SUA CIDADE TEM
HISTÓRIA, O QUE FALTA É CONTAR
Canhanhede mostra que é
preciso coragem e determinação
para mergulhar na própria
história, mas pode valer muito a pena
O Projeto Barbados em
Cantanhede quer resgatar a história e através dela, melhorar a qualidade vida
de seu povo, mas pode fazer mais que isso. Afinal, quem define a importância
histórica de uma cidade? Não seria antes de tudo seu próprio povo? Antes que uma
cidade seja reconhecida como patrimônio histórico ou cultural pelo IPHAN ou até
pela UNESCO, é um erro enorme ignorar o potencial cultural e turístico da
história de uma cidade. Seja ela qual for, a idade que tiver e onde estiver.
Cantanhede, na região do Vale do Itapecuru, com apenas 25 mil habitantes e com
menos de 80 anos de emancipação não só descobriu isso, como pode em pouco tempo
tornar-se referência na elaboração de roteiros culturais e históricos.
O Projeto Barbados de
Turismo, coordenado pelo jornalista Luiz Carlos Amaral, é um bom exemplo de
prospecção e elaboração de roteiros históricos numa cidade que a princípio
ignorava sua própria história e o potencial turístico oriunda dela. Nascido e
criado no município, o jornalista segue obstinado pesquisando nos arquivos do
Brasil e de Portugal, fazendo levantamento bibliográfico e oral, inventários e
principalmente reconstruindo in loco, episódios históricos relevantes ocorridos
na região, mas que seguiam cheios de lacunas.
O que não faltam são
fatos, curiosidades e lendas com enorme potencial de atração turística que aos
poucos estão sendo sistematizados no Plano Municipal de Turismo de Cantanhede
que em nada deixa a desejar a muitas cidades reconhecidas como históricas. Da
fé em um milagreiro popular, ao passado ancestral de milhares de anos. Da
influência europeia e norte-americano na construção de pontes ferroviárias a
personagens da literatura nacional e ao maior bolo frito do mundo.
Tudo cabe nas
possibilidades levantadas pelo dedicado pesquisador Luís Carlos. O Caminho de
Barra Nova, por exemplo, tem tudo para ser uma oportunidade dos moradores e
visitantes conhecerem a figura do operário da construção da Estrada de Ferro
São Luís–Teresina (Ferrovia João do Vale) e mito religioso Sebastião Barra
Nova: sua saga, sua liderança no trabalho, o envolvimento amoroso com a amante
de um poderoso coronel, a prisão, as torturas, a morte e a construção de sua
adoração religiosa.
Num percurso planejado
para 18 km de extensão, desde a Casa de Barra Nova (local da prisão), passando
pelo local do assassinato e finalizando no Cemitério dos Barbados, no município
de Pirapemas, onde Barra Nova repousa para a eternidade.
Quantas cidades Maranhão afora têm histórias de personagens interessantes como Barra Nova e que valem a visita de pesquisadores, excursionistas, turistas e até de moradores?
E não para por aí. No
ousado Plano Municipal de Turismo também estão previstos três passeios
românticos com rotas que desembocariam em três vagões-suítes do Projeto
Ônibus-Trem. O primeiro passeio seria o "Ana Amélia & Gonçalves
Dias", com início no arco referente ao casal, seguindo pela Estrada
Romântica até o vagão-suíte situado nos Jardins de Ana Amélia, ao lado da
Estação Ana Amélia (antiga Estação de Itapiracó). O segundo, "Antoninha
& Sebastião Barra Nova", sairia do arco do casal até o vagão-suíte temático
localizado nos Jardins de Antoninha e o terceiro "Dona Luzia & Dom
José Thomaz", partindo do arco do casal até o vagão-suíte temático situado
nos Jardins de Dona Luzia. Os três roteiros seriam constituídos de arranjos
românticos e realizados em carruagens retrô, tornando o percurso ainda mais
encantador.
Os empreendimentos seriam
voltados à iniciativa privada.
