CRÔNICA N°3 ACERCA DA GRAVIDADE E DOS CORPOS
Sendo força massa vezes
aceleração fenômeno de afetação
É que
tudo o que existe e cabe num “tudo” está fadado ao “nada”:
a letra
que cede ao ponto final, o corpo que cai.
Estava
sábado passado conversando com um amigo sobre o quão curiosa é a relação entre
cair e
se levantar.
A
resistência do meio desconsiderada.
Se
força igual a massa x aceleração,
Fr: m.a
que existe o peso, existe a queda.
E, em se havendo a queda,
há força.
E, diante da queda, tudo o que impele
ao chão se chamou de
gravidade.
E qual a razão de se pisa os pés no chão?
Se flutua.
O vácuo significa ausência; e desde que se entendeu o
sentido de ser, inexiste falta possível diante de si mesmo senão a que ainda
não se inventou. Nada. Escolher como se pisar os pés no traçado. Como se
contornar desafios. Aprender a origem do mundo modestamente íntimo,
se reconhecer impotente aprendiz da
vida.
Em se havendo queda, só não se reergue quem está
morto,
e viver pode significar
reerguer-se.
Para que seja dito: o fenômeno gravitacional é uma
relação entre as massas, não o que determina algo cair ou não, uma vez estarmos
sempre afetados por algo denominado
“gravidade”.
Para que faça sentido:
é da
física que força a tudo e a todos o cair.
Afinal, por que os dentes caem?
A mineralização, a erupção e a queda.
Aqui teria escrito por outras razões o apodrecimento
por bactérias, os traumas, o desenvolvimento infantil. A inexistência da
inércia, os marcos de crescimento.
E que se entenda que prefiro escrever como sendo as
estrelas cadentes da boca.
A relação forçada com o peso, a gravidade.
As intromissões.
A ideia de corpo é, também, uma fantasia.
Para se fantasiar, necessita-se de um corpo.
E o que é o corpo?
Recentemente, li em um artigo sobre esse significante
social e biológico, “Corpo, cultura e significado” (Dourado, et al.),
publicado no Jornal da USP.
Não. As minhas conversas não são uma chatice
epistemológica; isso é eu e minhas questões mentais em diálogo o tempo inteiro
e forçosas de magia.
No que tange minha conversa com meu amigo, o Miguel,
isso se deu em dois minutos e só.
Estávamos falando brevidades logo em seguida.
Que o Vasco é um “corpo social” inexplicável.
Que o Xandão não é de esquerda.
Que o São João logo chegará.
O corpo, então, é isso: suporte para o acontecimento.
A depender da cultura, esse se posiciona objeto
hierárquico ou não, nutre-se de simbologia negativa, positiva ou neutra.
Reduz-se à força de trabalho ou de exclusão. Libertação ou violência. Insere-se
na diplomacia da vida ou da morte. Do terror ou da esperança.
O corpo, em sua fantasia, é o cárcere.
A alma, o seu fim último.
São (in)dependentes.
Ou pode ser simplesmente massa.
Agregado celular, tecidual, organogênico, sistêmico.
O corpo pode ser anatômico: cabeça, tronco e membros.
O corpo pode ser riscos num papel de criança a
decifrar o mundo, flutuantes no espaço.
O imaginário pesa, e a relação entre os corpos
fundamenta a ideia de gravidade.
Isso é uma crônica, escrita por meu corpo sujeito à
ação deste fenômeno de difícil definição.
Porque se fosse exato, era tão só matemática.
Porque se fosse inexplicável, não seria física.
Porque se fosse encerrado, não seria filosofia.
E se não se pesasse, não caberia em literatura.
Eu estou em busca da Origem do Mundo.
E nas brevidades que antecedem a queda, e nos
instantes que precedem o soerguimento,
corpo e gravidade pouco se afetam
significantes não interessam,
e se bastará a coragem
de ver as árvores
ceder as folhas
ao chão.
O Vasco sofridamente marcar o último gol.
Eu gritar porra, gol, porra!
correndo pela casa.
A fisiologia entendida.
O amor que a si próprio se permitiu.
O entendimento que o “nada” pode ser “tudo”.
O filme cuja própria companhia é a parceira.
As palavras estas que se deixou acabadas, vivas,
porque é simples, mas tão complexo, aqui permanecer e
estar:
pois que apenas bastou, diante da gravidade e dos
corpos,
o soprar entre as árvores e lhe levar o verde que
o vento me fez continuar a querer viver.
SOUZA,
A. C. de; PEREIRA, D. R.; CASSINI, M. de F.; JESUS, A. C. S. de; SILVA, M. da; SCHIRMER,
J.; DOURADO, C. de S. Percepção da gravidade em uma intrigante visita à Casa
Maluca do CDCC-USP. Journal of Human Growth and Development, São Paulo,
v.28, n. 2, p. 213-219, 2018. DOI: http://dx.doi.org/10.7322/jhgd.147241.
DOURADO,
Cláudia de Souza; FUSTINONI, Suzete Maria; SCHIRMER, Janine; BRANDÃO-SOUZA,
Camila. Corpo, cultura e significado. Journal of Human Growth and Development,
[S. l.], v. 28, n. 2, p. 206-212, 2018. DOI:
http://dx.doi.org/10.7322/jhgd.147240.
Enzo Peixoto é escritor, poeta e estudante de medicina.


Comentários
Postar um comentário