A IMPORTÂNCIA DOS ARQUIVOS

Destruir acervos históricos é negar o passado e um futuro para o povo maranhense

 

O que fazer com a pilha de documentos, processos, recibos, cartas, fotos antigas? Para a maioria das pessoas, a resposta é simples: jogar fora e abrir espaço ocupado por tralhas. Para desespero de pesquisadores, no Maranhão, muito tesouro histórico pode está indo parar no lixo.

Seja arquivo pessoal ou institucional, o acervo de fontes históricas na sua casa ou no seu trabalho pode ser fundamental para fechar uma lacuna da pesquisa histórica. Impossível não lembrar dos Autos do Crime da Baronesa que por pouco não foram parar no lixo. Salvos por José Sarney, na época estagiário do Tribunal de Justiça, voltaram a tona em Os Tambores de São Luís (1975), no livro do juiz e escritor José Eulálio Figueiredo de Almeida O Crime da Baronesa  (2018), em pesquisas acadêmicas e no finalista do Prêmio Jabuti de 2025, Geminiana e seus filhos dos historiadores Maria Helena P. T. Machado e Antônio Alexandre Isidio Cardoso.

Como nem todo herói usa capa, recentemente, seu Jairo achou em casa um calhamaço de documentos que tratavam de sua cidade natal. Eram Livros da Câmara que descreviam sessões e audiências públicas do século passado em Monção. Valiosos documentos históricos que foram doados, restaurados, digitalizados e agora estão disponíveis para consultas, no Arquivo Judiciário Desembargador Milson de Souza Coutinho. Vinculado ao Tribunal de Justiça do Maranhão (TJMA), é uma das unidades arquivísticas mais antigas do judiciário brasileiro com um vasto acervo histórico com documentos que datam de 1719 até 1970, incluindo inventários (como o de Ana Jansen), testamentos e processos do período escravocrata.

Outro acervo importante para o resgate histórico é o da Biblioteca Pública Benedito Leite com a maior e mais completa coleção de jornais maranhenses do estado (cerca de 558 títulos) que abrangem desde o período da Independência até os dias atuais, o que inclui O Conciliador do Maranhão (o primeiro jornal do estado, de 1821). Além dele, estão disponíveis jornais de diversas cidades do interior, como O Telegrapho (Caxias), O Norte (Barra do Corda), O Martello (Codó) e A Semana (Cururupu). A biblioteca também guarda edições do Diário Oficial do Estado desde a sua primeira edição em 1906. Muitas das imagens que circulam nas redes sociais são garimpadas por pesquisadores neste acervo, no setor de revistas e obras raras digitais disponibilizadas para pesquisa e download.

Infelizmente, o Arquivo Público do Estado do Maranhão (APEM) está fechado há mais de um ano e cerca de 1,5 km de documentos textuais, incluindo manuscritos, mapas, plantas e discos dos períodos Colonial, Imperial e Republicano do Maranhão, Piauí e Pará estão indisponíveis para consulta e sob risco de perda total, já que o prédio colonial está interditado pelo Corpo de Bombeiros sob risco de incêndio e desabamento.

Atas de fundação de municípios, elevação de vilas, certidões de nascimento e óbito (incluindo o do traidor da inconfidência Joaquim Silvério dos Reis), documentos de chegada de navios com variadas cargas, inclusive escravizados, ofícios referentes ao período de contato (Indígenas/Cristãos), guerras e extermínio de povos indígenas e Atos do Executivo e Legislativo que permitem descrever várias passagens da Balaiada correm o risco de virar pó.

Sem eles, a História que já sofre com ataques de grupos radicais fundamentalistas que negam e fraudam deliberadamente o conhecimento histórico científico, corre o risco de ser definitivamente apagada.

Contra isso, não só educação patrimonial e organização da sociedade civil pressionando o Poder Público e denunciando omissões, mas também ações formativas permanentes. Temos bons cursos de graduação em Biblioteconomia e História, mas não temos Arquivologia e nem concurso público na área há décadas.

Além disso, os arquivos públicos gozam de pouca ou nenhuma autonomia orçamentária e política. Mudam governos e gestores e os acervos que precisam de novos investimentos para conservação segura sobrevivem de editais, doações e restrições de recursos humanos e materiais.

Uma cidade Patrimônio da Humanidade, precisa conhecer plenamente sua história para valorizar e preservar. Para além de casarões, ruas, becos, ritmos carnavalescos e juninos, lendas e lençóis de areia - cenários perfeitos para viralizar nas redes sociais - o povo tem direito a saber de onde veio e para onde vai. Nos arquivos estão as respostas para perguntas que ainda nem fizemos. Jogar documentos históricos no lixo e correr o risco de que sejam consumidos pelo fogo ou pela água é negar não só o passado dos maranhenses, mas o futuro para um povo que nunca se reconheceu.

 

Marcus Saldanha é escritor, historiador e jornalista

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