ALCÂNTARA EM “RUÍNAS” AINDA FAZ JUS AO TÍTULO

DE “PARADA NO TEMPO”

A maior Festa do Divino do Maranhão sobrevive graças a força do povo

Não há quem conte a história de Alcântara sem destacar as duas fases distintas da sua história: o apogeu econômico do século 18 expresso na arquitetura portuguesa colonial civil, militar e religiosa erguida na cidade e a segunda, marcada pela decadência desse acervo a partir do início do século XIX e que perdura até hoje. Sintoma disso é o fato de que no ponto alto do calendário cultural e turístico, o Festejo do Divino, a cidade ainda padeça da falta de infraestrutura básica para moradores e visitantes: a travessia de barco é desconfortável e depende exclusivamente do horário da maré, o porto e terminal de passageiros são precários, a rede hoteleira e de restaurantes deixam a desejar e o único banco da cidade segue fechado após o desmoronamento da fachada histórica.

E pensar que Alcântara depois de abrigar o presídio de São Luís na primeira metade do século XX, foi tombada pelo IPHAN e reconhecida como Cidade Monumento Nacional (1948). Tudo isso graças as ruínas históricas de um Maranhão aristocrático onde floresciam os engenhos de açúcar, a extração de sal e os cultivos de arroz e algodão, o que permitiu a construção de diversas igrejas (Igreja do Desterro; Igreja de Nossa Sra. do Rosário dos Pretos; além das ruínas das igrejas de São Francisco, Nossa Senhora do Carmo e Matriz de São Matias e Ermida Nossa Senhora do Livramento), um forte do século XVIII (São Sebastião), prédios públicos (Casa de Câmara e Cadeia), fontes (Pedras e Miritiva) e palacetes como o Cavalo de Tróia (o mais alto solar de Alcântara), além de tradições culturais que demonstram a acentuada influência europeia exercida pelo do contato dos filhos das famílias ricas com a metrópole portuguesa. Depois disso, infelizmente ficou parada no tempo, com constantes desmoronamentos, saque do acervo e baixos investimentos públicos e privados.

Até pouco tempo atrás, moedas, porcelanas, garrafas e ferragens dos períodos coloniais e imperiais afloravam entre pedras do calçamento, muros e zona rural do município. Além de fósseis paleontológicos e artefatos pré-coloniais que se perderam ao longo do tempo.

Hoje restam as disputas partidárias que se arrastam desde os séculos passados com promessas eleitoreiras de um imperador que nunca veio, juras de um futuro glorioso com a conquista dos céus e a dura realidade atual de desmatamento, queimadas, pesca predatória, conflitos agrários e baixos índices de desenvolvimento humano. 

Apesar de tudo isso, e contra tudo isso, os desafios impostos pela difícil realidade local, os tambores ecoam há séculos com as  heranças ancestrais que resistem graças a força da comunidade. Um forte exemplo disso é a organização das diversas festas religiosas, como a Festa de São Benedito e o Divino Espírito Santo. De origem açoriana, o Divino que celebra durante o mês de maio uma das tríades da Igreja Católica (lembrando a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos, representado iconograficamente por uma pomba e por línguas de fogo), é sem dúvidas sua maior e maior permanência cultural. Acrescida da singularidade maranhense que é a participação de mulheres no cortejo e procissão tocando caixas (as caixeiras do Divino).

O evento é tão importante que existe no centro histórico de Alcântara um importante aparelho cultural dedicado a festa - a Casa do Divino. Tudo isso graças a devoção (promessa) e o comprometimento (obrigação) da comunidade que organiza durante o ano inteiro um conjunto de tarefas que vão desde a escolha dos membros dos impérios (um casal de imperadores, de mordomo régio, mordomo mor, os padrinhos do mastro, entre outros), as cores e confecções das vestimentas, enfeites, montagem das mesas de doces com enfeites ou lembranças para serem distribuídas e claro, a escolha, preparação e levantamento do mastro. Tudo isso para garantir com sucesso, os momentos mais aguardados:  a Subida do Boi, também conhecida como Corrida dos Bois e o Cortejo do Império. 

Sem uma comunidade unida e engajada seria impossível realizar com sucesso, durante décadas uma festa que dura dias e envolve dezenas de pessoas em tarefas variadas e demanda dezenas de voluntários como cozinheiras, decoradoras, artesãs, costureiras, motoristas, entre muitos outros. Sem falar na ajuda de devotos que oferecem porcos e galinhas que eles mesmos criaram, além da arrecadação da “jóia” ou “prenda” para custear a festa.

Tudo isso, para garantir o cumprimento da obrigação com o Divino Espírito Santo e manter viva a tradição passada de geração em geração, mesmo em período de grandes dificuldades econômicas, ameaças a população com projetos de exclusão social e muitas vezes a falta de apoio público e privado.

A cidade que somente nos anos 90, garantiu a proteção do conjunto, definição dos limites e regulamentação da ocupação e uso do solo. E apenas em 2004, o IPHAN passou a considerar o patrimônio de Alcântara como de valor cultural, histórico, artístico, paisagístico, urbano e arqueológico.

Até que Alcântara coloque em prática um plano eficiente de desenvolvimento econômico e social e consiga desenvolver um turismo sustentável que garanta a preservação dos seus mais de 400 imóveis tombados, desenvolvendo pesquisas arqueológicas, garantindo restauração e exposição do seu rico acervo, aliando novas tecnologias que disponibilizem geração de renda para os moradores, Alcântara segue sendo uma cidade em ruínas parada no tempo, tal qual os romances de Josué Montello a descreveram, numa noite que insiste em nunca acabar.

 

Marcus Saldanha é escritor, historiador e jornalista.

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