40 MARANHENSES
“Como se sabe, mente
sadia é muito mais difícil...”
Tempos atrás, na época em
que todos liam o Pasquim — a época era de Ditadura e o Pasquim era o único
jornal que a criticava usando as sutilezas do humor — em uma de suas tiradas o
semanário saiu-se com esta, ironizando as peculiaridades de cada estado da
Federação:
Cada 15 cariocas: uma
roda de samba, 30 baianos: um trio elétrico; 10 gaúchos, uma roda de
chimarrão... e cada 40 maranhenses: uma academia de letras.
Referia-se à vocação dos
maranhenses para as letras e para a nossa sina de criação de organizações
literárias denominadas de Academias. (E olha que, nessa época, não havia sequer
um quinto das academias de letras que hoje existem em nosso estado).
Esse fato me envaideceu
como maranhense e acho que deveria continuar a nos orgulhar, apesar da
brincadeira, pois demonstra o zelo que o maranhense tem pelo exercício das
letras. (Se, infelizmente, ao mesmo tempo, o maranhense é um dos cidadãos
brasileiros que menos lê, essa questão vira coisa de outros quinhentos — que
cabe uma investigação séria para descobrir o motivo por trás desse aparente
paradoxo.)
O fato é que todo mundo,
no Maranhão, pretende e se diz imortal entendendo que esse é um privilégio, ou
um título, de quem se torna acadêmico de letras. O que faz sentido, pelo
orgulho da tradição histórica de esta Terra ter feito jus ao título de Atenas
Brasileira.
Revendo algumas crônicas
por mim escritas em tempos idos deparei com uma publicada no jornal O imparcial
em 1989. Eu havia voltado a morar em São Luís após longa ausência e estava
ávido por praticar a Literatura dando vazão aos meus impulsos literários e,
nessa crônica, fazia a comparação da observação pasquiniana com a proliferação
em São Luís, de Academias de Ginástica que então eram, grosso modo, quase uma
em cada esquina.
Eu escrevi: “Que
proliferem também as academias de ginástica é bom que assim seja para que o
maranhense incorpore e exerça em plenitude a sabedoria latina do Mens Sana
incorpore sano investindo, também no corpo. Como se sabe, mente sadia é muito
mais difícil.”
Não sei a quantas andam
hoje em dia as academias de ginástica, parecendo-me que não sejam tão
frequentes quanto eram nessa época.
Quanto à imortalidade
lembro, a propósito, algumas frases de escritores famosos:
“A única vantagem de um
sujeito ser escritor é que ninguém o chama de burro por ganhar tão pouco”
“No Brasil, escritor é
chamado de imortal provavelmente porque não tem onde cair morto”
Por último, quando
perguntado porque não se candidatava à Academia Brasileira de Letras o genial e
sarcástico Millôr Fernandes se saiu com esta:
“Deus me livre! Jamais
gostaria de participar de um rodízio de mortos!”, ou
“ A maior vontade do
intelectual é ser rico. E a do rico é ser intelectual.”
José Ewerton Neto é poeta, escritor, membro
da Academia Maranhense de Letras.

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