GRANDES MEDOS
O primeiro grande
medo, identificado por volta dos quatro anos, foi o de ser sequestrada por
índios. Não, não morei no velho Oeste americano, mas meu pai foi juiz de
direito de Barra do Corda, cidade em que era grande o vai-e-vem de índios o
tempo inteiro. Não os índios de hoje de calção adidas e havaianas, que sentam
às portas dos botequins, bebendo cachaça e jogando dominó, confundidos com os
caboclos subnutridos da região, cara de um focinho do outro, mas os orgulhosos,
imponentes, emplumados e pintados, ou até alguns, entre os aculturados mais
importantes, de terno de riscado e pés descalços. Visitavam meu pai,
vestidos(?) a caráter, e eu me escondia. Olhava arregalado e pensava, se eles
sequestraram a “infeliz Perpetinha”, por que não a mim?
De volta a São Luís, livre dos índios (ufa!)
enfrentei o segundo medo. Esse foi
terrífico! O medo do Diabo. Aquele de rabo e chifre, pés-de-cabra, peludo e
soltando fogo pela boca, medieval, como as freiras que inseriram o terror na
minha alminha de seis anos. E este rendeu muito tempo. Até por volta dos dez
anos, tinha certeza da sua aparição, a qualquer momento: daria então uma grande
risada que racharia a parede do meu quarto de menina má que esquecia a genuflexão
diante do Santíssimo – talvez porque passasse correndo pela nave principal da
igreja do colégio.
Comecei cedo a ler
a Bíblia. As freiras mandavam e eu tomei gosto. Achava e acho, sem desrespeito,
que ler a Bíblia é fruir o legítimo prazer do texto. E a minha predileção eram
as partes catastróficas do Velho Testamento. O dilúvio, O Êxodo, Sodoma e Gomorra
e as proibidas pelas religiosas, tipo Cântico dos Cânticos. Depois, o Novo
Testamento com o Apocalipse. Por volta dos oito anos, sonhava com os rios
tornados em sangue, as estrelas caindo nos mares e os Quatro Cavaleiros, voando
montados em seus cavalos magros pelos ares em fogo. Acordava suada e corria
para o quarto dos meus pais.
Aos onze, doze eram os vampiros. Dormia com o
pescoço coberto por um lenço e havia sempre uma cabeça de alho à cabeceira,
pequenas cruzes também. Nessa época a minha leitura preferida eram as histórias
de terror e os romances policiais, ao lado de Eça e Herculano. Muitas vezes me
peguei observando se as minhas amigas tinham a sua imagem refletida nos
espelhos.
Após isso, veio uma
breve época dos maremotos (que hoje chamam tsunamis). Depois da morte de meu
pai, aos meus dezessete anos, nada mais me atemorizou, a não ser o medo de
perder entes queridos, o que me aperta o peito cada vez mais.
Destemida que
fiquei, enfrentei procelas, dragões e serpentes insidiosas que passaram pela
minha vida, sem esmorecer. Agora, na feliz melhor idade (quem terá sido o
humorista que inventou isso?) parece que volto à minha infância.
Reinventei os meus
medos, não mais do diabo e fim do mundo, apesar das surpresas que a Terra nos
tem dado, mas troquei-os por coisas corriqueiras.
Vejam só,
hoje tenho medo de ficar à porta da minha casa, de fazer e receber
visitas depois das sete da noite; do carteiro; do homem que entrega flores; dos
que dizem que vêm fazer inspeção contra mosquitos da dengue; dos adolescentes
nos sinais; das crianças desconhecidas que se aproximam de mim nas ruas; dos
mendigos; da mulher bem vestida que me pergunta as horas; de sair bem vestida,
aparentando sinais de riqueza que estou longe de possuir; de pedir que alguém afaste
um pouco seu carro para que eu possa tirar o meu; das motos com duas pessoas;
das motos com uma pessoa; de abrir minha bolsa para dar esmolas; de ter bolsa;
de entrar em um banco; de sair de um banco, com ou sem dinheiro; das pessoas
maledicentes; de ir a igrejas, restaurantes e festas, de entrar e sair de casa;
de ficar dentro de casa.
A lista é longa, não a finalizaria neste
espaço. Mas creio que os dias que mais me dão medo são os feriados que celebram
amor, gratidão e costumes afetivos e religiosos universais. Aqueles em que a
humanidade eleva os sentimentos para homenagear seus ícones mais caros: o
Natal, o Ano Novo, o Dia das Mães, o dos Pais, o das Crianças e sei mais lá o
quê. Nesses dias sei que sairão dos presídios magotes de cavalheiros que
tiveram nota dez em bom comportamento, para encher as ruas e fortalecer as
gangues. Dentre esses, estarão os mais bem avaliados e, que obviamente, não
precisam mais ser ressocializados, por isso não voltarão, uns por estarem bem
mortos, outros por terem muito o que fazer aqui fora...
O medo dos medos: temo por meus filhos e
netos, que não estão ainda em tempo de recolhimento e sentem com mais urgência
e intensidade a vontade de participar das coisas boas que a cidade ainda tem
para oferecer. Carnaval está chegando, os que partiram em revoada, voltaram
para passar as férias. A alegria esperada está pari passu com o medo. Esta não
é uma cidade para adolescentes se divertirem. Quem os protegerá, se a própria
polícia não consegue proteger a si mesma?
Oh, seria preferível o Diabo medieval, que os
modernos os temos aí; o Apocalipse e seus quatro cavaleiros foram devidamente
substituídos pelo aquecimento global; os índios – ah, esses estão assombrando
os trens da Vale; vampiros, não contam mais, viraram símbolo sexual. Quero os
meus velhos medos de volta.
Ceres Costa Fernandes é escritora, cronista e
membro das Academias Maranhense e Ludovicense de Letras.

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