OSCAR 2026
Filmes adversos com finais infalíveis
Peculiaridades sobre as películas
O Agente Secreto - Poucos cineastas brasileiros entendem tão bem quanto
Kleber Mendonça Filho que recordar também é um gesto político. Em O Agente Secreto, ele usa a
atmosfera da espionagem não para organizar um jogo de pistas convencional, mas
para falar de um país treinado a apagar pessoas, histórias e vestígios.
Marcelo, vivido por Wagner Moura com tristeza contida e humanidade palpável, é
menos o centro de um mistério do que a expressão de uma ferida coletiva.
O Recife
recriado por Kleber não aparece apenas como cenário: surge como ruína, arquivo
e fantasma, um espaço em que a memória resiste ao mesmo tempo em que é
ameaçada. O roteiro mistura mito, documento e sensação com inteligência,
encontrando humor e afeto sem amenizar o peso histórico que carrega. Quando o
cinema São Luiz entra em cena, ele se torna mais do que locação: vira abrigo
simbólico para tudo aquilo que a imagem ainda consegue preservar. O impacto do
filme está justamente aí, nessa percepção melancólica de que o apagamento não
pertence só ao passado, mas continua operando entre nós.
Uma
Batalha Após a Outra - Paul
Thomas Anderson sempre filmou estruturas de poder, mas raramente de maneira tão
frontal e febril quanto em Uma
Batalha Após a Outra. Aqui, a América contemporânea não é apenas
pano de fundo: é um território em combustão permanente, atravessado por
paranoia, repressão e conflito. Inspirado livremente em Pynchon, o filme
encontra em Perfidia uma figura revolucionária tão sedutora quanto destrutiva,
enquanto Pat, vivido por Leonardo DiCaprio com uma comicidade melancólica,
oferece ao caos um centro humano inesperado.
A combinação
de perseguição, faroeste, sátira e suspense político poderia soar excessiva,
mas Anderson a conduz com uma fluidez impressionante. Seu olhar não santifica
os resistentes nem simplifica os vilões; prefere manter vivas as ambiguidades,
o que torna o filme mais inquieto e mais honesto. No meio dessa desordem, a
relação entre pai e filha dá densidade emocional ao que poderia ser apenas
fúria estilizada. E é justamente dessa herança de violência, encarnada em
Willa, que o filme extrai sua visão mais perturbadora: a de que o conflito já
não é exceção histórica, mas condição de origem.
Bugonia
- O delírio, em Bugonia, não aparece como
desvio, mas como consequência natural de um mundo adoecido. Yorgos Lanthimos
pega uma premissa de aparência farsesca, o sequestro de uma CEO bilionária por
dois homens convencidos de que ela é alienígena, e transforma isso em uma
sátira envenenada sobre desinformação, colapso ecológico, opióides e
desigualdade. Jesse Plemons compõe Teddy como uma figura ao mesmo tempo
patética e trágica, alguém que parece ter sido empurrado à loucura por
abandono, ressentimento e manipulação.
Emma Stone,
por sua vez, mantém Michelle num terreno de frieza e ambiguidade que nunca
oferece ao espectador o conforto da certeza. Lanthimos sustenta tudo numa corda
bamba entre o grotesco, o suspense paranoico e a crítica social, fazendo com
que a farsa ganhe espessura à medida que revela a engrenagem de exploração por
trás do delírio individual. O filme é cruel, pessimista e frequentemente
hilário, mas sua potência não vem apenas do sarcasmo: vem do reconhecimento de
que o absurdo contemporâneo talvez seja menos uma invenção delirante do que um
reflexo fiel da realidade que o produz.
F1: O
Filme - A melhor
maneira de pensar F1: O Filme
talvez seja aceitá-lo como espetáculo antes de cobrá-lo como drama. Joseph
Kosinski compreende perfeitamente que sua força não está na originalidade da
trama, mas na capacidade de transformar velocidade em experiência física. Há,
sim, a jornada previsível do herói veterano vivido por Brad Pitt, e há também
um verniz de reality show que aproxima a Fórmula 1 do imaginário contemporâneo.
