CLICA QUE LÁ VEM A HISTÓRIA
História ganha espaço nas redes sociais dos maranhenses, mas há perigos!
Curiosidade, saudosismo, nostalgia ou necessidade de
entender o mundo em que vivemos. Seja como for é cada vez maior o interesse das
pessoas por História nas redes sociais. Basta rolar um pouco o feed em perfis
variados das redes sociais para logo aparecer alguém contando a História de
algo ou de alguém.
Páginas com publicações de fotos antigas, documentos
raros, recortes de jornais, páginas de revistas e vídeos do Maranhão garimpados
nos arquivos públicos ou acervos privados fazem sucesso entre internautas
maranhenses.
No espaço digital estão disponíveis também boas
práticas de educadores que ousam extrapolar o chão da escola desbravando
ruínas, sítios históricos e manifestações culturais tradicionais maranhenses,
desconhecidas da grande mídia e do público em geral. Assim como também
“pipocam” nas redes, experiências midiáticas dedicadas a memória e história de
cidades e bairros maranhenses.
É fato que nem todas as páginas são administradas por
historiadores com formação acadêmica ou por profissionais com experiências
pedagógicas. E está tudo bem! Os problemas só surgem quando perfis sedentos por
seguidores e likes postam sem compromisso com o conhecimento histórico, com o
patrimônio cultural, material e imaterial.
São geralmente conteúdos compartilhados sem a devida pesquisa, sem
citação de fontes históricas, sem créditos de autoria e muitas vezes com
imagens históricas alteradas por meio da inteligência artificial.
A confusão está
formada: Afinal, qual a origem daquelas imagens ou documentos? Que lugar
retratam? Em qual época? De quem é a autoria? Quem localizou o documento
histórico e disponibilizou? A qual acervo pertence?
Infelizmente, é cada vez maior o número de postagens
com informações geradas ao bel prazer do influencer e repassadas à exaustão
virando um verdadeiro telefone sem fio digital. Pode até ser que a motivação e
intenção inicial não sejam das piores, mas a prática sem o devido esmero
historiográfico, cria uma avalanche de desinformação.
Eis o dilema em que vivemos e o perigo contra o qual
lutamos no recém criado Coletivo Memórias Maranhenses nas Redes. Se antes
padecíamos da carência de registros da nossa memória imagética, restando-nos os
valiosos álbuns de Gaudêncio Cunha (Photographia União-1908), Miércio Jorge
(Album do Maranhão-1950), Pierre Verger ou acervos institucionais (Biblioteca
Benedito Leite, Hemeroteca Nacional, Brasiliana Fotográfica, IBGE Municípios,
APEM, DOPS-MA, CPT-MA, SET) entre outros que nos garantiram um importante
legado visual de outras épocas, hoje com a digitalização acessível vemos uma
circulação intensa de fotos raras e inéditas que mostram pessoas e lugares,
sobretudo do final do século 19 e século 20.
Há de fato um entusiasmo decorrente da descoberta de
como eram as praças, casarões, colégios, lojas, ruas, meios de transportes e
roupas das pessoas “daquele tempo”, mas há também sempre o risco na pressa pela
postagem ou na briga pela exclusividade da informação de cometermos cada vez
mais equívocos e anacronismos a partir de registros falsos ou adulterados
digitalmente.
Afinal de contas, o Sítio Veneza, a Fábrica São Luís,
o Sítio Pyranhenga e o Chalet da Fabril pertenceram a Ana Jansen? Ana Jansen
está enterrada em Coroatá? O bondinho que circulava no centro histórico de São
Luís ostentava a placa “Praça Castro Alves”?
Não são meros deslizes históricos, mas erros
grosseiros que colocam abaixo o trabalho minucioso de pesquisadores que vem se
debruçando em investigações e análises científicas a partir de documentos
históricos e que são engolidos sob o “selo de verdade absoluta” em muitos
perfis de Instagram, Facebook e TikTok Maranhão adentro.
Se historiadores precisam cada vez mais dialogar com
as massas digitais sedentas por curiosidades históricas numa abordagem cada vez
mais próxima da História Pública, o leitor precisa ser capaz de filtrar entre
os influencers, conteúdos relevantes de valor histórico mais apurado para
consumir. A História não é como eu quero que ela seja. E também não é opinião.
Definitivamente não é fácil produzir e postar
conteúdos formativos em tempos de alardes, fakes news, entretenimentos baratos
e notícias bombásticas brigando pela audiência na barra de rolagem. Mas
indícios simples podem ajudar a separar o joio do trigo nessa seara virtual. A
dica de ouro para o leitor que navega pelos mares da História na internet é:
Valorize o produtor de conteúdo. Quem posta, produziu aquele conteúdo? Aquela
foto de jornal ou revista dos anos 30, aquele arquivo dos anos 60, aquela imagem
do sítio histórico ou da ruína que você adorou, aquele texto da legenda, aquela
edição, a escolha da música, a animação… Tudo isso passou por um longo caminho
para chegar ao feed?
Não é justo que a postagem seja simplesmente copiada,
sugada ou melhor, surrupiada do perfil de alguém e postada para gerar engajamento
no perfil de outra pessoa, seja quem for, uma emissora de tv, um político, um
médico, um padre, um pastor ou ainda que seja o “inofensivo tio da internet”.
A produção de conteúdo com credibilidade deve ser
fruto de um cuidadoso trabalho com pesquisas em livros, visitas em arquivos e
sítios históricos, troca de informações com pesquisadores especialistas no tema
até que se tenha a devida segurança quanto a postagem que vai ganhar o mundo.
Mesmo assim, nem sempre o conteúdo postado estará
isento de correções e críticas. Muita coisa é passível de polêmica. Cabem
apartes e divergências. Mas num trabalho responsável com vários olhares e troca
de conhecimento todo mundo ganha. O like é sempre bem-vindo, a monetização é
possível, mas não a qualquer custo. Pelo menos é assim que o recém criado
Coletivo vem trabalhando. O contrário disso é má fé, é canalhice pura!
Marcus Saldanha é escritor, historiador e jornalista


Comentários
Postar um comentário