LEITO QUATRO
se vai mais um dia
entre muitos que pensei viver melhor olhares como se esperança fosse um entulho
de lamentações acelera meus pulmões ginsberg tece comentários entre a luva
indesejada e o prato de comida que chega como hospitalidade aquele antro de
desespero e chagas destila em meu caos inconformidades com o divino que insiste
em me reter sem qualquer motivo na verdade queria estar em um aeroplano sobrevoando
as praias de humberto de campos ou conversando com uns amigos na porta do bar
do adalberto
às vezes yeats faz
me lembrar da samsara que é um copo de leite gelado após a bebedeira flanando
pela avenida melo e povoas agarrado nas arrepiadas ancas de uma morena observo
o marasmo da calcinha da mulher que ri ao lado naquele bar entre estrelas
descontinuadas todos os meus provérbios de existir me negam tropeço mais uma
vez na mesmice de acreditar em corações complacentes hainoã quando me chama de
pai caem meus hemisférios sobre a baía de são marcos há felicidade entre o roer
de unhas e a dor da cutícula
na rua do giz minha
vertebral luz minha jerusalém estoica meu gozo sobre o colo de prostitutas
noites que como beatnik caminhava desolado em busca de algo mais que pudesse
estancar as interferências prejudiciais dos versos inacessíveis anti-herói
soprava a dualidade dos anos oitenta/noventa com barba rala & jaqueta
desbotada transpirando revoluta paixão um ser barroco à procura dos espelhos
perdidos com a obscura missão de continuar em precipícios acreditando que há um
verão orgástico no caminho do poeta
a verdade da vida
era para ser escrita em forma de poesia pouparia do desgaste secular de
acreditar em são tomás de aquino o amor só vale a pena se não exigir tíquetes
de estacionamento bandeira da mastercard crediário nas lojas de departamento da
magalhães de almeida agora recluso entre gotas interestelares seringas peidos fortuitos
e azedos o deserto de barreirinhas é o arpoador das minhas abstrações bundinhas
tesas adornadas de branco tangenciam minha libido meu cacete endurece entre uma
e outra troca de antibióticos
o céu mais azul que
já havia visto se instala em meu coração do olho d’água à ponta do farol
iemanjá me guia com suas ondas caudalosas o espírito de meu avô parece dançar
entre as pedras de arrebentação da ponta da areia batuques inebriantes
cadenciam aquela noite enquanto os trinta e nove e meio graus me jogam de um
lado para outro iniciado em rotinas e fast-foods inconformismos parecem me tragar
para o boqueirão se pudesse acenderia velas para os ancestrais bashô está
comigo é o que me deixa calmo pelo menos dessa vez
reviro-me para
tentar apaziguar o cansaço do trópico de capricórnio que há em minhas costas as
mulheres da antiga sunset rasgam meus olhos pela madrugada naquele equinócio de
desesperança onde líamos camus pessoa gullar chopes ecoavam no saloon pronto a
explodir a nudez de uma amistosa moça nem todos se sentiam na primeira fila do
carnegie hall o cobertor florido aquece meus ossos embargados por um dia quase
todo de febre e delírios ao lado da cama minha mulher ronca baixinho como um
poema arisco de alice ruiz
rabolu encontrou as
engrenagens simbióticas de jesus maomé quetzacoaltl pelas ruas desfilou em seu
fleetmaster conversível muito embora a discoteca fosse o religare preterido
chove sobre os telhados do turu e não sinto nada estou vazio como um biscoito
ensopado de café frio aproveito para conferir intempéries não aguento mais ficar
imóvel sobre a esquálida cama apesar de muitos livros ao meu redor nenhum tem a
atmosfera lúdica de peshkov se eu fosse líquido precipitaria sobre os túmulos
carcomidos do cemitério do gavião
queria caminhar pela
rua portugal destilar imoralidades com sotero vital ou ouvir o guriatã cantar
que a coroa está no maracanã meu alento são alguns metros quadrados e a memória
profícua e desolada a contemplar a kalevala entre uvas tangerinas e
sorrisos de minha mãe a conversar há uma catarse de choros e ainda não é sexta-feira
nos corações das pessoas nem mesmo o extremismo fático dos grupos muçulmanos a
cortar gargantas pelo iêmen calará os preciosos traços dos redatores da charlie
hebdo
meus cabelos parecem a décima quinta de shostakovich a antissepsia é tão complexa quanto as linhas de nazca mamãe me dá uma ajudazinha e me enche de sândalo barato ouço no rádio que o país não é mais o mesmo crise à vista salários minguados violência se instalando dentro das casas a oligarquia baixando a guarda no maranhão o mundo é uma sobra de falências múltiplas enquanto uma criança vietnamita chora a perda de seu cão assado em um mercado público a standard & poor’s rebaixa a nota de investimentos no brasil
*Este poema faz parte do livro “A desordem das coisas
naturais”, publicado pela Editora
Penalux-SP, 2018.
Bioque Mesito é poeta,
autor de sete livros de poemas publicados.

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