Mas é quando tudo isso se converte em cinema de ação sensorial que o filme
realmente encontra sua razão de existir.
Som, montagem
e imagem operam com uma precisão rara, fazendo cada corrida parecer menos uma
sequência narrativa e mais um mergulho tátil na velocidade. Pitt sustenta com
carisma o arquétipo clássico do veterano indomável, enquanto o restante da
dramaturgia assume sem constrangimento seu papel funcional. Kosinski filma esse
universo como quem atualiza a fantasia heroica do blockbuster americano para
uma era governada por marcas, séries e performance. Não há aqui grande
reinvenção do gênero esportivo, mas há uma execução técnica tão vigorosa que o
filme consegue resgatar algo que o cinema comercial quase perdeu: o prazer
direto, coletivo e físico da grandiosidade.
Frankenstein
- Guillermo del
Toro enfim realiza seu projeto dos sonhos, mas o resultado de Frankenstein revela um
paradoxo curioso: às vezes amar demais um mito também pode domesticá-lo. O
filme carrega tudo o que se espera do diretor, o fascínio pelo gótico, a beleza
artesanal, a melancolia dos monstros, e visualmente é difícil negar seu poder
de encantamento. Ainda assim, essa devoção parece mais forte na superfície do
que na pulsação dramática da narrativa.
Oscar Isaac
entrega um Victor excessivo, por vezes afetado, mas funcional em sua exaltação.
É Jacob Elordi, porém, quem confere à obra sua verdadeira densidade emocional
ao fazer da Criatura um ser de solidão, dor e desejo de sentido. Del Toro
acerta ao deslocar o centro afetivo do filme para o monstro, mas essa
sensibilidade convive com um conjunto irregular, em que o elenco de apoio pouco
acrescenta e certos exageros enfraquecem a tragédia. Soma-se a isso um uso de
computação gráfica que, em momentos específicos, rompe o encanto artesanal que
deveria sustentar o universo do filme. Sobra uma obra sincera, bela e
admiravelmente apaixonada, ainda que surpreendentemente morna para um criador e
um mito que sempre pareceram feitos um para o outro.
Hamnet
- A Vida Antes de Hamlet - Não é
Shakespeare quem domina Hamnet,
e sim a ausência. Chloé Zhao adapta a possível origem de Hamlet como um drama de luto
e memória em que a criação artística não surge como explicação para a dor, mas
como sua reverberação mais íntima. O centro da narrativa é Agnes, e Jessie
Buckley lhe dá uma presença tão intensa que o filme parece pulsar a partir de
cada gesto seu. Sua conexão com a natureza, filmada por Zhao com delicadeza
quase espiritual, faz do mundo ao redor uma extensão sensível de sua
experiência.
Paul Mescal
compõe um William contido, quase mítico, mais sombra do que protagonista, e
isso é uma decisão feliz: o filme não se interessa por fabricar uma tese sobre
o “gênio” de Shakespeare. Prefere investigar como a perda atravessa uma família
e permanece na linguagem, na lembrança, na arte. Sem recorrer a paralelos
fáceis com a peça, a narrativa encontra ecos profundos entre a tragédia íntima
e a permanência simbólica daquilo que sobrevive a ela. O que comove em Hamnet não é a ideia de
origem de uma obra-prima, mas a maneira como Zhao mostra que certas criações
talvez nasçam justamente daquilo que jamais pôde ser elaborado por inteiro.
Pecadores - Ryan Coogler volta ao cinema autoral como quem retorna a uma ferida ainda aberta. Pecadores é um filme vibrante, sensual e profundamente enraizado na experiência histórica da América negra, mas não se contenta em ser apenas drama de época ou horror alegórico. Seu ponto de partida está no blues, em sua força espiritual, em sua marginalização, em seu poder de comunhão, e, a partir daí, o diretor constrói uma narrativa sobre pecado, sobrevivência e herança. Michael B. Jordan impressiona ao dar distinção e vulnerabilidade aos irmãos gêmeos, personagens cuja busca por liberdade já nasce contaminada pela violência estrutural ao redor.
