O SAMBA DA MADRE DIVINA
É incorreto dizer que a Madre Deus é o berço do
samba e do carnaval maranhense ou mesmo ludovicense? Sim. Até porque a festa
embora pagã, consta no calendário religioso católico há séculos, sobre o mote
de “Extravasar para se recolher” e isso, muito antes do bairro.
A cruz já estava fincada nas sesmarias, nas
missões, nas vilas, e nos distritos coloniais com seus ritos, na alma das
pessoas que desejavam o tal paraíso celeste. Por outro lado, nos quilombos e
nas aldeias, onde não havia carnaval, estavam a roda, os tambores, o batuque, o
remelexo: seja para santos, orixás, deuses…onde fosse, como desse, o corpo
sempre ousava buscar no espaço sua liberdade, sua essência de movimento, sua
conexão e quando necessário, resistência.
Então se não foi onde surgiu, na Madre Deus foi
onde agregou, reuniu, juntou, agremiou muita gente de deus e do diabo que
batucava nas vielas desde antes da Ponta de Santo Amaro, gente que beijou a mão
de governantes para ganhar terras e construir as Quintas do Gavião, do Belira e
Do Bessa, gente que sobreviveu ao tempo ruim e agradeceu na Ermida de Nossa
Senhora da Madre Deus, gente que desembarcava no breu guiados pela imaginária
Genoveva Pia até a capela de Nossa Senhora da Madre de Deus buscando refúgio da
escravidão, gente que descia o sertão e avistava o centro de recreação jesuíta,
gente da Baixada que via o palácio do Governo que funcionou ali por 40 anos,
gente do continente buscando sonhos as margens do Bacanga estacando suas
palafitas e agradecendo a São Pedro a pesca do dia, gente acordando na dura
realidade de cada apito da Cânhamo e da São Luís ou a cada mugir da boiada
tocada até o Matadouro Municipal.
Assim foi que em cada mulher, cada mãe que
conseguiu seu metro de chita para costurar um fofão, em cada artesão que fez máscara
do papel machê, cada soldado recrutado para a fuzarca do Fuzileiros ou da Turma
do Quinto pelotão, transformando em samba seu suor, sua dor, sua fome, seu
medo, sua raiva. Em Cada príncipe que atravessou sua rua Roma. Cada bicho
reinante nessa terra. Cada nova semente nascida e passada no alho, DESCASCAR
ALHO, cada novo enredo embalado, cada caroçudo “duro de roer” num C. de Asa
protegido por São Sebastião que se fez carnavais do popular a inovação. Da
novidade, o respeito a tradição.
Se o som é ancestral dos terreiros onde baixa o
santo, a inspiração vinha do cinema da
associação dos moradores na velha Madre Deus de baixo exibindo filmes da
segunda guerra mundial, da vida corrida e mal paga de poetas operários nos
bares com suas contas penduradas e fígados destruídos a cada nova dose de
folia.
O certo é que se não nasce, o bamba ao seu tempo
muda, migra, se abriga com seu samba na Madre Divina, nem que seja pelo
Carnaval, dure ele o quanto durar. Se a história de turmas, blocos e grupos de
carnaval de fato não surge lá, por lá passam, ressurgem, expandem para além da
maré do Goiabal, subindo a Madre Deus de cima pelos muros do cemitério do
Gavião, pela praça da Saudade, rua do Norte, Passeio, São Pantaleão. Lira,
Codozinho, Belira, Vila Bessa, Vila Gracinha. Na Grande Madre Deus, A madre
divina, de onde não se vira “do samba”, se germina no ventre do carnaval.
Se é assim, assim seja o carnaval da raiz
ancestral na Ilha de encantarias, do congo, do baralho, do entrudo. Viva também
a quem estourou de entusiasmo no desfile da avenida, quem perdeu a paciência
esperando o reconhecimento de cada político eleito e suas promessas nunca
cumpridas, mas nunca desistiu da sua essência do “eu sambo porque estou vivo e
vivo para poder sambar!”.
Na Madre Deus, o samba não nasce, ele se
encanta!
Marcus Saldanha é escritor, historiador e jornalista


Um poema em prosa esse texto, Marcus!! Lindas imagens da Madre Deus!!!
ResponderExcluir👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻 perfeito
ResponderExcluirExcelente! Histórico, geográfico, realista e poético! Abs do amigo Rafael Marques (Fofão do Mangue)
ResponderExcluirTexto PERFEITO, faz a gente se encantar com a história da Madre de Deus! Parabéns, Marcus! 👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼
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