A SÃO LUÍS (IN)TRANQUILA DOS “MEUS TEMPOS”

A reiterada falácia de que “No meu tempo não era assim!” revela uma memória seletiva e provinciana da elite fadada a repetição de erros

Quantas vezes você ouviu alguém dizer em alto e bom som que “Na minha época não tinha essa violência toda. A gente dormia era de janela aberta”? Mas infelizmente, tenho dúvidas, se existiu alguma época na capital maranhense em que isso foi verdade.

Basta investigar em jornais antigos da Biblioteca Pública Benedito Leite ou em documentos do Arquivo Público de São Luís para constatar a quantidade de crimes violentos em toda a Ilha, desde o Período Colonial.

A execução sumária de indígenas; os castigos violentos de escravizados; a morte na forca em praça pública (Manoel Beckman em 1685 entre outros); os assassinatos de Inocêncio, Jacinto (1876) e Mariquinhas (1873); o “crime monstruoso” no Café São José (1913); O Misterioso Caso Galeoti (1923); os golpes de Ignácio Mitra (finais do XIX e início do século XX) e os mais recentes, o serial killer Francisco das Chagas, que confessou ter matado 42 meninos entre 1990 e 2000; Lúcio Mário Fabiano (O Monstro do Cohatrac anos 80) e o caso Gerô em 2007, mostram a sequência de crimes praticados, inclusive pelo Estado, que chocaram a população maranhense ao longo do tempo.

Para além dos casos emblemáticos, basta recorrer a qualquer série de jornais da primeira metade do século XX para encontrar relatos similares aos que ouvimos atualmente, de que hoje ninguém mais está seguro. São vários, os exemplos ilustrados, de assassinatos, assaltos e furtos no cotidiano da velha cidade já daquela época.

Um exemplar de A Pacotilha de 1923 já denunciava a “enorme sensação de insegurança na “República Ludovicense”: “Pior ainda que os assaltos a casas de família foi aquela proêsa que os gatunos realizaram numa igreja da cidade, penetrando lá em hora que não havia dentro do templo viva alma, e os reverendos padres se achavam, em estabelecimento contíguo, entregues aos labores do magistério que acumulam aos do sacerdócio. Limparam vários saltares, esvaziaram os cofres das confrarias. Até as almas do purgatório ficaram sem as parcas moedas das suas missas. Não se pode encarar esse caso sem repulsa pelos que nem os objectos sagrados respeitaram. Daqui a pouco, a continuarem nessa marcha, os senhores ladrões entrarão a desenterrar os cadáveres do cemitério para despojá-los.”

 


Antes disso, outras notícias do mesmo periódico no ano de 1921 sob o recorrente título de “Os Larápios” já apontavam o cenário de crimes na cidade: “Atraído pelo metal e impelido pelo vício, um audacioso gatuno ousou carregar ontem da Igreja do Carmo, um castiçal de prata existente no altar de N.S. de Lourdes desde 1905.” Além deste, merece destaque uma última nota da mesma época e coluna: “O proprietário da antiga Lira de Prata, hoje S. José, no Parque Urbano Santos n. 24, esteve hoje nesta redacção, queixando-se dos constantes assaltos que tem sofrido aquela quinta por parte de audaciosos gatuno. Como a roubalheira continua, èle se viu forçado a usar de armadilhas para impedir tais visitas inoportunas. Os larápios que se acautelem, - diz, num requinte de urbanidade,a vítima...”   

Outro recorte curioso dessa época, está no relato biográfico do Mestre Irineu que ficou conhecido mundialmente pela criação da Doutrina do Santo Daime. Obrigado a deixar a sua São Vicente Férrer na Baixada Maranhense após uma briga violenta com facas, rodou por várias cidades amazônicas. Em sua primeira vinda a São Luís, desembarcou na antiga estação de trem. Não muitos passos adiante, agarrou em flagrante um gatuno que tentava “bater sua carteira”. Assim, com a mão do ladrão em seu bolso, o homem de quase dois metros de altura, chegou na delegacia onde entregou o criminoso.

Um cartão de visita comum na urbe que embora em ruínas dos ciclos de plantation que ergueram seus casarões históricos em meados do século XVIII e respirava a transformação com as indústrias implantadas no final do século XIX.

Sendo assim, nossos pais e avós, por mais idosos que sejam, só rememoram a cidade seletiva, provinciana e elitista de sua infância e de seus ancestrais, não há muitas gerações. Em seu tempo de nostalgia podem até recordar fragmentos de uma época que supostamente se vivia tranquilo pelas ruas. Mas não confie nessas memórias. Os documentos históricos provam o contrário.

Para tal, recomendo as pesquisas desenvolvidas pelo historiador Prof. Dr.Paulo Henrique Matos, especialista em História Social do Crime, que já há algum tempo vem ocupando relevante espaço na mídia, fazendo o que chamamos de História Pública. Nos jornais impressos e emissoras de TV pontualmente, programas de rádio semanalmente (Jornal Rádio Universidade) e nas redes sociais diariamente revela episódios históricos desde o banditismo social (Cangaço no Maranhão) até a análise criteriosa de crimes recentes e dados da Segurança Pública no Estado.

Você pode até não concordar com as suas análises “indigestas”, mas a leitura de relatórios e documentos antigos e atuais, sempre descritos pela “oposição” como “narrativas”, não deixa resistir qualquer apego saudosista de uma época que em verdade não existiu.

O preço que pagamos dessa falta de consciência crítica e histórica é que repetimos os mesmos erros com espetacularização dos crimes de maior repercussão, reduzidos a episódios de insanidade mental quando envolvem brancos ou a elite e abusando da força quando envolvendo pretos e pobres com recorrente defesa da redução da maioridade penal, mas falhando intencionalmente em prevenção com ações afirmativas, educação de qualidade, geração de trabalho e renda, programas de moradia digna, regularização fundiária, entre outras. Afinal não somos nós que definimos o que é certo, justo e moralmente aceitável?

Do campo para a cidade, migrantes e libertos resistiram em busca de uma vida digna por décadas. Construíram vilas e bairros, muitos reconhecidos como verdadeiros Quilombos Urbanos. Não é preciso andar muitos para ouvir episódios de violência, mas também de repressão por parte de quem deveria proteger. O caso do artista popular Gerô, abordado na região da Ponte do São Francisco, preso e torturado em 2007, não foi o primeiro e infelizmente também não foi o último.

Moradores das casas modernas dos anos 60 da Praça Duque de Caxias, por exemplo, podem até lembrar de um período de muita tranquilidade e paz no bairro do João Paulo. Mas ignoram ou preferem ignorar, a violência com que antigos moradores daquele sítio foram expulsos para construção da praça e das casas. Apagam da memória, o número de estudantes e trabalhadores que viram tomar “baculejos” ali mesmo defronte aos muros do quartel na Ditadura Militar.

Sem falar nos brincantes de bumba boi e tambor de crioula, além de jogadores de capoeira que por décadas, ali mesmo, nos estabelecidos limites entre a cidade e o subúrbio, foram reprimidos e violentados sob a acusação de vadiagem.

No próximo sábado, dia 16, o professor Paulo Henrique participa conosco na edição de maio do “Marocando a História”, no Casarão Reocupa (Rua da Estrela) Centro Histórico de São Luís. Um a oportunidade de conhecer e debater sobre os crimes históricos de São Luís.    


                                                                                 Marcus Saldanha é escritor, historiador e jornalista. 

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