A casa de show
que idealizam funciona como espaço de prazer, resistência e identidade, quase
um santuário erguido contra o racismo do mundo exterior. Quando o elemento
vampiresco finalmente toma conta da trama, o filme parece por instantes se
dividir entre duas propostas, e nem sempre o horror alcança a mesma potência do
drama histórico inicial. Ainda assim, Coogler reencontra a unidade ao fazer da
música o fio que costura tudo: passado e presente, dor e desejo, condenação e
libertação. Mais do que falar de monstros, Pecadores
entende que a arte de um povo pode ser a forma mais poderosa de não
desaparecer.
Marty
Supreme - Em Marty Supreme, correr é mais
do que agir: é existir. Josh Safdie faz do frenesi a linguagem natural de seu
protagonista e transforma a ascensão errática de Marty Mauser em espetáculo
nervoso sobre ambição, identidade e sobrevivência. O tênis de mesa, nas mãos do
diretor, deixa de ser curiosidade esportiva para virar centro de uma energia que
o filme acumula o tempo inteiro. Timothée Chalamet sustenta Marty como um
anti-herói oportunista, sedutor e infantil, alguém que parece estar sempre
fugindo antes mesmo de saber exatamente do quê.
A comicidade
física e o caos calculado da encenação tornam o filme eletrizante, mas sob essa
superfície pulsa algo mais denso: uma reflexão sobre diáspora, excepcionalismo
e o peso histórico inscrito no corpo judaico. Safdie não idealiza Marty nem
tenta redimi-lo em chave edificante; pelo contrário, o interesse do filme está
justamente em suas vulgaridades, contradições e impulsos menos nobres. Quando a
violência rompe o tom farsesco, tudo ganha uma tristeza mais funda, como se o
espetáculo fosse obrigado a lembrar de repente aquilo que tentava
momentaneamente esquecer. O triunfo, aqui, não aparece como chegada gloriosa,
mas como insistência, um movimento contínuo de quem entende que nenhuma vitória
basta para encerrar a corrida.
Valor
Sentimental - Há
casas que guardam lembranças. Em Valor
Sentimental, a casa parece guardar feridas. Joachim Trier parte
dessa ideia para construir um filme em que intimidade, arte e memória se
confundem o tempo todo, sem jamais perder a precisão emocional. Nora,
interpretada por Renate Reinsve com fragilidade nervosa e uma dor que parece
sempre à beira de romper, não surge apenas como atriz em crise, mas como alguém
que já não consegue separar o que vive do que representa.
Ao redor dela,
o pai cineasta e a irmã formam uma constelação de afetos falhos,
arrependimentos antigos e tentativas imperfeitas de aproximação. Trier borra as
fronteiras entre vida, encenação e lembrança com uma naturalidade admirável,
como se a arte fosse simultaneamente fuga, espelho e possibilidade de cura. O
filme evita qualquer generalização confortável sobre o poder redentor do cinema
porque sua força está justamente no detalhe, na especificidade dessa família e
na lógica emocional que organiza seus silêncios e confrontos. Quando chega ao
fim, Valor Sentimental
não oferece reparação plena nem fechamento pacificador. O que oferece é algo
mais raro: a sensação de que certas rachaduras continuam ali, mas podem enfim
ser vistas, compreendidas e transformadas em forma.
Sonhos de Trem - Assistir a Sonhos de Trem é como folhear uma vida em silêncio. Clint Bentley filma a existência de Robert Grainier com uma delicadeza tão atenta à passagem do tempo que cada corte parece carregar o peso de uma página virada. Ao acompanhar décadas da vida desse homem comum, o filme recusa o impulso do grande épico americano para encontrar grandeza justamente no acúmulo discreto dos dias, das estações, das perdas e dos deslocamentos.
Joel Edgerton
dá a Grainier uma humanidade áspera e terna, fazendo dele não um herói
exemplar, mas um corpo atravessado pelo mundo e pelas suas transformações. O
filme observa a modernidade avançar entre trilhos, florestas, amores e lutos,
sempre consciente de que algo se constrói à medida que outra coisa desaparece.
