AMOR NO CARNAVAL
(Do livro “Contos
de Desamor”, Ceres Costa Fernandes)
Sábado Gordo, à tardinha. O bloco vinha da Madre
Deus e fazia a curva para entrar na praça da Saudade, quando Candinho a vê, de
pé, junto ao muro do cemitério, alheia à folia, sozinha e fantasiada de cigana.
Abra-se um parêntese para notar esse estranho costume da cidade, fazer do
cemitério passagem obrigatória de todos os blocos carnavalescos. Como íamos
dizendo, Candinho a vê; chama-lhe a atenção a fantasia, um tanto fora de moda,
e o olhar verde perdido e, porque não dizer, também
o corpo bonito e os belos cabelos negros. Magnetizado, ele
abandona o bloco e aproxima-se.
De
perto, é ainda mais bonita. Candinho é
bem apessoado, e os colegas - com uma ponta de inveja talvez -, sempre o
reputaram um “bico doce”. Olham-se nos olhos. Seria um daqueles encontros
marcados pelo destino ou efeito da magia do carnaval? O certo é que se dá entre eles o clique da
energia alimentadora de todo amor. Um pouco de conversa e parecia conhecerem-se
desde sempre.
Dizem-se os nomes. Cândido, mas podes me chamar de Candinho. Maria
Luísa, sem apelidos, mesmo. Em meio ao enleamento, ela diz, sou comprometida,
não posso ficar aqui, à vista de todos. Estamos perto do portão do cemitério,
vem, vamos entrar. Hoje, ninguém vai aí. Candinho não titubeou; tudo para ficar
junto àquela que ele sentia que já amava. Com ele sempre foi assim, ou tudo ou
nada. Quando ama, é acometido de paixão galopante, amor eterno e outras coisas
mais.
Entram. Dentro do cemitério, tudo é paz. Ninguém por ali, até o zelador
saíra para olhar os blocos – que ninguém é de ferro. À medida que avançam nos
diversos setores e alas mais distantes do portão de entrada, os ruídos do
carnaval chegam mais abafados, até que, por fim, parecem vir de um planeta
distante.
Candinho observa, encantado, o deslizar gracioso de Maria Luísa por
entre os túmulos, sem demonstrar receio. Nunca aquele lugar, que visitava
esporadicamente aos Finados, lhe parecera tão belo. Aquela mulher maravilhosa e
ele, ali, com ela ao alcance das mãos. Ela para. Abraçam-se, beijam-se com
sofreguidão, como a recuperar amores perdidos em outras vidas. Não vou dizer
que fizeram amor em cima de um túmulo, porque vão aparecer engraçadinhos a
relatar casos iguais, e este não é um caso vulgar. Deixo o que se seguiu à
imaginação de vocês. Com enlevo, Candinho admira a carnação alva da jovem
mulher, tão rara em dias de culto ao sol das praias, contrastando com o negrume
dos cabelos. Nos braços perfeitos, enlaçados no seu pescoço, brilha uma
pulseira fantasia de pedras vermelhas. Que bela pulseira, meu amor. Diz ele,
após ter esgotado todo o seu vocabulário amoroso.
Infelizmente, dizem os românticos, o relógio do amor não possui o
ponteiro dos minutos, e esse é o motivo das horas amorosas correrem como se
minutos fossem. Logo, chega o momento da separação. Trocam telefones, e ela
diz, fica com esta pulseira para te lembrares de mim. Como posso te
esquecer? Psiu! Adeus. Vai à frente que eu saio depois, para
não dar na vista. Te telefono amanhã.
Sim. Adeus.
Domingo de Carnaval, Candinho, inquieto, espera dar as 10 horas para
ligar o telefone. O número dado por Maria Luísa arde em suas mãos. Finalmente.
Liga. Atende uma mulher, Peixaria Verde Mar, bom dia. Peixaria? Não é uma residência? Insiste. Um momento,
vou chamar o dono. Pronto. Meu senhor, é um equívoco, recebi este número como
de uma residência e tenho certeza de... Olhe, comprei esta casa, há vários
anos, de uma senhora que se mudou para a Rua dos Afogados, se quiser, lhe dou o
telefone dela e o endereço.
Voou
para a Rua dos Afogados. Ela teria que lhe explicar a brincadeira. Por que o
telefone trocado? Toca campainha. A
porta se abre e aparece um velho de aspecto cansado. Quero falar com D. Maria
Luísa Com quem? Com a patroinha? O
senhor tá maluco? Ela morreu faz vinte anos. E mês passado, morreu d. Zefa, mãe
dela. E o resto da família foi pra S.Paulo, de muda. A casa tá à venda. Diz, de
um fôlego só, o velho. Do espanto, à incredulidade, estupefação, Candinho passa
ao nervosismo. Pergunta mil vezes - não quer acreditar: era uma moça alva de
cabelos negros e olhos verdes? Sim,
senhor. Muito bonita a minha menina.
Em
casa, Candinho se desespera. Meu Deus, não pode ser, eu a toquei, beijei-a, fiz
amor com ela. Era de carne e osso, tenho certeza! Não aguenta e desabafa com Beto, seu melhor
amigo. Sempre soube histórias de mulheres mal amadas que voltam do túmulo para
concretizar um amor, nunca pensei isso, logo comigo! Beto conta para Paulo, de quem não esconde
nada, Paulo conta para Beatriz, sua namorada e confidente, e, logo, toda a
turma sabe que Candinho fez amor com um fantasma. Um prato cheio para os
gaiatos. O pior é que ninguém acredita, nem o Beto. Foi bebedeira, rapaz. E que
bebedeira!... Chateado nosso herói isola-se. Começa a duvidar de sua sanidade
mental, mas a pulseira vermelha está ali, na mesa de cabeceira, implacável, a
comprovar que não tinha sido um sonho. Vou mandar rezar dez missas, não, cem,
pela alma de Maria Luísa, quem sabe assim ela fica em paz. Candinho tem a
convicção de que nunca mais voltará a ser o mesmo depois daquele carnaval.
Sala
da Superintendência Administrativa de um hospital de grande porte, um mês
depois. A secretária diz: Dra. Márcia, telefone. Dra. Márcia, a Superintendente,
uma jovem mulher de tez clara, cabelos negros e olhos verdes, atende: Ah, és tu
Glorinha? Tudo bem? Se eu vou ao baile
de Sábado de Aleluia? Não, minha amiga, o Artur resolveu que nós dois e as
crianças vamos viajar na Semana Santa. Se posso te emprestar minha pulseira de
pedras vermelhas para a tua fantasia?
Sinto muito, não a tenho mais, deixei-a no cemitério. Não é desculpa
para não te emprestar, e nem estou brincando. Foi no Sábado Gordo. Sabes? Aquele em que briguei com o safado do Artur.
Nem te conto, me vinguei dele direitinho, é uma história... Agora, não. Não
pelo telefone. Quando voltar do fim de semana, e tanto, te conto tudo. Vais
cair o queixo.
Ceres Costa Fernandes é escritora, cronista e membro das Academias
Maranhense e Ludovicense de Letras


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