CARNAVAL
DE PASSARELA NO MARANHÃO
Quem copia quem?
Há quem afirme detestar o carnaval de passarela
de São Luís por ser uma cópia do carnaval carioca. Mas será? Vejamos algumas
datas para saber se o argumento é válido. A escola de samba mais antiga da
capital é a Turma da Mangueira fundada em 25 de dezembro de um distante 1928.
Por sua vez a homônima carioca, Estação Primeira de Mangueira foi fundada meses
depois em 28 de abril de 1929. Opa!
Quem copia quem?
A escola de samba mais antiga do Brasil anterior
a Estácio de Sá não existe mais, era a “Deixa Falar” também de 1928. A Portela
por sua vez, embora fundada antes como "Conjunto Carnavalesco de Oswaldo
Cruz" (1923), consolidou-se como escola de samba somente no início da
década de 1930. Opa!
Em São Paulo, a Lavapés é a mais antiga escola
de samba, fundada em 9 de fevereiro de 1937, posterior ao Grêmio Recreativo
Escola de Samba Rancho Não Posso me Amofiná, fundada em 1934 no bairro do
Jurunas em Belém.
Então, quem copia quem?
Tudo bem que o primeiro desfile oficial de
escolas de samba do Brasil teria ocorrido em 1932, na Praça Onze, no Rio de
Janeiro, organizada pelo jornal Mundo Sportivo, de Mário Filho, para movimentar
o período de recesso dos times de futebol da cidade sob o discurso de
estruturar o carnaval carioca. A partir daí, os antigos corsos e sociedades de
origem europeia, os antigos ranchos de reis, os cortejos religiosos vão tomando
forma sob comando das populares turmas de samba e seus poetas boêmios em
academias, agremiações, escolas que passam a ter tempo limitado para o desfile,
regras para instrumentos (sem sopro, por exemplo) e obrigatoriedade de baianas.
Sendo assim, o carnaval e o samba “onde a
desordem é permitida” conforme estudam o mito das três raças, Roberto Damatta
em “Carnavais, Malandros e Heróis” e Hermano Vianna em “Mistério do Samba”, não
têm data e nem lugar exato de origem. Também não tem dono, tem pertencimento: é
do povo preto e pobre do Brasil que fez do batuque, do canto e da alegoria a
representação de sua força e resistência. Em suas características, a construção e identidade
híbridas, compostos por aspectos culturais e políticos marcados por conflitos,
desigualdade e multiplicidade cultural.
A passarela por sua vez com jurados e
competições, modelo comercial e sobretudo político tomado pela festa no século
XX com a criação da tal identidade nacional é apenas um detalhe no formato de
uma expressão ancestral de como o povo traz sua força essencial. Como define o
historiador Luiz Antonio Simas:"As escolas de samba não existem para
desfilar, elas desfilam porque existem."
Então sim, a passarela do samba é popular.
Afinal, a elite e a classe média carioca, por exemplo, só começam a desfilar
nas escolas de samba na década de 60. No Maranhão a passarela ganha corpo entre
os anos 60 e 70, não para copiar o Rio de Janeiro, mas seguindo um curso de
nacionalização cultural. Seja na antiga Avenida Maranhense (Praça Pedro II),
Praça Deodoro, Camboa ou Anel Viário, na maior parte das vezes enfrentando
desafios financeiros e estruturais.
O fato é que nem todo maranhense precisa
desfrutar o desfile de passarela, ou até mesmo o carnaval maranhense, embora
seja impossível não recorrer a máxima popular de que “quem não gosta de samba,
bom sujeito não é”. Mas a premissa de cópia é preconceituosa, racista, elitista
e demonstra ignorância histórica.
Até porque quem acusa a cópia no carnaval maranhense
copia descaradamente os enlatados da industria cultural made in USA, China,
Coréia do Sul e Europa negando sua essência ancestral. Desfila sua calça
ARMANI, sua camisa LACOSTE, seu tênis NIKE, seu relógio BUGATTI da SHOPPEE no
shopping. Apoiam eventos externos a cultura local que abusam do dinheiro
público e vem falar em originalidade. Sua vida é uma farsa que desfruta a cópia
da cópia.
Num mundo cada vez mais relativo algumas leis
seguem imutáveis. Uma delas é que tudo se transforma. Os tamborins e os
repiques maranhenses podem até dobrar mais acelerado e sincopado, mas o samba
afropindorâmico que dialoga com os terreiros, com o tambor de crioula e o bumba
meu boi com marcação, retinta, tarol, surdo, crivador entre outros ainda é
tradição. Seja na capital, em Rosário (Escola de Samba Guia do Samba), Axixá
(Escola de Samba Nova Estrela do Samba), na Areia Branca em Cururupu, em
Cedral, Mirinzal, Penalva ou Viana. O saudoso mestre Joaosinho Trinta que o
diga, levou seus encantos e magias do Maranhão, além da expertise artística
para arrebatar carnavais no Salgueiro, Beija Flor e Viradouro. Temos crédito de
sobra para repatriar uma coisa aqui ou ali.
Caso você ainda não saiba, a Favela do Samba
(1950) não desce o morro, ela atravessa a avenida; Gabriel Melônio harmoniza
melodias madredivinas com a bateria Explosão da Turma do Quinto (1940); a Turma
da Mangueira (1928) conta seu pioneirismo desde o João Paulo/Caratatiua; a
Marambaia do Samba (1954) traz a força do Bairro de Fátima; a Império Serrano
(1959) levou o título de 2026 para o Monte Castelo e a Flor do Samba (1939)
ainda canta no Desterro: “Haja Deus quanta beleza!.”
Se você não é ruim da cabeça ou doente do pé,
reserve sua fantasia, descole uma vaga numa ala e siga para a Passarela do
Samba Chico Coimbra no próximo carnaval. Se permita experenciar o “Sinal Verde”
para a eterna originalidade de ser feliz, cantando enredos de sua terra e extravasando
com a turma que fala da sua gente. Renegar o carnaval maranhense, desdenhar o
desfile na passarela maranhense é no fundo recalque, negação da identidade
ancestral, é o discurso colonial e provinciano da cópia da cópia fingindo
civilidade.
Marcus Saldanha é escritor, historiador e jornalista


muita competência, o professor Marcos Saldanha é um excelente historiador, parabéns sucesso professor Saldanha 👏
ResponderExcluirQue maravilha o carnaval de passarela em São Luís! Uma festa emocionante e belíssima!!
ResponderExcluirParabéns Marcos pelo brilhante, formativo e informativo texto.
ResponderExcluirParabéns Professor escreveu toda verdade sobre o carnaval, o grande problema do maranhense é que adora prestigiar coisas dos outros e despretigiar o que vos pertence ou seja não dá valor nas coisas do seu Estado
ResponderExcluir