O JOGO
ALÉM DAS QUATRO LINHAS:
A
FORÇA FEMININA NA COPA DO MUNDO
Enquanto conquistam mais espaço no esporte, mulheres seguem enfrentando
barreiras históricas em um universo tradicionalmente masculino
No artigo do jornalista Raony Salvador,
publicado em 26/03/2026, destaca-se que a palavra “torcida” no futebol não
possui equivalente direto em outras línguas. Antes de se tornar sinônimo das
multidões nos estádios, ela surgiu em um contexto bastante diferente e, ao que
tudo indica, teve origem nas arquibancadas ocupadas por mulheres no início do
século XX.
Segundo a página oficial do Fluminense
Football Club, a origem da palavra está ligada ao ambiente do campo da Rua
Guanabara, em Laranjeiras, nas primeiras décadas do século XX. Assistir a uma
partida era, naquele momento, um evento social marcado pela formalidade: os
homens vestiam terno, enquanto as mulheres compareciam aos jogos com vestidos
longos, sombrinhas, leques e luvas.
O Brasil conta com quatro mulheres na
delegação da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 2026: Andréia Picanço,
médica assistente e nutróloga; Cláudia Schnabl Faria, gerente-geral; Marisa
Santiago, psicóloga com especialização na área esportiva; e Priscila Mesquita,
assessora de marketing. Na Copa do Mundo deste ano, o Brasil tem o dobro de
mulheres na delegação em relação à Copa do Catar, realizada em 2022. Ainda é
pouco. As mulheres deveriam ocupar mais posições de destaque na seleção.
Renata Silveira, contratada da TV
Globo, foi a primeira mulher a narrar um jogo deste Mundial na televisão aberta
brasileira. Ela atuou na partida entre Bélgica e Egito, realizada nos Estados
Unidos.
Segundo estudo realizado pelo Ibope
Repucom, o interesse do público feminino pela Copa do Mundo de 2026 iguala-se
ao do público masculino no Brasil. A pesquisa aponta que 71% das torcedoras
brasileiras conectadas são fãs da competição organizada pela FIFA.
Entre os 170 oficiais de arbitragem
escalados para a competição, apenas seis são mulheres. Embora integrem a equipe
de arbitragem, elas representam apenas 3,5% do total. O grupo é formado por
duas árbitras centrais, revelando a disparidade de gênero existente no apito.
Essa realidade evidencia a necessidade de superar o machismo ainda enraizado no
futebol.
A imprensa noticiou que as mulheres dos
jogadores da seleção transformaram os jogos em uma passarela milionária,
exibindo bolsas de grifes como Hermès, Louis Vuitton, Balenciaga e Bottega
Veneta. Com isso, roubaram parte da cena nas arquibancadas, transformando o
futebol também em uma vitrine de estilo.
As mulheres são destaque nas
arquibancadas da Copa do Mundo deste ano, liderando o engajamento das chamadas
WAGs (wives and girlfriends — esposas e namoradas de jogadores). Muitas delas
são empresárias bem-sucedidas e possuem milhares de seguidores nas redes
sociais.
A sigla WAG surgiu no Reino Unido, em
2002, como apelido dado às mulheres dos jogadores ingleses. Na Copa do Mundo de
2006, na Alemanha, o termo ganhou destaque com Victoria Beckham, esposa do
ex-jogador David Beckham. Na mesma época, no Brasil, utilizava-se o termo
pejorativo "maria-chuteira". Com o passar do tempo, porém, as WAGs
desvincularam-se desse rótulo.
Quem não se lembra de Larissa Riquelme,
a musa mais famosa da Copa do Mundo de 2010, na África do Sul? A paraguaia
roubou a cena nas arquibancadas ao torcer com um celular acomodado entre os
seios.
Atualmente, Georgina Rodríguez,
companheira do jogador português Cristiano Ronaldo, é uma das figuras mais
aguardadas nas arquibancadas, sendo capaz de ofuscar até mesmo a atuação dos
jogadores em campo.
Vale destacar também a presença
feminina de diversas nacionalidades nas arquibancadas para acompanhar os jogos
da Copa do Mundo realizados nos Estados Unidos, no México e no Canadá.
O Brasil sediará a primeira edição da
Copa do Mundo Feminina da FIFA na América do Sul, em 2027. O evento deverá
gerar impacto sociocultural significativo, promovendo a inclusão das mulheres e
contribuindo para o combate à desigualdade em um esporte historicamente tratado
como um universo predominantemente masculino. É chegada a hora de quebrar esse
paradigma, superar o preconceito contra as mulheres que jogam futebol e lutar
por melhores salários e mais valorização profissional.
A mulher precisa ocupar o espaço que
lhe cabe no futebol, ambiente que durante décadas foi dominado pelos homens. A
Copa do Mundo Feminina de 2027, que será realizada no Brasil, representará uma
oportunidade para que as mulheres mostrem sua força e contribuam para mudar
esse placar que, historicamente, sempre favoreceu os homens.
Gilmar
Pereira Santos é advogado
e escritor de livros infantis.


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