CRÔNICA N°2 DUM DOMINGO DE RAMOS À ALELUIA
Isto é: uma semana
depois, passado o feriado e se seguindo toda a vida
Os dias, como sucessões, são semânticas variadas:
a vida acontece no
enquanto se segue o que
se escolhe denominar por
especial
na brevidade do tempo.
Segunda feira. Acorda eu cedo, comumente às outras segundas que não se fizeram primeiras. Levanto da cama, arrumo a cama, ponho o café, tomo o café, suspendo a bolsa no encosto da porta e sigo para UEMA. Aula. Restaurante Universitário. Aula. Café uma outra vez (na padaria, casal de amigos). Academia. Ainda uma vez, aula. O especial deste dia foram as ideias para se encenar em francês: que se correrá à Major de Paris et c’est un brésilien et mon nom Peixoto.
A subjetividade, em seus significantes próprios, cria o "especialmente".
Durante a semana,
antecedente à Páscoa, refleti sobre o fatídico há 2000 anos.
que o sol nasceu, que a lua se fez e que o vento soprou.
Compreendo, desde criança, a vida como sendo um marco generoso de fé; penso ainda o "profundamente religioso" é não se ter religião; que existir é devotamento sincero de amor a uma ideia afetuosa do Divino, cuja reciprocidade natural é linguagem em senso de paz, inevitavelmente.
Entendo também, mediante educação espirituosa, que foi o homem Jesus a apoteose de tal raciocínio, tão profundamente delicado, tão modestamente poderoso…
Terça feira. Acorda-se outra vez, faz-se a manutenção da vida. Seguem-se os afazeres, estudo e aula; academia e correr na esteira.
Um pensamento vivo de que o encanto deste dia foi ver o sol no transpasse das paredes do prédio, como se me anunciasse a Boa Nova do domingo de Ramos de há dois dias e do de Renascimento do por vir.
Neste Dia Passado em que Deus descansou, foi que meu pai chegou perto de mim dizendo, momento do café pós-missa, que não se lembrava de termos ido a alguma celebração de Ramos.
Lembro-me de eu criança nas ruas do Monte Castelo, os raminhos de palmeira molhados de água benta em procissão, a catequese. Minha mãe completa que a homilia havia sido linda, os citares de Adélia Prado, inferências do Padre Cláudio. Concordo com meu pai. Pergunto sobre o poema e as suas palavras: manhã de paz e de ideias para a crônica número dois, essa que tu lês.
Jerusalém: anuncia-se e renova-se a Esperança.
É que viver é
reconhecimento corajoso de se permanecer.
É que permanecer é
reconhecimento
do porquê se viver
Afinal,
“Busquem, pois, em
primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça,
e todas essas coisas
serão acrescentadas a vocês”.
Mateus 6:33
A densidade da ponderação é silêncio não religioso, sem gravidade dogmática. Melhor: no que eu entendo.
Definitivamente, é complexo se falar em humildade comentada em cada ato em um século acelerado, de hiperexposição e de falsa modéstia, ansioso e utilitarista.
Na brevidade do parágrafo, trata-se de um entregar-se, um permanecer lucidamente caminhante.
Quarta feira. São mais uma vez os raios de luz que atravessam as frinchas do prédio, em que o ergue-se é desbravar alguma coisa de paciência. Paciência? Um manejo quase solene com os desafios do dia. As discussões, os receios, as tomadas de decisão, a convivência com o outro. Com os outros. Com nós mesmos.
A beleza de quarta, antes do Renascimento, esteve no céu azul igual em todo mundo, mais de nuvens mais claras pela Cidade Operária.
Quinta feira.
Estou lendo “O Evangelho
Segundo Jesus Cristo”, do Saramago.
Em que ponto da história
o mundo de fato mudou?
Em que dia, para tantos comuns, para outros de dor, o antes e o depois?
Sexta feira. Nem o que foi o amanhã de sábado exatamente, nem o que foi o ontem de quinta certamente, dia em que se deu o início do Tríduo Pascal.
Sim, essa crônica confusa é escrita num interregno de momento: quase uma semana depois da Páscoa, quase uma semana depois da semana que antecede o Domingo de Glória.
Os significantes podem
muito significar, como podem também nada dizer.
As meditações sobre morte e vida se perdem diante da convicção própria.
Será morte? Será vida? Será corpo físico? Será Espírito?
E o amanhã aconteceu:
feliz Sábado de Aleluia.
Acordo cedo outra vez,
saio para correr e ver o sol na praia; alegre.
Há dois mil anos, algumas pessoas definitivamente não estavam alegres. Hoje, esses alguns creem na vida.
Reto toda vida.
Artefato Nipônico
A borboleta pousada
ou é Deus
ou é nada
Adélia Prado
Domingo.
Aleluia.
Enzo Peixoto é escritor, poeta e estudante de medicina


Excelente!
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