INSTALAÇÃO ORBITAL PARA STANLEY KUBRICK
“As pessoas não morrem,
ficam encantadas.”
Guimarães
Rosa
é
necessário correr tomar pílulas para
emagrecer
e sonhar que a razão da vida
um dia
encontraremos
é necessário
comer
o pão
que
deus não abençoou
que nos
supermercados
são vendidos
todas as manhãs
de segunda a
segunda
é
necessário dietetizar o almoço
grelhar
a carne de pescoço
diminuir
as contas
no cartão
amar a berinjela
que faz bem
ao coração
é
necessário criar um novo espírito
voltar
a ser jovem
fazer sexo na rede
e viver
mais
se consultar
com o
psiquiatra
todos os domingos
e feriados
pela
manhã
é
necessário ler jornais
andar
mais de ônibus
ser
menos moralista
beijar sem querer
o amor em troca
não
fumar
escutar billie holiday
quando não chover
atravessar senhoras
idosas
no asfalto quente
sair da fila
e dar lugar
para
gestantes
e deficientes
ser gentleman
riscar
da agenda
todos os
endereços
das amantes
é
necessário acreditar
mais em
discos voadores
fazer
contatos extraterrestres
acordar com poemas
inusitados
transformá-los
em fantasmas
de computadores
excomungar
satanás do parque de diversões
redimi-lo
no santo sabá
questionar
os vícios e as tristezas
descarregá-los
nas
clínicas de utopia
e sorrir nas janelas
quando
chegar
o natal
do ano novo
é
necessário ser o que não se quer
esculpir
ideologias
no
cardápio
dos fast-foods
mostrar
que acreditamos
no
princípio da fidelidade
alimentar a consciência
que
há fome sem necessidade
é
necessário justamente viver
em um
mundo
que se
movimenta
ao contrário
viver esta lenda
inesperada
antes que o sol se apague
e o
buraco negro
nos engula
é
necessário um motivo
uma
partilha
um
pedaço de resposta
para a vida se
encontrar
neste ciclo de mentiras
observar
cuidadosamente
os impacientes rostos infantis
ou
então a vida
se
tornará
desastrosamente
desnecessária
por algumas
eternidades
minuciosas
*Este
poema faz parte do livro “A inconstante órbita dos extremos”, publicado
pela Editora Conesul-SP, 2001 (com reedição em 2021, pela Editora Penalux-SP, em comemoração aos 20 anos de lançamento da obra).
Bioque Mesito é poeta,
autor de sete livros de poemas publicados.

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