranhão, um estado com tanta força
cultural, mas que ainda luta por mais espaço no circuito literário nacional,
atualmente?
CW Escrever poemas no Maranhão é um desafio precioso, é abraçar uma
tradição que deve respeitar os que tornaram e ainda tornam este torrão
emblematizado por seus feitos literários, desde Odorico Mendes até as novas
gerações. É preciso tê-los como espelho e baliza, não apenas pelo que fizeram,
mas como se comportaram em meio às adversidades do seu tempo.
BM Já escreveste biografia, ensaio e participou de antologias. Mas a
poesia é o teu canto principal. Já pensou em te aventurar pela prosa, ou a
margem do verso é o teu lugar de escolha?
CW Sou contista e cronista, mas não exponho muito meus feitos. Tenho
exigências. Produzo 100 textos para aprovar 10 e destes arriscar a publicar um.
Meu paideuma é muito bom tanto para eu seguir enquanto poeta, quanto para
enveredar pelos caminhos da prosa. Sei bem por onde e como seguir, só preciso
de mais disciplina.
BM O que dirias hoje para o César de 1988, aquele que lançava seu
primeiro livro cheio de sonhos e incertezas? E o que ele te diria de volta?
CW Eu diria: “César William, tu não deverias ter ficado muito tempo
sem publicar”. E penso que ele me
responderia, “contemple apenas a fidelidade que tiveste com a poesia. Isso te
blinda. Prossiga”.



Grade poeta.
ResponderExcluirLer esta entrevista com César William é como folhear um livro de memórias afetivas da própria poesia maranhense. Com sua fala límpida e firme, ele nos convida a atravessar décadas como quem caminha por uma ponte feita de versos e vestígios de luta — a luta de quem escreve, ensina e resiste. Cada resposta é uma missiva ao tempo, como sugere o título de seu mais recente livro.
ResponderExcluirLembro com certa ternura dos dias em que eu lecionava Filosofia e César William, com sua voz mansa e presença firme, ensinava Língua Portuguesa na escola Pão da Vida, situada entre a rusticidade do campo e o rumor inquieto da urbe, donde emergia uma atmosfera singular, de caráter quase litúrgico. Ali, o concreto se estendia pelo terreno, misturando-se ao cheiro cítrico dos cajus à espera de sua queda das árvores. À sombra quase silenciosa das tardes, o saber brotava, sereno, para além das frutas e das folhas.
É belo ver como o poeta César William preserva a tecedura do espanto, mesmo depois de tantos anos de estrada, mantendo a lucidez crítica e o coração em estado de poesia. Impressiona sua consciência estética, o rigor com as palavras, mas também sua generosidade com os encontros e com as memórias que moldaram sua voz. Poeta de travessia, professor de inquietudes, cronista do instante — ele nos lembra que escrever é, sim, um gesto de resistência, mas também um ofício de escuta, de burilamento, de afeto.
Que bom saber que César William continua lançando suas cartas líricas, provocadoras — e que nós, leitores, ainda temos a sorte de recebê-las.