O BUMBA MEU BOI DO MARANHÃO JÁ GANHOU O MUNDO

Onde tem maranhense tem fé, devoção e festa junina

Se você estiver passeando por São Paulo, Rio de Janeiro, Distrito Federal, Goiás, Santa Catarina e até na França, não se assuste ao ouvir matracas, maracás e pandeirões do Bumba Meu Boi Maranhense. Não, você não está sonhando e nem delirando. É que ao longo do tempo, maranhenses e apaixonados pela tradição junina do Maranhão levaram os sons, as cores e os ritmos das toadas da nossa cultura Brasil e mundo afora.

Assim foi quando estava acompanhando a programação do Festival Internacional de Dança de Joinville no inverno de 2025. No palco catarinense, ocupado por bailarinos de dança clássica e contemporânea, ecoou um improvável Boi de Santa Fé: “Santa Fé Chegou”

Para minha surpresa e deleite do público, começava ali, no primeiro dia da mostra competitiva do Festival, a premiada apresentação “Sou Santa Fé” da Escola Municipal Governador Pedro Ivo Campos de Joinville que arrebatou o seu 12º título na categoria Danças Populares Brasileiras (Conjunto Júnior). Orgulhoso, transmiti parte do número no Instagram, o resto é história: viralizou.

Ainda impactado pela beleza e fidelidade à nossa tradição, entrevistei a coreógrafa responsável pelo projeto, Elisiane Wiggers e alguns adolescentes da escola que não só bailavam certinho, com o cordão de batuqueiros e o miolo de boi (uma menina), como exibiam indumentárias e apetrechos com todos os elementos da representação junina maranhense, de Pai Francisco e Catirina as burrinhas, o boi com couro bordado com canutilhos, os chapéus de fitas, penas de índias aos cazumbás do Boi de Santa Fé iluminados com neon com detalhes bordados – à perfeição. Apurei que tudo, havia sido produzido a várias mãos pelos próprios brincantes e seus familiares liderados por Elisiane que havia visitado o Maranhão no ano anterior para pesquisar na sede dos bois e representá-los com respeito a cultura maranhense.

Eixo Rio e São Paulo - Se onde tem maranhense tem festa, não seria improvável que as Unidades Federativas com maior número de habitantes do Brasil e consequentemente o maior número de migrantes maranhenses, não teria arraial junino. Em São Paulo, mais precisamente no Morro do Querosene, a tradição é mantida pelo cantor, compositor, ator, dançarino e pesquisador maranhense, Tião Carvalho. Nascido em Cururupu, ainda menino iniciou seu aprendizado nas danças e festividades populares, vendo e ouvindo de perto os bumba bois de Costa de Mão. Nos anos 80 e 90 já estabelecido em São Paulo fundou o Grupo Cupuaçu e liderou a Festa do Boi que acontece três vezes por ano na comunidade que mora.

No Rio de Janeiro, mais precisamente em Parada de Lucas, duas famílias de vianenses (Rosa Castro e Silva Costa), saudosas dos festejos maranhenses, mobilizaram conterrâneos e vizinhos, e há 39 anos exibem a cultura maranhense em terras cariocas. A mais recente apresentação do Boi Brilho de Lucas que saiu do quintal e ganhou o reconhecimento dos cariocas, foi no Museu do Rio de Janeiro. Já a festa no bairro, faz parte do calendário cultural oficial da cidade do Rio de Janeiro, desde 7 de janeiro de 2010 com a aprovação da Lei Municipal n.5.146.

Bons Frutos - Como o fruto não cai muito longe do pé, o filho de Tião Carvalho com a brincante Doraina Pregnolatto, Noel Carvalho já há algum tempo, lidera movimentos populares de Bumba Meu Boi e Tambor de Crioula no Estado de Goiás. É amo do Boi do Rosário e brincante da Flor de Pequi. O músico, produtor musical, compositor e educador, que possui sólida formação acadêmica em Música, vem desenvolvendo e atualizando a tradição sem esquecer as suas raízes culturais e musicais.

Não distante, o Mestre Guará Freire virou figura central na preservação e promoção da cultura popular no Distrito Federal. Filho do icônico Mestre Teodoro Freire que chegou a Brasília em 1963, continua o legado de seu pai, dedicando-se à manutenção e valorização das tradições maranhenses, especialmente o Bumba-Meu-Boi de Seu Teodoro e o Tambor de Crioula, no coração de Brasília.  Sua Trajetória é marcada pela liderança do Centro de Tradições Populares de Sobradinho. Com base em seu valor histórico e artístico o Boi de Seu Teodoro foi declarado Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial, por meio de seu registro no Livro de Celebrações do Distrito Federal em 2004.

Fora do Brasil, vez ou outra, chegam relatos de arraiais e apresentações juninas. A maranhense do interior de Cantanhede, radicada em Nantes, Filomena Gomes, por exemplo, organiza junto ao músico e compositor baiano Fernando, o Boi Naoned que faz apresentações nas ruas, bares, restaurantes, escolas e festivais com pandeirões e tambor onça. Filó, como é conhecida pelos maranhenses relata a existência de um boizinho na capital francesa, liderado por outro conterrâneo, o músico Jeremias.

Seja onde for e como for, os sons, ritmos e cores do Maranhão ecoam em honra de São João mantendo a tradição ancestral viva, em várias partes do Brasil e do mundo graças a fé e devoção de maranhenses e apaixonados por nossa cultura. Não é loucura e nem delírio. O tambor, a matraca, a caixa ou o maracá quando ecoam, trazem força!

 


Marcus Saldanha é historiador, jornalista e escritor.

Comentários

  1. Parabéns, pelo belíssimo e verdadeiro texto à tradição do bumba meu boi maranhense, que eleva nossa cultura popular a diversas plagas brasileiras e, até, mundiais!

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  2. Melhor de todos faço parte

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  3. Excelente!!! Orgulho da nossa cultura. Meu coração bate em ritmo de matraca , durante todo o mês de junho. 🍀

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  4. Célia Jorge Dino ☝🏼

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