OS BASTIDORES DO DIA DO ANIVERSÁRIO DA SUA CIDADE
Cada cidade comemora quando é mais
conveniente politicamente
pelo grupo dominante do passado e de
hoje
O calendário maranhense é repleto de festas populares e religiosas. Entre
as principais celebrações estão os dias de santos e o carnaval (no cerne
eclesiástico) e os aniversários das cidades. Sendo assim, tome festa! Afinal
são 217 municípios que escolhem a data da elevação da vila, da transformação em
cidade ou da emancipação política. Mas existe uma data correta para festejar o
aniversário de uma cidade?
Vejamos, por exemplo, o caso do dia 19 de abril no Maranhão. Marca os 193
anos da elevação à condição de Vila de São Bento dos Peris (São Bento) e Urubu
(Codó) por Resolução Provincial do Estado quando da Divisão Judiciária da
Província em Comarcas e Termos. O mesmo ocorrendo com Turiaçu que por sua vez
estava sob jurisdição do Pará, sendo incorporada definitivamente ao Maranhão
somente depois de disputas territoriais e dificuldades administrativas, em 12
de junho de 1852.
No mesmo dia, mas dois anos depois (1835) foi a vez de Mearim (Vitória do
Mearim), Itapecuru-Grande (Rosário), Manga do Iguará (Vargem Grande e Nina
Rodrigues), São José dos Mathões (Matões e Parnarama) e Riachão. Portanto,
contam 191 anos de elevação à condição de Vila.
Mas nem todos municípios escolheram a data para festejar seus
aniversários, optando pela efeméride do que consideram ser a emancipação
política. Seja como for, há muito pano para manga, já que de uma tacada só,
ignoram a primazia da ocupação humana milenar dos povos originários e celebram
a vitória, não só da narrativa colonial europeia, mas do grupo político que
conveniente está no poder quando a data é instituída.
Ou seja, a história não só é contada, mas recontada permanentemente pelos
vitoriosos na violenta disputa nos bastidores do poder. Além disso,
historicamente é muito complexo cravar um a data de fundação de uma cidade.
Basta lembrar a polêmica questão da capital maranhense. Fundação francesa em 08
de setembro de 1612 com os ritos religiosos e políticos ou em 1615 com a
retomada portuguesa? Ou o correto seria 1619 com a instituição da Câmara
Municipal?
A historiadora Dra. Regina Faria, professora emérita da Universidade
Estadual do Maranhão (UEMA), retoma o conceito de “invenção de uma tradição” do
historiador inglês Eric Hobsbawn, “No sentido de criação, não de uma mentira”
explica, para entrar no debate: “O que
deveria ser correto é elevação à vila porque no Período Colonial e no Império,
quando uma localidade era elevada à vila significava que ela se tornava um
município que passava a ter direito a constituir uma Câmara Municipal (que na
Colônia era chamada de Senado da Câmara) que era o governo, já que reunia o
Legislativo, o Judiciário e o próprio Executivo. Por um curtíssimo período de
tempo no Império houve a figura do prefeito, mas não era o prefeito municipal,
mas de Comarca, mas para uma autoridade policial.”, aponta.
A cidade de Buriti, antiga Buriti de Inácia Vaz, terra natal de Regina,
por exemplo, foi elevada à categoria de Vila, desmembrada administrativamente
de Brejo em abril de 1888, mas o que é comemorado na cidade é a elevação da
vila à condição de cidade em 6 de dezembro de 1938. O mesmo acontece com outros
municípios, ainda que em dias distintos no mesmo ano, que cumpriram um Decreto
Estadual oriundo da determinação presidencial que dava um prazo para que todas
as vilas, (no sentido de cidades desde a Constituição de 1824, reforçada em Lei
de 1828 ou como conhecemos hoje, unidades federativas), fossem elevadas a
categoria de cidades.
Diante disso, seria muito difícil mudar as datas, mas o problema é que
muita gente confunde o fato de a vila ser transformada em cidade, com
emancipação política. Mal entendido que acabou consolidado pelo IBGE, na
Enciclopédia dos Municípios de 1953, disponível no site do IBGE num volume do
Maranhão em conjunto com o Piauí e acabam desconsiderando um longo período de
contagem da sua História
Questão Política – Para o historiador e pesquisador da Universidade
Federal do Maranhão, Prof. Dr. Manoel Barros a elevação de um povoado à
categoria de vila é uma deliberação estritamente política exercida pelo Poder
público e por isso, em todo Brasil, onde existe uma confusão no que respeita à
data que deve ser tomada para as comemorações de aniversário municipal.
“Conforme creio, não há motivação para dúvidas geradoras de discussões
inócuas a esse respeito. Primeiro o Estado colonizador e depois o Estado
nacional brasileiro estabeleceram normas legais disciplinando a ereção de
unidades municipais. Por esse espectro normativo, as aglomerações populacionais
originárias ficaram alijadas, por si só, de evoluírem para a criação de um
município territorialmente definido, a não ser quando o Estado deliberou por
modificar o estatuto do povoado, como aconteceu ao tempo da intervenção do
Marquês de Pombal, em que missões jesuíticas foram transformadas em vilas
(Viana, Monção e Guimarães, por exemplo).”
O professor que organiza semestralmente os seminários temáticos sobre as
histórias, memórias e paisagens dos municípios da Baixada Maranhense, sob
título de “Diálogos Baixadeiros” concorda que a celebração deve recair
exclusivamente sobre a data de criação da vila: “A emancipação de um povoado
exercitando a categoria de sede municipal, posto que somente a partir dessa
data uma territorialidade passou a ter personalidade jurídica, englobando uma
miscelânea de povoados.”
Na Colônia, no Império e no início da República brasileira, a criação de
uma cidade atendia a imperativos estratégicos, geralmente (mas nem sempre) para
o cumprimento da função de capital.
Diferentemente, a criação de freguesia era ato pertinente à Igreja. O que
havia era certa confusão entre a territorialidade eclesiástica (geralmente bem
definida) e a territorialidade temporal (quase sempre imprecisa), de modo que
em muitos casos o Estado, por meio do município, se estabelecia exatamente no
espaço onde funcionava a freguesia.
Quanto à definição de termos e comarcas, quase sempre são unidades
judiciárias que se estabelecem em territorialidades onde já existem os
municípios.
Seja como for, festa é festa. Vale comemorar sem abusar dos recursos
públicos para uso em campanha política antecipada e em detrimento dos
investimentos em saúde, educação, cultura e infraestrutura. Mas não custa nada
provocar algumas reflexões. Afinal, a sua cidade comemora o aniversário em qual
dia? Quem escolheu a data? E o povo todo em sua diversidade étnica e cultural
faz parte, de fato dessa história? São lembrados na narrativa histórica ou são
inviabilizados ou apagados por um mito heroico do homem branco, escolhido por
Deus, de origem europeia ou sertaneja que deu início a história.
Marcus Saldanha é escritor, historiador e jornalista.


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