NINGUÉM LEMBRA DO BOI
“Em época de boi ninguém
se lembra do boi.”
Em época de boi ninguém
se lembra do boi.
Sim, do boi. Será que
alguém já concedeu dois minutos de sua vida para refletir sobre o que é um boi?
Claro, todo mundo sabe que é um animal cuja carne a gente come e que tem
chifres. Mas será que alguém já parou para olhar direito para um boi?
Se teve paciência para
isso, descobriu, com toda certeza, que a paciência do outro lado é muito maior.
Porque senão este jamais ficaria olhando para outro bicho mais feio do que ele
(o homem), sem pestanejar, por horas e horas. Como também, em outras ocasiões,
prestes a entrar num açougue, para ser guilhotinado, jamais ficaria com aquela
pose de professor de ioga, como se estivesse filosofando ou refletindo sobre a
vida. Uma coisa parece certa: todo boi é um símbolo da paciência.
Se todo boi é sinônimo de
paciência começamos a entender porque num mundo tão bovino (como o nosso) um
boi não tenha lugar, a não ser nos jantares dos abastados, na forma triturada
de bife ou picanha. E, também, porque o ser humano, de natureza tão impaciente,
tenha tão pouca paciência com a paciência do boi a ponto de inventar o touro.
Isso mesmo. O touro é uma
das piores invenções humanas e se nem Freud explica eu tento explicar:
Provavelmente frustrado
por não conceber que um animal tido como inferior possa ser tão calmo,
filosófico, melancólico, estoico e forte o homem (que passa horas em uma
academia de ginástica tentando ser uma montanha de músculos e o mais que
consegue é ser uma réplica desastrosa de Sylvester Stallone) inventou o touro
por inveja e vingança, para maltratar e se divertir.
E haja touradas na
Espanha e suas tristes imitações pelo interior paulista! Nestes festejos,
chamados de rodeios, o divertimento é lançar pobres bois magros pelo chão para
que uma multidão de paspalhos se sinta como anacrônicos heróis do faroeste
norte-americano. O que não alcança, porém, o sadismo das touradas espanholas de
onde foram originadas. Lá coloca-se um boi de natureza mansa e se tenta
fantasia-lo de sanguinário espicaçando sua bondade e paciência até que o mesmo
perca o controle. Ao invés de mata-lo rapidamente (como fazem os profissionais)
o divertimento está em sacrificar o pobre animal lentamente. A fantástica
paciência do boi é tanta que até se presta para isso: perdido em sua fantasia
volta-se contra um pano vermelho e tomba ferido logo após, para satisfazer a
crueldade da turba que grita “olé”.
Por isso, cada vez mais
deve ser louvada a tradição maranhense de exaltar o boi. Aqui, ao invés de
rodeios e touradas a festa é do boi. O homem fica em baixo do boi e não o
contrário. A lamentar-se apenas a deterioração progressiva dos cantos e
tradições em favor da invasão de cantores que nada têm a ver com a festa do
boi. Certo, o boi tem muita paciência, mas não precisava fazê-lo escutar
Anittas e Safadões. O boi pede calma.
Dito isso, continuemos a
valorizar o boi, a sua paciência, a sua sábia e eterna paciência. E jamais
esquecer que, em matéria de sabedoria, a deles está muito acima da nossa. Até
mesmo nos chifres. Pois com certeza é muito melhor carrega-los de nascença do
que adquiri-los depois. Como a maioria dos homens.
José Ewerton Neto é poeta, escritor, membro
da Academia Maranhense de Letras.

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