DAS RIQUEZAS CULTURAIS DE SÃO BENTO NA BAIXADA MARANHENSE

O que ainda nos falta para reconhecer quem somos? 

Doce de leite, queijo caseiro, mussum, jaçanã. Ilhas flutuantes nos campos da Baixada. Rica em fauna e flora. Parte significativa do nosso pantanal.

Por muitos anos foi a porta de entrada da Baía de São Marcos para o continente e caminho de boiadas.

Uma diversidade cultural que teve um teatro e uma sociedade teatral “Recreio Dramático “ no século 17; jornais escritos à mão, como “O São Bento”, “O Luz” e o “Laço” e o impresso "Legionario Sao Bento-MA" (1935); que nos deu o escritor João Clímaco Lobato que entre outros publicou a novela “Mistérios da Vila de São Bento” (1862).

Além disso, um rico calendário festivo religioso, com as tradicionais Festas do Remedinho, de São Bento e de São Benedito e os danados dos festejos populares do carnaval, o Tambor de Crioula e o bumba meu boi que ainda hoje enriquecem de zabumbas, pandeiros e orquestras a cidade: Bumba-Meu-Boi Mimoso, Bumba-Meu-Boi Tradição, Bumba-Meu-Boi de Cofo, Bumba-Meu-Boi Encanto de São Bento, Unidos de São Bento e Do Belém-São Bento.

Isso sem esquecer que muito provavelmente, em São Bento teve um dos primeiros boizinhos mistos (brincantes homens e mulheres), do Maranhão já na década de 40. Há que se aprofundar mais.

O certo é que seja impossível compreender o universo cultural ludovicense sem identificar as raízes baixadeiras e são-bentuenses. Afinal, de lá muitos ativistas culturais como seu Nicolau e Joel (comerciante importante que migrou para o bairro do Monte Castelo) trouxeram brincadeiras que influenciaram o modo de fazer toadas, apresentações juninas e até mesmo lutaram para a ampliação dos limites de entrada dos bumba-bois da zona rural, restrita até o Joao Paulo para a área urbana, no canto da fabril no século passado.

Da arte de compor histórias, versos, canções, toadas; da sina de tanger bois e cavalos e das engenhosas tramas femininas da tecelagem das redes avarandadas de São Bento, uma forte permanência indígena, que ganhou o Rio de Janeiro numa exposição em 1908 e depois o mundo (Bélgica), São Bento traz força.

Em homenagem a cidade de São Bento que aniversariou no dia 30 de março (121 anos), dedicamos um radiofônico História em Debate Especial que foi ao ar em 28 de março de 2026 com as histórias e memórias da cidade.

Na ocasião conversamos com os pesquisadores e escritores Vavá Melo (Academia São-Bentuense de Letras) autor de "São Bento no Império: atividades parlamentares", “Apontamentos para a Literatura de São Bento” e “Cronologia de São Bento”; com a Profa. Dra. Beatriz de Jesus Sousa, autora de “Tramas de Gênero - um estudo sobre mulheres que tecem redes de dormir em São Bento - MA”

e com Prof. Dr. Antônio Francisco de Sales Padilha, fundador da Escola de Música Antônio Manoel Padilha, em SãoBento (2006), autor da música do Hino do Município de São Bento e autor dentre outros, dos livros "A Construção Ilusória da Realidade – Ressignificação e Recontextualização do Bumba meu Boi do Maranhão", 2017; Pietas e Labor – A Saga dos Padres Piamartas no Nordeste do Brasil ( 2018); Fogo de Olaria – Antologia da Academia Sambentuense de Artes e Letras (2021).

Faltou muita coisa, em especial aprofundar fatos referentes a fundação do arraial de São Bento dos Peris por João Cauaçu vindo de Santo Antônio de Alcântara na antiga Capitania de Cumã; a elevação do arraial à categoria de freguesia pela Provisão Régia de 7 de novembro de 1805; a sua posterior elevação para vila em 19 de abril de 1833, e finalmente à cidade somente em 30 de março de 1905.

Ainda assim, foi o suficiente para refletir o quanto ainda precisamos pesquisar e aprender sobre as raízes culturais do Maranhão e da Baixada Maranhense.

No ar, revelei a minha inveja quando alguém rememora as suas íntimas paisagens baixadeiras. Não as tenho. Mas celebro a sorte do meu filho que carrega essa herança oriunda de seu Honório e D. Albertina (gente de São Bento Velho, hoje Bacurituba/MA) que desfrutavam da maior confiança e respeito do Dr. Amaral de Matos.

Para além das famílias tradicionais da região, uma quantidade singular de gente simples que domou a terra, o gado, cavalos, o alagado, o bilro, os fogões, os livros e sobreviveu a epidemias, fome, massacres e injustiças contra indígenas, escravizados e camponeses desde os tempos coloniais.

Ter orgulho de nossas origens. Talvez seja exatamente isso que ainda nos falte para reconhecer de fato quem somos.

Marcus Saldanha é escritor, historiador e jornalista

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