A BARONESA DE GRAJAÚ SEGUE VIVA ENTRE NÓS
Quando o passado escravocrata insiste em se impor
Parece impossível, mas em pleno 2026 ainda há quem negue a
História enquanto área de conhecimento e conteste a existência do racismo. Até
que episódios, como o que aconteceu ontem entre a patroa e sua empregada
grávida escancara o quanto a Baronesa de Grajaú regurgita em nós.
Para quem não sabe, Anna Rosa Viana Ribeiro conhecida como a
Baronesa de Grajaú foi uma nobre que viveu no século XIX em São Luís. Casada
com Carlos Fernando Ribeiro (Barão de Grajaú), médico, político e rico
fazendeiro maranhense, foi acusada de maltratar vários escravizados e de
torturar e matar duas crianças em 1876: Inocêncio e Jacinto.
Mediante a pressão popular e da família das vítimas, acabou
processada e presa, mas somente por pouco tempo. Não só foi solta e inocentada,
tornou-se primeira dama no Maranhão e entrou para a História como Baronesa por
conta do título do marido.
Já a mãe das crianças, Geminiana uma mulher negra forra, que
ficava de plantão na frente do casarão da rua São João para saber como estavam
seus filhos e tanto lutou por justiça após os crimes, acabou acusada de
feitiçaria e cumpriu anos de prisão. O promotor de uma parte importante do caso
foi afastado e a vida seguiu tranquilamente para a violenta senhora de
escravos.
Essa história está brilhantemente contada no livro “Geminiana
e Seus Filhos”, escrita pelos historiadores Maria Helena P. T. Machado e
Alexandre Isídio Cardoso, publicado em 2025 e finalista do Prêmio Jabuti do
mesmo ano.
Passa o tempo, e áudios vazados de um grupo de amigos para a
imprensa, comprovam a extrema violência com que uma patroa tratou dentro de
casa um suposto caso de roubo de um anel. Com requintes de crueldade e
sarcasmo, a patroa descreve que antes de receber um homem armado com “Uma
jumenta de uma arma, chega brilhava!!!” para forçar “Num massacre” uma
confissão de crime, ainda fez a empregada doméstica negra, de 19 anos grávida
de 5 meses limpar a cozinha: “Eu também não sou besta!”.
Não só não é besta, como carrega a certeza da impunidade e
de que o papel das funcionárias é de total submissão. Branca e recorrente na
acusação sem provas de roubos e violência na averiguação. Já são mais de 10
casos semelhantes. O anel foi achado num cesto de roupa suja. Apesar do
registro da violência na Casa da Mulher Brasileira, a patroa conta nos áudios
que nada aconteceu já que o policial que foi até a residência era seu amigo.
Eis o grupo que esbraveja contra os direitos humanos. Os
racistas e privilegiados que negam a História, mas reivindicam seu posto
tradicional na elite brasileira. Infelizmente, a História escrita pelos
vencedores ainda está a seu favor. Basta ler os dados da violência e das
desigualdades no país. Mas quem sabe aos poucos, graças aos estudos e programas
de inclusão e equidade, políticas sociais, o confronto esteja mais equilibrado.
Num país onde a justiça é feita com as próprias mãos, pretos e pobres continuam na mira da polícia e de magistrados que em sua maioria ainda atendem aos mais poderosos, vide a população carcerária e o número de corruptos em prisão domiciliar ou soltos. Enquanto cadeia for para pobre, Anna Rosa segue viva, não como fantasma, mas como permanência de uma História que nunca deixou de se repetir.
Marcus Saldanha é escritor, historiador e jornalista.


O racismo é sintoma de um espírito degenerado e cultura de uma sociedade corrompida.
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