Há Séculos Pai
Francisco e Catirina recontam a História do Brasil
Como a dominação
senhorial ainda segue determinando
as apresentações do Bumba
Meu Boi no Maranhão
A cada guarnicê anunciado
por um batalhão pesado de um grupo de Bumba Meu Boi do Maranhão, independente
do sotaque, a História do Brasil é recontada. Através dos antigos personagens,
uma representação histórica dos conflitos, das tensões e da vida econômica,
política, social e cultural brasileira.
Há séculos é assim. A
cada intervenção, mudança, adaptação ou até mesmo silenciamento e apagamento de
um personagem, de uma indumentária, de um compasso musical ou de um estilo de
representação, no fundo é um termômetro de como nos enxergamos ao longo do
tempo. Talvez por isso, o Bumba Meu Boi seja hoje o nosso melhor espelho.
Basta pensar como o Auto
do Bumba Meu Boi foi apeado das brincadeiras, reduzidas ao longo do tempo, de
parte essencial da nossa tradição oral, a meras atrações dos arraiais públicos
e privados. Não se diz mais brincadeira do Bumba Meu Boi, mas sim apresentação
do Bumba Meu Boi.
O que parece um mero
detalhe de termo, é extremamente preocupante, uma vez que revela o mais
perfeito retrato de como a imposição das elites segue viva e forte. Pior, mais
perigosa ainda, uma vez que em permanente busca racional pela adequação,
enquadramento e submissão da cultura popular e seus atores ao status quo dos
poderes constituídos.
A Igreja Católica, por
exemplo, detentora oficial do ensinar e pensar, soube utilizar o teatro para
catequizar e estabelecer ordem e controle social. Basta analisar o enredo com
“moral da história”, onde o incontrolável desejo de Catirina (uma mulher) pela
língua do boi, induzindo o marido (homem\empregado) a uma criminosa ação que
resulta na morte do principal touro do seu amo.
Uma recriação simbólica e
didática da história bíblica de Adão e Eva utilizada como ferramenta na
doutrinação de valores cristãos e senhoriais através do castigo, da submissão,
reforçando alegorias de estigmatização por meio do medo, do pecado, do inferno
e supervalorizando o benevolente perdão do amo.
Conceitos medievais
continuados através dos jesuítas para a manutenção da economia agrária
colonial: Servirás, humildemente. Aceitarás teu destino. Não roubarás (teu
senhor). Tua recompensa está no céu. Enquanto isso, um modelo predatório e
acumulador seguia gerando riquezas e ampliando as desigualdades.
Hoje temos a redução da narrativa jesuítica, subvertida pela engenhosidade de agricultores e vaqueiros, gente humilde das fazendas e vilas, mas verdadeiros mestres que souberam fundir o culto aos santos católicos celebrados no fim dos ciclos anuais agropastoril aos elementos religiosos e simbólicos indígenas e africanos como forma de resistência. Toda a violenta imposição ideológica colonial e a reação pela permanência dos valores ancestrais através de revoltas e insurreições, reduzidas ao descontextualizado e ridicularizado desejo de Catirina em consumir algo de alguém.
A denúncia levada da zona
rural para o centro da cidade de Tutóia pelo extinto Boi Realeza nos anos 70 e
80, infelizmente parece ter ficado no passado: “A estrela do pobre só brilha
quando tem dinheiro pra gastar, as eleições vêm aí, e nós vamos votar, nesse
dia pobre tem valor e tem carro de luxo pra andar.
Hoje, no mesmo município,
as brincadeiras exaltam com riqueza de ornamentos, as belezas locais do Delta
do Parnaíba, dos Lençóis Maranhenses, mas também a benfeitoria e obras de seus
padrinhos, geralmente políticos que patrocinam os grupos folclóricos em troca
de apoio e votos, reproduzindo principalmente os bois de orquestra do Munim,
que lhes servem de referência.
Os antigos senhores
coloniais escravocratas seguem perpetuados e reverenciados no atual político e
empresário do “Agro Pop” com a agenda pública em prol da diminuição dos
direitos trabalhistas, como a ampliação da escala de trabalho e fim do décimo
terceiro salário e férias.
Se antes as brincadeiras
apropriadas pela comunidade eram consideradas violentas, porque subversivas à
elite provincial, vide os arquivos policiais que registram casos de brincantes
acusados de vadiagem e os limites claros de uso do espaço urbano determinado
por lei até o subúrbio da cidade, hoje ocupam muitas vezes, subalternamente os
arraiais públicos e privados.
Com pires na mão em busca
de recursos e tempo estipulado de apresentação, com constante pressão por
modernização e inclusão de novos elementos rítmicos, sonoros e visuais. Tudo
isso sob forte concorrência das atrações externas, mais adequadas ao repertório
do “show business” nacional.
O que para muitos é uma
simples atualização cultural, representa na prática, a vitória das elites pela
imposição de um estilo comercial, pasteurizado e lucrativo. O senhor
patriarcal, revive toda vez que Catirina e Pai Francisco, vaqueiros, índios e
índias e o espírito das florestas são transformados em meros produtos de
entretenimento comercial e estão ali simplesmente para satisfazer, as
expectativas de deleite da plateia.
Não se trata de recusar
as inovações. A orquestra introduzida aos grupos, ainda na primeira metade do
século passado em Rosário, por exemplo, conta bem como o encontro da tradição
popular com novos instrumentos (sopro e cordas) na comunidade durante um velório,
intuitivamente cria um mundo de novas possibilidades musicais e artísticas.
Sob tensões e olhares de
mestres que autorizam ou desautorizam uma recriação cultural, as brincadeiras
populares seguem vivas e poderosas. Mas sobre o comando alheio, de burocratas
reproduzem a violência social, política e cultural. Muitas que lhes originou.
Torçamos para que
resistam, aos silenciamentos e exclusões. Que os grupos heroicamente alcançando
centenários de existência sigam não só na luta pela sobrevivência num modelo
cruel de restrições senhoriais e servis que divide os dominados, transformados sofisticadamente
irmãos em “contrários”.
A hora agora é de buscar
no espelho a imagem, com distinções e semelhanças e optar em qual direção
seguir. O maior desafio está posto à mesa, há séculos. A questão que parece
simples entre o passado tradicional e o futuro inovador, com um leque de possiblidades
amplas demais, pode não ser o cerne da questão, mas sim: seguir o modelo
senhorial de dominação colonial ou partir para um futuro ancestral e decolonial
com autonomia e liberdade?
De um lado, governantes,
amos, padrinhos, gestores culturais, donos das canetas que liberam emendas
parlamentares, assinam convênios, autorizam verbas dos projetos culturais; os
captadores de recursos que escrevem projetos e a banca examinadora que os aprovam
e organizadores de arraiais que definem os calendários e a programação junina.
Do outro lado, o brincante que dá om sangue na fé para o santo de sua devoção,
em troca de cachaça e mingau de milho.
Marcus Saldanha é historiador, jornalista e escritor.


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