AZOUBEL - UM ARTISTA NA FOTOGRAFIA MARANHENSE

Pioneiro no Fotojornalismo maranhense deixou legado de profissionalismo, perfeccionismo, 

longevidade, humildade e arte na Fotografia do século XX

Na manhã do dia 28 de julho de 2002, o fotógrafo maranhense Dreyfus Nabor Azoubel, preparou meticulosamente a cena, como sempre fazia, apontou sua derradeira câmera, uma pequena Cannon 35 mm de foco fixo para a escultura do Anjo Gabriel, parte do Caminho de São José na Praça da Matriz, bem em frente ao Santuário de São José de Ribamar e disparou seus últimos clics.

Cinco dias depois, em 02 de agosto, Dedé como era carinhosamente chamado por familiares e amigos mais próximos faleceu em São Luís, aos 83 anos, vítima de uma crise asmática e pneumonia encerrando uma carreira marcada pelo profissionalismo, perfeccionismo longevidade, humildade e arte.

Em tempos onde todo mundo é fotógrafo, com smartphones equipados de lentes e zooms cada vez mais potente capazes de produzir milhares de instantâneos por minuto, a obra do primeiro repórter fotográfico do Maranhão e o mais longevo fotógrafo do Estado no século XX é arte que precisa ser reverenciada permanentemente.

      O fotógrafo Azoubel

“Saber olhar, ter sensibilidade e usar a técnica adequada”, essas eram para ele, as qualidades que definiam um bom fotógrafo. E isso, ele tinha de sobra, afinal foi assim, munido primeiramente de máquinas grandes com caixa de madeira de fole e chapa de vidro e posteriormente acetato utilizadas em tripé até chegar na sua inseparável Speed Graphic, posteriormente a Rolleiflex e finalmente chegando as Pentax mecânicas que não abria mão de ajustar manualmente foco, velocidade, abertura e ISO, que conciliou registros de fatos importantes, como a  “Greve de 1951”, o naufrágio do Maria Celeste em 1954, o pouso do ditador argentino Juan Perón no Maranhão, a visita oficial do presidente Juscelino Kubitschek, como a captação de paisagens maranhenses, de crianças posando dentro e fora do estúdio ou de festas populares e manifestações culturais que o tempo cuidou de transformar em documentos históricos fundamentais para se entender o Maranhão do século passado.

      A greve de 1951

Entre tantos que viveram da fotografia dano Maranhão que abriram lojas no século XX e instalaram “comércio” na Ilha, como o Foto Amorim, Foto Sombra, Foto Mendonça, Azoubel foi acima de tudo um artista no ofício. Não à toa, além da cobertura oficial de solenidades da Polícia Militar, da Rede Ferroviária, da Loteria Estadual ou da Secretaria de Comunicação de vários governantes que com quem trabalhou, Azoubel contribuiu ilustrações e fotos para vários artigos de jornalistas e artistas maranhenses, entre eles José Sarney (Colunista de Polícia em O Imparcial) e Miécio Jorge (autor de O Álbum do Maranhão de 1951).

Numa época que a fotografia ainda caminhava para ter seu reconhecimento artístico no Maranhão, teve seu trabalho exposto no Teatro Arthur Azevedo em 1951 por iniciativa de amigos após uma decepcionante negativa de cessão da Academia Maranhense de Letras pelos imortais.

Participou do primeiro Salão de Artes do Maranhão durante o governo Newton Bello e a pedido dos familiares organizou uma nova exposição de obras e equipamentos pessoais em 1994, quando já tinha 75 anos de vida. Recebeu medalhas e títulos variados. Justo reconhecimento para um pioneiro que começou a trabalhar com o pai muito cedo.

Criança já acompanhava o pai, limpava as chapas de vidro usadas como negativos, manuseava os produtos químicos do laboratório e coloria imagens (viragens) numa época que a pintura e o retoque de fotos eram estéticas imprescindíveis para valoração comercial e artística. Até que em 1931, aos 12 anos foi contratado por O Imparcial para ser gravador (repórter) e retratista. Esta última, exerceu em quase todos os periódicos maranhenses de sua época (além de O Imparcial, Jornal do Povo, Diário de São Luís e Combate) até a aposentadoria por conta de catarata nos olhos aos 70 anos, o que não significou abandonar sua câmera.

Considerado pelo jornalista e pesquisador da história da Fotografia e do Fotojornalismo José Reinaldo Martins, no artigo acadêmico do jornalista e professor da Universidade Federal do Acre (UFAC), Diogo Azoubel (sobrinho de Azoubel), como precursor do Fotojornalismo maranhense cujas imagens revelavam traços raros e poéticos de uma São Luís atemporal e como “O mais expressivo fotojornalista maranhense do século XX”.

Filho do imigrante judeu e turco, Leão Menagem Azoubel e da maranhense Ana Lopes, nasceu no dia 12 de julho de 1919 (Ou dia 28, já que há controvérsias sobre o dia correto do seu nascimento), na rua das Crioulas, no centro histórico de São Luís e foi fundamental para o registro diário de personagens e paisagens da cidade, constantemente revisitada nos perfis que mostram a São Luís do século passado nas redes sociais, nem sempre com o devido crédito.

Polivalente e obstinado deixou um legado muito maior que imagens raras. Mas valores e atitudes profissionais e humanas de quem viveu com dignidade e amor pela profissão e sua cidade. Por isso, São Luís ainda lhe deve uma exposição permanente à altura de seu talento e quem sabe um curso técnico e\ou superior de Fotografia em sua homenagem.

 


Marcus Saldanha é historiador, jornalista e escritor.

Comentários

  1. Parabéns caro Marcos pela pauta em trazer A memória A história de Quem Registrou A História do Estado do Maranhão.📸✍️📻

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