A DIVINA COMÉDIA E OS PERCURSOS TORTUOSOS DA CONDIÇÃO
HUMANA
“Da nossa vida, em
meio da jornada,
achei-me numa selva
tenebrosa,
tendo perdido a
verdadeira estrada.”
A obra mais famosa de
Dante Alighieri foi escrita há mais de 705 anos. Ainda assim, seus versos
continuam a impactar gerações de leitores que tiveram contato com a obra mestra
de sua criação.
A “Divina Comédia”, seu
escrito mais sublime, é, ao mesmo tempo, a coroação de seu amor platônico por
Beatriz de Folco Portinari (a quem dedicou vários de seus escritos mais
conhecidos) e o ápice de uma imaginação que legou ao mundo um poema insuperável
em linguagem popular.
Ressalte-se que a comédia
da qual trata Dante é divina, ou seja, não é uma comédia qualquer. Ao contrário
da tragédia, possui um final feliz (e no Paraíso, por sinal). Seu sentido,
portanto, não é simples e raso. É denso, amplo, complexo, dramático.
Afinal, trata-se de um
livro cheio de alegorias, simbolismos e significações. Uma obra de fantasia
cujos limites estéticos e criativos são, ainda hoje, difíceis de serem
emulados.
Impende frisar ainda, em
torno de sua importância (BRAZ, 2023), que ela “mostrou como uma língua que não
fosse o latim (...), pôde ser capaz de criar, sem nenhuma intimidação, uma
obra-prima na altura da Odisseia, da Eneida, do teatro grego.”
O poema dantesco,
composto por versos decassílabos organizados em tercetos com rimas dispostas no
esquema ABA/BCB/CDC, ao longo de cem cantos, metaforiza o drama da condição
humana numa narrativa que confere à personagem central (o próprio Dante) e às
personagens que o circundam (Virgílio, Beatriz, São Bernardo e outras figuras
conhecidas daquela época) a tarefa de empreender uma jornada de caráter
ascensional por vários planos, círculos ou mundos, com múltiplas divisões, a
fim de reencontrar “o bom caminho abandonado”.
Daí o motivo pelo qual a personagem inicia a aventura desde os círculos mais profundos do Inferno, galgando, não sem apuros e descobertas, os patamares superiores do Purgatório e do tão almejado Paraíso, imagens que continham muita força no imaginário do período medieval.
No trajeto, será guiado
pelo poeta Virgílio e, posteriormente, adentrará o Paraíso e alcançará o Céu
ladeado por Beatriz, eterna musa que assume a tarefa de retirá-lo da “selva
escura”, ajudá-lo a reencontrar a “verdadeira estrada” e escapar do inferno.
Essa mulher idealizada é
também aquela que, por meio do seu espírito amoroso e iluminado, simboliza a
sublimação da virtude. No céu, Dante encontrará, por fim, o lume do Sol,
de Deus, da vida verdadeira, contemplada na transformação íntima que se lhe é
operada após a árdua travessia, desde a escuridão da selva, na qual estivera
perdido e desviado (como vemos no Inferno - Canto I), até a graça, o enlevo e a
glória dos céus paradisíacos, onde, serenada a agitação do ânimo, a personagem
central abandona a errância.
O livro, além de
cativante, possui inúmeras alegorias e mensagens que podem ensinar muito aos
leitores. Dentre elas, há algumas que me chamam atenção.
A primeira é a de que
toda jornada concorre, em algum grau, para a abertura da possibilidade de uma
reforma interior. Além de conferir conhecimento a quem a executa, a travessia
da vida, com seus percalços e surpresas, é capaz de moldar uma nova pessoa, dotando-a
de experiências, valores e virtudes.
A segunda diz respeito às
diversas maneiras encontradas para julgar, criticar e condenar a ganância, os
vícios e as deformações do poder.
A terceira denuncia a
extrema ambiguidade da condição humana, capaz da queda e da ascensão, da sombra
e da luz, da bondade e da maldade. O que mostra que temos em nós,
concomitantemente, as vertentes contidas nesse pêndulo, as feras e os monstros
que personificam nossas vicissitudes.
Para finalizar, devo
afirmar que a mensagem que me toca mais fundo a alma, no que se refere ao
humanismo radical presente na obra-prima de Dante Alighieri, é justamente a da
alteridade. O que me leva a pressupor que, se não fossem os seus guias, ou
seja, aqueles que o acompanharam durante a difícil e longa jornada, Dante
talvez não conseguisse chegar até o fim e alcançar o paraíso.
A divina comédia trouxe,
portanto, para mim a reveladora constatação de que ninguém se salva sozinho.
REFERÊNCIAS
ALIGHIERI, Dante. A
divina comédia. Tradução de José Pedro Xavier Pinheiro. D. Giosa: São Paulo,
2003.
MELO, Alessandro. A
divina comédia sob a luz do cristianismo. 3. ed. Divinópolis, MG: Ed. do autor,
2023.
Rogério Rocha é poeta,
filósofo, autor
de três livros de poemas publicados


Muito bom
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