CRÔNICA N°4 DAS PESSOAS E DOS CONTATOS DE TELEFONE

O outro, os números, as listas e os fios de telefone

Como se salvam os números de telefone?

 A maior invenção do homem foi o outro.

 Imagina o entendimento que seja o que não é próprio, não necessariamente contrário mas diferente; exatamente igual, exatamente desigual.

 Todos os pronomes cabem nas pessoas.

Como se salvam os números de telefone?

 Entendo que diante do mundo e dessas tantas outras, se é mais outra pessoa-comum, e nada além, nada aquém. Nós nos esbarramos pela convenção, nós conhecemos por razoável motivo e nisso somos. E assim surgem os contatos. De telefone.

 O Outro é alguma coisa a partir do ato de se salvar seu contato telefônico.

 Confesso que tenho buscado me reduzir a uma importância relativa:

a da devida desimportÂncia.

 O que é um exercício, não nego.

 Isso justamente porque eu não importe menos, mas por que as pessoas importam igualmente o mesmo para si mesmas, afinal, é o ideal a se pensar para toda vida corrida.

 Essa avenida que não se corre, essa calçada que não se anda, e que é algum trajeto.

 Se está, de fato, em perambulação.

Diz-se: os números não se anotam sozinhos.

As crianças não brincam de telefone-sem-fio sem a frase de início.

E ser prolixo é inventar o inicial da palavra no ouvido do último que a escuta.

É nessa andança corrida, enquanto arrastamos os pés, que o tecido social se reflete nas listas de telefone. A tese desta crônica.

 E como se salvam os contatos de celular?

 Eu dediquei meus “não estou fazendo nada” para esse pensamento talvez inútil; esse pensamento que me surgiu na cantina quando uma colega me disse ter salvo meu nome por “ENZO - UEMA”. A princípio, me surgiu uma interrogação, que considerei legítima, uma vez ela ser a Aluna X, da turma N°, como todos os demais.

 E, de considerações devidamente trocadas, sem chumbo, sem silêncio, sem dolo, tem-se que “é o prato que se recolhe do que se transborda do vaso”.

 Colega de turma X, da turma Y.

Moça da Lanchonete que vende Brownie.

Sicrano que troca e arruma peça de ares-condicionado.

Beltrano que conserta e que vende aparelhos eletrônicos&domésticos.

Dr(a) Fulan(o)a de Tal, especialista na mirabolante especialidade da Medicina.

 Assim se salvam os contatos do celular?

 

As pessoas se refletem em seus contatos de telefone, em que isso é a importância relativa entregue a essas nesse espaço “virtual de convívio.”

 Porra, fascinante.

Essa constatação foi meu sorriso na Av. Guajajaras às 17h olhando o céu azul.

 E não parei de pensar exatamente sobre a semana inteira, até porque a sina só acabaria neste texto que tu lês.

 Reflete.

Mais uma vez.

Isso foi meu fascínio semanal.

 Acredito que os telefonemas surgiram antes dos aparelhos de telefone.

Os amantes, cansados do papel e da tinta, se propuseram a gastar saliva.

Sem beijo, sem toque, presentes, olhar vagamente na Lua, nos fantasmas.

Diz-se e se escuta, não se vê, e apenas se discerne a voz abafada. Cochicho.

Há quem diga que foi a mensagem de texto o começo e o fim da voz.

O ZapZap inventou o vácuo e o visto por último, batizando o esquecimento.

 

No princípio, antes do verbo, os telefones eram sem-fio:

não havia Roblox, nem Bobbie Goods.

O amor era simples, não bombing.

Os fantasmas atravessavam as paredes, sem ghost.

 Os telefonemas são uma metáfora de um tempo.

 Telefornar-te alguma vez. Ligar-te. Salvar-te o contato. Salvar-te a vida na minha, como assim se fez a tarefa de dizer-te pessoa x, não digo o nome, da parte da minha vida y*, cujo asterisco sinaliza a lembrança relativa de importância de alguma coisa ou de algum evento a que não posso me esquecer quando assim outra vez te telefonar, se te telefonar, afinal, os telefonemas são para as memórias importantes como os bilhetes de geladeira na letra feia e curva garrancho da vida que não se anda e nem se corre e se vive intensa salva nas listas de contato a quem um dia se pode e ñ se sabe se ligará. Eu telefonar-te, eu elefonar-te-ei. Amanhã? Não sei dizer. Cabe tanto isso nos meus dias. Teu nome, tua importância, teu contato de telefone-sem-fio salvo no meu telefone.

 Os telefonemas são todas as mensagens que não puderam ser escritas, e foram faladas.

 Com pressa e com suspiro, no sigilo da fala e na angústia da escuta.

Foram as mensagens que não foram datilografadas.

Foram os bilhetes de geladeira amassados.

Telefonar-te.

 Eu certa vez brinquei de telefone-sem-fio quando criança. Não conheci o Roblox, não entendo ainda tanto da gravidade cúmplice do amor. Eu escrevo poemas. Melhor, cometo o crime de escrever poemas. Eu salvo contatos de telefone pelo nome.

 Os telefones surgiram pelo cansaço dos telégrafos.

As listas de contato pela importância que se dedica às pessoas.

 E a mentira? Quando a primeira criança cochichou no ouvido do “outro” e falou a verdade.

 

Enzo Peixoto é escritor, poeta e estudante de medicina. 

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