Bentley filma os personagens como parte de um ecossistema, e não como figuras
isoladas diante da paisagem. É essa percepção que impede o sentimentalismo
fácil e dá à obra sua gravidade serena. Mais do que narrar uma trajetória, Sonhos de Trem convida à
contemplação de tudo aquilo que passa por nós e nos modifica, até que já não
seja mais possível distinguir onde termina a vida observada e onde começa a
nossa própria experiência diante dela.
A ordem dos filmes que merecem ganhar a estatueta
Julgar, por
mais cartesiano que pareça, é sofrer. Mas entre os filmes que parecem reunir as
condições mais consistentes para chegar à estatueta, Hamnet, Valor
Sentimental e O Agente Secreto formam hoje o núcleo mais sólido. O
filme de Chloé Zhao se destaca pela delicadeza com que transforma luto, memória
e criação artística em experiência sensível, sustentado por um roteiro de
grande contenção, fotografia lírica e atuações de altíssimo nível,
especialmente a de Jessie Buckley. Valor Sentimental vem logo ao lado por sua
sofisticação emocional e formal: Joachim Trier trabalha as relações familiares,
a arte e as rachaduras íntimas com uma precisão rara, apoiado por uma mise-en-scène
contida, uma escrita madura e um trio de intérpretes que dá profundidade a cada
silêncio. Já O Agente Secreto mantém enorme força por unir atmosfera,
comentário histórico e rigor cinematográfico, fazendo da espionagem uma via
para pensar o apagamento no Brasil com densidade política, invenção formal e
uma melancolia que permanece muito depois do fim.
Na sequência, Sonhos
de Trem, Uma Batalha Após a Outra e Marty Supreme aparecem como
concorrentes de peso, embora por caminhos muito diferentes. Sonhos de Trem
encontra grandeza na vida comum e converte a passagem do tempo em matéria
cinematográfica de enorme delicadeza, com fotografia tátil, narração literária
e uma interpretação profundamente humana de Joel Edgerton. Uma Batalha Após a
Outra é talvez o mais convulsivo e expansivo do grupo, um filme em que Paul
Thomas Anderson mistura sátira, suspense político, faroeste e drama íntimo para
filmar um presente em combustão, sempre com ritmo, inventividade e um centro
emocional forte. Já Marty Supreme aposta no caos, na montagem nervosa e na comicidade
física para construir um retrato de ambição, identidade e sobrevivência,
encontrando em Timothée Chalamet um protagonista capaz de sustentar a energia
errática e contraditória do filme com enorme presença.
Mais abaixo, Bugonia,
Pecadores, F1: O Filme e Frankenstein surgem como obras de
personalidade marcante, ainda que menos equilibradas no conjunto. Bugonia
transforma o absurdo contemporâneo em sátira ácida sobre conspiração,
desigualdade e colapso social, com a frieza calculada de Lanthimos funcionando
como instrumento crítico muito eficaz. Pecadores impressiona pela vibração
sensorial, pelo uso do blues como força dramática e pela fusão entre horror,
drama histórico e herança cultural, mesmo quando sua estrutura oscila entre
registros. F1: O Filme se impõe sobretudo como espetáculo técnico, com
fotografia, montagem e desenho de som extraordinários, ainda que sua
dramaturgia permaneça mais previsível e funcional. Já Frankenstein encanta pela
direção de arte, pelo imaginário gótico e pela humanidade da Criatura, mas não
alcança sempre a mesma intensidade dramática prometida por sua ambição visual.
Mas como o
Oscar às vezes nos prega algumas peças, não estranhe se o distópico Bugonia
agradar ao ponto de ganhar ou mesmo o discreto Frankenstein. Mas se não fugir à
ordem, Hamnet parece hoje o nome mais forte para a vitória, com Valor
Sentimental e O Agente Secreto como seus perseguidores mais próximos.
Bioque Mesito é poeta, autor de sete livros de poemas publicados.











PARABÉNS BIOQUE. BELÍSSIMA MATÉRIA.
ResponderExcluirObrigado, meu caro!!!
ResponderExcluirExcelente análise dos filmes.
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