Outra boa proposta é a do
ônibus-trem que percorreria 30 km da Estrada de Ferro São Luís/Teresina
(Ferrovia João do Vale), com dez estações em parceria de vários países com
relação histórica com Cantanhede. A estação João Flaeschen (parceria com o
governo alemão), já que a ponte sobre o riacho Jundiaí foi projetada e erguida
sob o comando do engenheiro alemão João Flaeschen (inaugurada em agosto de
1913); a estação localizada ao lado da ponte Antônio Carvalho Pinto de Souza,
inspirada nas estações de Utrecht, na Holanda numa parceria com o governo dos
Países Baixos e remeteria ao período da ocupação holandesa no Maranhão, com
passagem pelo Vale do Itapecuru, sob o comando do almirante Jan Cornelisz
Lichthart; a Rota Guanaré destinada ao estreitamento dos laços entre Cantanhede
e a França, de onde veio o colonizador e capitão do mar Pierre Lamagnère; a
Estação Engenheiro Palmério Cantanhede (parceria com governo norte-americano)
com revitalização da antiga estação ferroviária do centro de Cantanhede e
instalação de um Café e o Restaurante Litania da Velha (antigo armazém), em
homenagem à escritora Arlete Nogueira. Abrigaria ainda o Memorial Palmério de
Carvalho Cantanhede, descendente do colonizador português Faustino Mendes
Cantanhede, o idealizador da Estrada de
Ferro São Luís–Teresina; a Estação Enói Enói Nogueira da Cruz (parceria com o
Líbano) que prestaria uma homenagem a imigração libanesa no Brasil, em especial
ao major da Guarda Nacional, Paulo Antônio Simão; a Estacao Gabriel Malagrida
(parceria com o governo italiano), em homenagem ao padre jesuíta Gabriel
Malagrida, que entre os anos de 1723 e 1727, esteve na antiga Região dos
Barbados (atual Cantanhede), atuando na catequese dos povos Guanaré e
Caicaizes; a Estação Três Negros (parceria
com Angola, Benim e outros países da diáspora africana ligados ao Vale do
Itapecuru) que receberia esse nome em homenagem aos escravizados Jacob, Vicente
e Luiza, que lideraram a Revolta de Cantanhede e assassinaram o feitor da
fazenda do capitão Antônio Joaquim Cantanhede, em 1813; a Estação Marquês de
Marialva (parceria com Portugal) e finalmente a Estação Cel. Souto-Maior
(parceria com a Espanha), homenageando a família que teve origem no Castelo de
Soutomaior, na província de Pontevedra, na região da Galícia, Espanha, onde há
um constante debate em torno da figura do lendário Pedro Madruga (Pedro Álvares
de Soutomaior), que, segundo alguns estudiosos galegos, teria sido o navegador
Cristóvão Colombo.
O Plano também
identificou o enorme potencial arqueológico para a compreensão dos povos
originários do Vale do Itapecuru: os Barbados, as nações Guanaré, Caicai e
Uruati. A ideia é a criação de sítios arqueológicos, como o Poço da Pitomba, o
cemitério do Morro do Escravizado (povoado Boa União), o cemitério de São
Bartolomeu, os achados do Boqueirão do Inferno/Caminho do Padre e as ruínas do
engenho do colonizador Ayres Carneiro Homem de Souto-Maior, entre outros.
Conectado a história
recente do município e do norte do Estado, foi anunciado a criação da primeira
Ladeira do Reggae do Brasil e de um dia dedicado ao reggae durante a Festa do
Município de 2026. A proposta é transformar a Rua Olavo Bilac em um espaço temático
dedicado ao movimento cultural originário da Jamaica, com pintura artística no
asfalto, iluminação especial e homenagens a importantes personalidades do
reggae local, entre elas Carne Seca, Aurino e Otávio Aguiar. O projeto também
estuda a instalação de uma réplica de radiola e de um espaço para fotos
("selfie reggae"), permitindo que moradores e visitantes registrem
sua passagem pela primeira Ladeira do Reggae do Maranhão.
Rota quilombola - A
Coordenação de Turismo de Cantanhede, por meio do Projeto Barbados de Turismo,
também projeta colocar o município no livro dos recordes. A iniciativa faz
parte de uma política de pertencimento, valorização do saber e reconhecimento
de uma herança africana presente até hoje na culinária cantanhedense.
O município cearense de
Pindoretama entrou para o livro dos recordes ao produzir a maior rapadura do
mundo, com 18.660 kg. Reconhecido pelo RankBrasil, o doce gigante mede 6,80 m
de comprimento, 2,23 m de largura e 0,80 m de altura.
Em Cantanhede, a proposta é que o maior bolo frito de arroz do mundo sirva como atrativo em uma das paradas (PIT – Ponto de Informações Turísticas) ao longo da Estrada Transquilombola. No PIT de Morros, além da exibição do maior bolo frito de arroz do mundo, o visitante terei acesso a informações sobre a Região de Turismo do Leste.
Muitas ideias que
poderiam definir seu autor como mais um maluco sonhador. Mas em tempos de
casarões arruinados e destruídos, seja pelo abandono do poder público ou dos
seus proprietários que deveriam zelar pelo patrimônio histórico ao invés de
investir na política de ruínas (deixar cair) ou de reconstruções “modernas” de
gosto duvidoso, o jornalista que luta por parcerias públicas e privadas é um
ponto de esperança num palheiro de descaso e destruição, justamente pela
coragem de enxergar no passado o seu maior trunfo para o futuro.
Há muito mérito nos projetos e se pularem do papel, em pouco tempo, corre o risco de Cantanhede, uma pequena cidade do continente maranhense, sem praia e nem casarões coloniais com fachadas de azulejos e gradis de ferros, ser uma referência nacional de uma economia local forte, com preservação patrimonial e natural surfando na indústria que mais cresce no mundo: o turismo. Vale todo o risco e investimento.
Marcus Saldanha é escritor, historiador e jornalista.


Comentários
Postar um comentário