CRÔNICA N°1 DUM SÁBADO DE SOL

Contentamento, Bar do Léo e o céu sob o hino do Maranhão

 

Escolher não escolher é submeter-se à escolha: o inegavelmente de Sartre, os bolos e os fatídicos sins e nãos em que se inventou a angústia.

É que a liberdade não estará só em se dizer “eu te amo” enquanto o tempo segue ou em se usar um guarda-chuva num dia lindo de sol.

A liberdade está na indefinição de nem isso, de nem aquilo.

A parada profunda como poça d'água, vazia feito saco de ar ao vento.

O livre é poder amar sem ledo, proteger-se da chuva num céu claro, certeza obscena tão íntima, como os sacos do ar… em se procurar para olhar-se e achar-se.

Eu gostaria, também, de escrever sobre Anatomia, embora os sentimentos sejam ausentes de planos, inserções, esses referenciais rarefeitos que sejam, sim, permeados em indiferenças no tabuleiro do “só por hoje”.

Hoje, apenas;

e amanhã, não sei mais saber o que dizer.

Escolher. Terrivelmente livre, tal quando eu abro a garrafa de vinho numa sexta à noite olhando para o céu difuso, True Faith em som baixo, a luz mediterrânea, confidências e segredos e, não ironicamente, o Vasco na tv, arrebatamento suspenso de “ser & estar” e uma coisa insincera (indefinida) em que eu entendo por saudade.

Saudade do quê? Contentamento de voltar a si mesmo.

Poderia também dizer dos prazeres de vasta ordem, ordenamento estranho, essas cadeias do eixo tálamo-hipotálamo, meus pensamentos hormônio antidiurético às duas da manhã em noite boêmia com muita razão de ser, Bar do Léo, o hino do Maranhão ao fundo.

“Entre o rumor das selvas seculares

Ouviste um dia no espaço azul, vibrando

O troar das bombardas nos combates

Após, um hino festival, soando.”

Definitivamente: o tempo em resolvendo constante, a Original estupidamente gelada, Odair José cantando, a cura de assombros e de incertezas, em se preenchendo as nuances e em se acontecendo os acontecimentos. Toca o hino do Maranhão, por favor.

Livre? Hino festival, troando.

 

Sobre o espaço azul? Ideias para a Crônica N°2, e sem pressa…

E antes e perto do fim, a se dizer:

                                                          ser livre é ter equilíbrio.

 Um dia, inventarei o glossário das expressões preferidas; que conheço uma pessoa que tem um bloco de notas com as palavras mais curiosas, desde “indubitável” à “encaminhamento.”

A razão disso? É-se livre para se achar tudo o que traga paz no coração.

E, bem longe das imitações, escreverei sobre como eu gosto de “reto toda a vida” e “é como andar de bicicleta”.

Afinal, a liberdade cabe em se saber que se sabe sem precisar relembrar-se o que se sabe, isso porque a vida não é fria, que os segredos não são tão ocultos assim e que a pizza de frango é a mais gostosa de todas…

Ou melhor, que o final sempre existe: a hora de se dar tchau, o bater das portas do carro, o beijo na madrugada em que os gatos pulam os telhados tremulam, se os bêbados se recolhem e os amantes se tocam.

E te digo em voz baixa: é verdade.

Não se deve pensar tanto para se escolher decidir; abrir os braços no pôr do sol, soltar os guidons enquanto se pedala a algum lugar. Enquanto se aceita que não se pode ser bom em tudo.

Livre.

Debaixo de um guarda-chuva num dia de sol, na garupa de uma bicicleta, ideias para se aprender a andar de bicicleta, número de telefone das melhores pizzas de frango de São Luís, a cerveja mais gelada que tiver, a conversa mais inesperada no banheiro do bar, o cuidar, o cuidar, que temos pressa de ser e o tempo segue, segue, segue

calma

                                   e, sendo calma, livres.

 

Enzo Peixoto é escritor, poeta e estudante de medicina

Comentários

  1. Não há como negar que és um jovem trovador. Cante ao mundo os seus versos jovem, pois sao lindo de ler. Parabéns.

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