NOSSO LEGADO DE RUÍNAS

Casarões históricos desmoronam, viram ruínas ou puxadinhos feios para pontos comerciais Maranhão afora e este será nosso legado

 

Ontem, (28) mais um casarão no centro histórico de Alcântara ruiu. No local funciona a agência do Banco do Brasil. Ano passado, o casarão ao lado já havia desabado nesse mesmo período chuvoso. A cada ano, vemos nossa história abandonada desabar, ser tomada pelo mato ou receber reformas que descaracterizam completamente a construção original.

Assim não só o passado colonial vai minguando, como a história da arquitetura moderna e de personagens que deixaram um importante legado cultural para o Maranhão vão sendo apagados.

Cadê as casas onde moraram Gonçalves Dias e Coelho Neto em Caxias e Dilu Melo em Viana? Odorico Mendes, João Lisboa, Maria Firmina dos Reis, Arthur Azevedo, Aluísio Azevedo, Catulo da Paixão Cearense e Maria Aragão em São Luís? E a casa de Mariana Luz em Itapecuru? Infelizmente ou foram destruídas, viraram ruínas ou estão irreconhecíveis, descaracterizadas, transformadas em pontos comerciais que em nada lembram o estilo original em que nasceram ou viveram os ilustres moradores.

A memória perde feio para os o que ignoram o passado e não investem em preservação histórica. Lentamente, cidades inteiras são apagadas e colocadas à sombra de novos centros urbanos feios e nada funcionais. Sobram placas, toldos, cavaletes, fios e lixo, muito lixo.

As cidades que desperdiçam sua história, perdem turistas e dinheiro. Muito dinheiro. Afinal, o que leva viajantes a visitar lugares com infraestrutura precárias e principalmente sem identidade? Tirar fotos de shopping centers com marcas mundiais pode até atrair turistas para grandes centros comerciais em Nova York, Barcelona e Paris, mas não acredito que esta seja a vocação do viajante que escolhe o Maranhão como destino. Afinal, que registro o turista que busca nossas cidades deseja compartilhar em suas redes sociais? Seja nos centros históricos ou parques naturais, o viajante quer viver uma experiência singular com conforto, segurança e tranquilidade.

Se não temos ainda todos os requisitos de infraestrutura necessários, podemos compensar de outras formas. Nossas estradas e a sinalização turística deixam a desejar. Mas ninguém tem o bumba meu boi, tambor de crioula, edifícios históricos, cemitérios com arte funerária e lápides de tantos ilustres personagens da história nacional e ao mesmo tempo praias, lençóis e fronhas de areia, florestas de guarás, só para listar alguns de nossos potenciais atrativos.

Porém, o Maranhão não só ignora parte importante de seu passado, como desperdiça recursos fundamentais para o futuro.

Enquanto cidades europeias avançam em preservação e recuperação do casario e monumentos históricos, o Maranhão insiste na contramão de um progresso tardio e defasado. Sonha com grandes projetos internacionais, produção de comodities para o mercado externo a baixo custo e mão de obra barata.

É a máxima do que era ruim, ainda pode ficar pior. Nem decolonial e nem conservada, nossas cidades estão destruindo o passado e negando o futuro da memória aos nossos descendentes que não conhecerão para além de fotos modificadas por IA, a arquitetura colonial, neoclássica ou eclética, que em algum momento, justamente por descaso, também serão apagadas das nuvens em nome de um futuro que é cada vez mais cruel.

Otimista que sou, “quero crê numa boa”, que a “gente fina, elegante e sincera” vai acordar do transe coletivo e da sanha destruidora e se enxergar no espelho das ruas de paralelepípedos cobertas de asfalto, dos mirantes coloniais e telhados cobertos de musgos, das platibandas modernistas, dos antigos trilhos soterrados, dos sotaques variados e tambores que ecoam os gritos das aldeias e quilombos.

É aí que vamos nos reconhecer para não cometer velhos erros. Hoje seguimos a velha trilha humana de destruição, jurando que o caminho é novo. Ignorando percursos saturados com cantigas que não apontam nenhuma nova direção que valha verdadeiramente a pena para cada um de nós e todos juntos.

Amanhã um novo edifício histórico vai ao chão e a culpa será da chuva. Uma nova chuva ou obra comercial em São Luís, Alcântara, Icatu ou Viana, isso para cidade algumas das mais antigas cidades do Maranhão, vai colocar à baixo o que sobrou dos azulejos, dos fortes, dos engenhos, dos vestígios de lutas por justiça e da memória de uma época que muitos de nós que vimos ou sabemos não mostraremos para os que virão. Este será mesmo o nosso maior legado? 


Marcus Saldanha é escritor, historiador e jornalista. 

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